Valter Sousa é selecionador de elites e sub-23.
Valter Sousa é selecionador de elites e sub-23.Rodrigo Rodrigues/FPC

Selecionador de ciclismo ao DN: “Não vale a pena forçar a condição de João Almeida”

Valter Sousa explica a convocatória para os Europeus e porque preferiu que João Almeida e António Morgado fossem poupados. Afonso Eulálio não teve autorização da Bahrain, Ivo e Rui Oliveira da UAE.
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Valter Sousa, selecionador das elites e sub-23 masculinos de Portugal em ciclismo, explicou pela primeira vez em entrevista as decisões para o Mundial do Canadá, no fim de semana passado, e a convocatória para a Eslovénia, para os Europeus, deste próximo fim de semana.

Ao Diário de Notícias, reconhece que face ao “potencial da Seleção” o resultado em Montreal “ficou abaixo das expectativas”, nem sequer nos 50 primeiros, o pior resultado da Seleção desde 2016. E reconhece problemas com o momento de forma dos principais corredores. Começou por António Morgado, prata em edições de Mundiais de juniores e sub-23. “António Morgado vinha de um período competitivo irregular, em setembro acumulou quatro abandonos consecutivos [provas de um dia italianas]. Monitorizamos os atletas, conversamos com eles, e em agosto estava bem, mas ficou doente em Setembro. Acumulou corridas e nunca esteve na melhor forma, apesar de nos Mundiais entendermos que poderia ser o nosso segundo melhor corredor”, assim justifica, exemplificando que o atleta de Salir do Porto, da UAE Emirates, “não foi ao contrarrelógio dos Mundiais  como campeão nacional por não ter feito provas de crono pela equipa, nem sequer trabalhado com a bicicleta específica.”

Quanto a João Almeida, revela que o “previsto era só fazer os Europeus.” “Fez um bom contrarrelógio na Vuelta [3.º], pediu para experimentar [a prova de estrada dos Mundiais], mesmo que fosse para trabalhar para os colegas”, informou Valter Sousa, que aponta a “época irregular”, que Almeida se “esteve a testar na Vuelta, mas exalta a “disponibilidade do atleta para a Seleção.” Adianta que não fez o contrarrelógio dos Mundiais, porque “já tinha sido prometido a Ivo Oliveira e Nelson Oliveira” essa participação, por achar que Almeida não estaria disponível.

Selecionador de ciclismo explica ausências dos Europeus ao DN.
Selecionador de ciclismo explica ausências dos Europeus ao DN.Rodrigo Rodrigues/FPC

Em análise global, Sousa vinca que “existem corridas no calendário internacional a que as equipas querem ir” e que “a Federação tenta acomodar as necessidades dos ciclistas e dar todas as condições possíveis, mesmo quando a preparação anterior não é ideal”. Isso remete para as convocatórias, mas também para justificar os resultados do passado domingo, em que acreditava que Eulálio pudesse estar melhor: “Foi nono no Canadá semanas antes, estava em boa forma, mas teve uma avaria, esperou por uma bicicleta, não conseguiu recolar a subir, depois foi sempre muito rápido o ritmo da corrida e houve desmotivação porque não conseguiu chegar ao grupo principal. A estratégia era proteger o Afonso Eulálio, não era um dos favoritos, mas conhecia o percurso e a classificação no Canadá dava confiança. Não era favorito ao top-10, mas acreditávamos num bom resultado”. Adianta que “sem poder usar o rádio não havia total noção de onde estavam outros corredores portugueses”, no caso Ivo Oliveira e Nelson Oliveira.

Para a prova de estrada dos Europeus de domingo, com cinco subidas com pendentes de 10% de inclinação média, Sousa não conta com Afonso Eulálio: “Estava já combinado que não iria aos Europeus, a larga maioria dos atletas da Bahrain, dos principais, não teve essa autorização.”

No caso de Morgado e João Almeida trata-se de uma questão de opção. “Temos de olhar para a forma dos atletas. Conversámos e aceitaram. Não está em causa a confiança neles, avaliamos o momento competitivo e a exigência do Europeu”, justifica ao DN. Desafiado a comentar a temporada de João Almeida e os vários problemas físicos que o impediram de ir ao Giro e ao Tour e de ser competitivo na Vuelta, Valter Sousa sai em defesa do ciclista: “Há conversas que ficam entre nós os dois, mas temos um dos melhores ciclistas do mundo e a função da Federação como instituição é proteger ao máximo os nossos atletas. Se não convoco o João é também por isso, porque não vale a pena força. Se a melhor forma é encontrar-se e parar, que assim seja. É normal. Vai ter tempo e acreditamos nele.”

Por outro lado, a UAE Emirates terá limitado a convocatória de Rui e Ivo Oliveira. “Comunicaram-nos que estavam indisponíveis”, afiança. Ivo irá a uma prova no Japão, mas a 18 de outubro, Rui termina em Guangxi, na China, a temporada, com começo de prova para dia 10. São as provas para já conhecidas.

Na Eslovénia desde quarta-feira dia 30 de setembro, o selecionador não teme o facto de ter 80% do plantel composto por ciclistas do pelotão nacional. Até porque a quilometragem reduz-se em mais de 80 km, comparando ao Mundial. “Quem faz 60 dias de corrida por ano pode ter acumulação de cansaço e isso favorece-nos. Além disso, em Portugal os ciclistas fazem distâncias próximas, por vezes andam nos 190 km de etapa. Não teremos um líder, podemos colocar ciclistas na fuga, mas Tiago Antunes [Efapel] é um bom corredor neste tipo de provas, o Afonso Silva e o Pedro Silva também”, elogia os atletas de Efapel, Tavira e Feira dos Sofás-Boavista, entendendo que Nelson Oliveira pode ser um “trunfo numa corrida aberta”.

Refuta a ideia de pouca força coletiva de uma equipa cujo plantel dedicou atenção principal à Volta a Portugal há quase dois meses. “Quando há ausência de competição faz-se outro tipo de trabalho. E informamos os atletas, os que estão pré-selecionados, para que façam trabalho a pensar na convocatória. Fizemos altitude, arranjámos estratégias, trabalho específico. Não é a mesma coisa do que a competição, mas não será isso a limitar-nos”, garantiu. Sem ter ainda confirmação oficial, Valter Sousa disse que "trabalha para a melhoria da Seleção e dos resultados", valorizando a formação e lembrando o lugar entre os 15 melhores do mundo no Canadá, com Daniel Moreira. Conta, portanto, permanecer no cargo para 2027 e está "tranquilo" com os que transitarem de sub-23 para elites.

Valter Sousa substituiu José Poeira, que foi selecionador 25 anos, levando Portugal à conquista dos Mundiais em Florença em 2013 com Rui Costa, além da prata de Sérgio Paulinho nos Jogos Olímpicos de 2004.

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