À segunda época completa como presidente do FC Porto, André Villas-Boas cumpre o destino que prometera aos sócios aquando da eleição a 27 de abril de 2024. O título nacional, quatro anos depois do último, tem dedo do líder da SAD, que foi influente na decisão de trazer Francesco Farioli para a Invicta. Vincando que queria mudanças e que não olhava só ao curto prazo, estabeleceu que a ambição tinha de estar sempre presente, apesar das variadas dificuldades financeiras. Vencer o campeonato à segunda época de planeamento é indicador importante para os associados e consegue, até, o que o Benfica tinha conseguido por duas vezes no século. Luís Filipe Vieira foi eleito presidente em 2003, sucedendo a Manuel Vilarinho, e em 2005, com Trapattoni, foi campeão. Rui Costa herdou Jorge Jesus em outubro de 2021, apostou em Nélson Veríssimo para o substituir por seis meses, até a aposta em Roger Schmidt dar título em 2023. O Sporting, como se sabe, viveu um longo jejum desde 2002. Dias da Cunha entrou em agosto de 2000 e na segunda época seria campeão. Soares Franco, José Eduardo Bettencourt, Godinho Lopes e Bruno de Carvalho não lograram o principal objetivo. Frederico Varandas teve cinco treinadores antes de Rúben Amorim (Peseiro, Tiago Fernandes, Marcel Keizer, Leonel Pontes e Silas) e, entrado em 2018, só conseguiria o campeonato com o ex-jogador do Benfica em 2020/21.Vítor Bruno foi sucessão sem convicção, Anselmi uma aposta ao ladoCom mais de 80% dos votos, Villas-Boas derrotou Pinto da Costa e herdou Sérgio Conceição, técnico que tinha uma relação de profunda afinidade com o antigo presidente dos azuis e brancos, o qual cumpriu um ciclo de 42 anos no emblema. Sérgio acumulou 11 títulos nacionais, com destaque para os três campeonatos. O FC Porto esperou até à última para uma resolução, Conceição ganhou a Taça de Portugal no Jamor e ficou Vítor Bruno, adjunto, com o cargo, mesmo que não reunisse apreço enorme na bancada. Zubizarreta, diretor-desportivo nomeado, esperava-se poder encontrar um treinador pouco depois da decisão de Sérgio Conceição, de sair do clube, mas ficou sempre a ideia de que a preparação ficou condicionada. Longe do título, Vítor Bruno saiu em janeiro, após o Mundial de Clubes, e Martín Anselmi, argentino com vitórias na Copa Sudamericana e Recopa Sudamericana pelo Independiente del Valle – um feito para os equatorianos – foi a escolha para um projeto que se pensava a longo prazo. Porém, com somente dez vitórias em 21 jogos e dificuldade para ver os jogadores adaptar-se ao esquema tático, Anselmi durou menos de seis meses e as ondas de choque dirigiram-se ainda para o diretor, Zubizarreta, que também sairia no verão..O impacto Jorge Costa Sem Zubizarreta, ficava Jorge Costa na gestão do futebol, até ao fatídico dia 5 de agosto. No Olival, o diretor do futebol profissional sofreu uma paragem cardiorrespiratória fulminante que lhe levou a vida. O legado e a mística percorrem as palestras ao longo do ano, há um simbolismo e união capitalizados pela estrutura desde esse dia e o Centro de Treinos e Formação Desportiva Porto/Gaia foi até rebatizado com o nome do antigo central. Villas-Boas reformulara o scouting, profissionalizou partes da estrutura, mas ganhou relevo. Foi mais do que presidente e estabeleceu uma proximidade à equipa de futebol para amenizar as transições várias. A renovação com Farioli até 2030, ainda em janeiro, corresponde exatamente à sensação de Villas-Boas de profundo alinhamento com o italiano, figura com poderes reforçados também no ataque ao mercado em 2026/27. .Reequilíbrio financeiro, investimento e valorizaçãoEncontrando dificuldades de tesouraria, dificuldade de vender ao nível de Benfica ou Sporting, o FC Porto teria de cumprir exigências da UEFA e a reestruturação da dívida era premente. O recurso a emissões obrigacionistas históricas no valor de 115 milhões de euros com entrada no mercado norte-americano foi estabelecido com uma taxa fixa acima da média de 5% (5,62%), mas garante previsibilidade para duas décadas. Em 2024/25, os 32 milhões de euros investidos em Samu foram a exceção de um mercado controlado, no qual foi, sim, prioritário vender. Os 60 milhões de Nico González, 50 de Galeno e 37 de Evanilson permitiram ao FC Porto respirar para atacar 2025/26. E este ano, sem a Champions, o desequilíbrio foi de apenas 24 milhões de euros e já contraído tendo a noção de que o título podia estar a caminho. O all-in foi preparado e medido ao longo do caminho. Froholdt (20 M€) e Gabri Veiga (15 M€) foram fulcrais para o meio-campo, Alberto Costa (15 M€) substituiu João Mário, vendido por 12 M€, e para os centrais gastaram-se 21 milhões de euros entre Bednarek e Nehuén Pérez, acrescentando-se o experiente e livre de contrato Thiago Silva e o empréstimo de Kiwior, que custará 17 milhões para ficar em definitivo. Borja Sainz e Pietuszewski, para as posições de ataque, perfazendo com os dois 22 milhões de euros, ajudaram ao investimento recorde no clube, acima dos 102 milhões de euros. Reequilibrados, porém, com 78 milhões de euros em vendas. Otávio foi para o Paris FC por 17 milhões, Francisco Conceição ficou efetivo na Juventus por 32 M€.Em termos estruturais, a possibilidade da Academia da Maia foi abandonada, avançando-se com um projeto de Centro de Alto Rendimento nas imediações do Olival, rentabilizando parte da estrutura que já está em execução. Destaca-se ainda a aparição do futebol feminino, que consolidou duas subidas para pertencer à I Divisão, a criação de um portal de transparência e o associativismo: o FC Porto passou os 175 mil sócios de acordo com os mais recentes relatórios graças aos mais de 25 mil que se inscreveram desde agosto de 2025.."Trouxe-o de volta a esta casa e acabei por o perder aqui". Villas-Boas emociona-se ao recordar Jorge Costa.Villas-Boas ascende ao trono após célebre passagem pela cadeira de sonho