Quando o Brasileirão de 2025 arrancou, nem o adepto mais otimista do Mirassol, pequeno clube da cidade homónima de cerca de 60 mil habitantes no interior de São Paulo, imaginava que, pouco mais de um ano depois, veria a equipa recém-promovida pela primeira vez à elite do futebol brasileiro fazer a sua primeira viagem internacional e logo para jogar a Taça Libertadores da América.Na última terça-feira (14), o Leão Caipira, como é carinhosamente tratado, foi até Quito, onde enfrentou a LDU (derrota por 2-0), na sua segunda partida pela principal competição de clubes da América do Sul - na primeira havia vencido o Lanús em casa por 1-0. A presença no torneio deste ano é fruto de uma época de estreia digna de contos de fadas na temporada passada, quando o clube comandado pelo jovem Rafael Guanaes conquistou um impressionante quarto lugar no Brasileirão, atrás apenas dos poderosos Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro.Visto por muitos especialistas do futebol brasileiro como exemplo de gestão dentro e fora dos relvados, o Mirassol chegou à elite do Brasileirão após um longo trabalho de investimento nas estruturas do clube, resultado de um projeto sustentado e distante da ganância imediata. Clube de pequenas dimensões, antes habituado a transitar entre o terceiro e quarto escalão brasileiro, apesar de presença frequente na elite do Paulistão, o Mirassol passou por uma transformação recente que teve como ponto de viragem a venda de Luiz Araújo ao Lille, em 2017. Formado no clube e atualmente no Flamengo, o avançado que à época atuava no São Paulo rendeu ao Mirassol, dono de parte dos seus direitos, um valor que foi investido na construção de um centro de treinos moderno, que é considerado referência no país e base da estrutura profissional da equipa, que ajudou a colocar o Mirassol na elite. Com a missão de evitar a queda no primeiro ano na primeira divisão, o departamento de futebol montou uma equipa recheada de veteranos que tinham passado por grandes clubes e outros jogadores por vezes rotulados de forma pejorativa como “refugos” - sobras, aqueles que ninguém quer. Para surpresa de todos, a combinação resultou.Com uma defesa forte liderada pelo guarda-redes Walter, ex-Corinthians, e pelo lateral-esquerdo goleador Reinaldo, ex-São Paulo e Grêmio, aliada a uma transição rápida entre meio-campo e ataque, o Mirassol tornou-se um dos adversários mais difíceis de enfrentar no Brasileirão 2025. Ao longo do torneio, venceu gigantes como Corinthians, Fluminense, Palmeiras, São Paulo, Vasco da Gama, Grêmio e Internacional, e ainda terminou com um 3-3 frente ao Flamengo na última jornada. Ainda por cima, foi dono de uma marca de impacto: a invencibilidade em casa durante toda a competição.Para esta temporada, repetiu a fórmula. Buscou o antigo médio do Benfica e destaque da Portuguesa no início da época, Gabriel Pires, e reforçou o ataque com Tiquinho Soares, avançado que brilhou pelo V. Guimarães e pelo FC Porto e teve passagens de altos e baixos por Botafogo e Santos no regresso ao Brasil. Carlos Eduardo, que também atuou pelos dragões e estava no Cruzeiro, foi outro a desembarcar no clube, mas nem só de chegadas viveu a equipa do interior de São Paulo.Como era de se esperar, após uma temporada de tanto êxito, alguns dos principais destaques do Mirassol foram contratados por clubes maiores. Pilar do setor defensivo, Jemmes acertou com o Fluminense, enquanto o motor do meio-campo, Danielzinho, transferiu-se para o São Paulo, a exemplo do lateral-direito Lucas Ramon. Já o camisola 10, Gabriel, antigo médio do Flamengo, decidiu não renovar contrato e rumou ao Sporting Cristal (Peru), enquanto o artilheiro Chico da Costa transferiu-se para o Cruzeiro.A equipa de Rafael Guanaes sentiu a saída dos cinco titulares, ao mesmo tempo que viu os reforços ainda longe da plena adaptação. Prova disso foi a eliminação precoce no Paulistão - diante da Portuguesa - e o péssimo arranque de Campeonato Brasileiro: em dez partidas, foram seis derrotas, apenas uma a menos do que em toda a última edição do torneio, sendo cinco consecutivas, resultados que colocam o clube, neste momento, como lanterna vermelha da competição, com apenas seis pontos (a única vitória foi com o Vasco, por 2-1, na primeira ronda).Para tornar ainda mais difícil a situação do Leão Caipira, além dos 16 clubes que se mantiveram na elite, dois dos promovidos estão a surpreender na Série A - os rivais paranaenses Athletico e Coritiba, atualmente sexto e sétimo classificados. O Coritiba, inclusive, já derrotou a equipa paulista no confronto direto.E se a primeira viagem internacional a Quito foi motivo de orgulho para o povo de Mirassol, conciliar a luta pela sobrevivência no Brasileirão com a tentativa de ir o mais longe possível na Libertadores pode tornar-se um fardo pesado. Com um plantel envelhecido, um estilo de jogo mais estudado, adversários mais fortes e um calendário exigente, manter o conto de fadas da época passada será uma tarefa tudo menos simples para o simpático clube do interior..Como o Flamengo se tornou o destino favorito dos treinadores portugueses no Brasil.Comparado a Coutinho e com raízes na Madeira: quem é Maycon Cardozo, a joia luso-brasileira do Bayern