Vinícius Lopes comemora golo contra o Marítimo na última jornada da Primeira Liga.
Vinícius Lopes comemora golo contra o Marítimo na última jornada da Primeira Liga. Foto: HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

Santa Clara: o clube mais brasileiro de Portugal é a grande surpresa no início do campeonato

Com 15 brasileiros no plantel, clube ocupa o quarto lugar após dez jornadas. Projeto é liderado por empresário mineiro cujo futuro no clube levanta dúvidas devido à sucessão nos negócios da família.
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Os avançados Brenner, Luiz Fernando e Vinícius Lopes não partilham apenas a mesma faixa do campo no habitual onze do Santa Clara, mas também a mesma nacionalidade: a brasileira. Titulares na vitória por 2-0 sobre o Marítimo, no último domingo, 1 de novembro, os três são apenas alguns dos muitos brasileiros que encontraram nos Açores uma oportunidade para construir ou relançar as suas carreiras.

No início da temporada, eram 17 os brasileiros no plantel do Santa Clara - agora 15 -, clube onde a ligação ao Brasil vai dos extremos do ataque ao proprietário da SAD, Bruno Vicintin, empresário de Belo Horizonte e antigo vice-presidente do Cruzeiro. E a aposta, neste início de época, tem dado frutos: após dez jornadas, os açorianos ocupam o quarto lugar da Liga, com 21 pontos, os mesmos do Sporting e apenas quatro atrás do Benfica.

Entre os brasileiros que hoje vestem a camisola açoriana, há um pouco de tudo, desde antigas promessas de grandes clubes a jogadores que passaram por várias equipas de menor dimensão e jovens praticamente sem experiência profissional.

Matheus Araújo, conhecido como MT, é um deles. Apontado como promessa do Vasco da Gama alguns anos atrás, chegou aos Açores em 2022, por empréstimo, depois de não conseguir afirmar-se no clube carioca.

Pelo caminho, o antigo médio ofensivo reinventou-se como defesa e acabou contratado em definitivo. É dos jogadores mais antigos do clube: acompanhou o Santa Clara na segunda divisão, participou no regresso ao principal escalão e continua a fazer parte de uma equipa que agora olha para a metade superior da classificação.

Guilherme Romão, por outro lado, chegou mais tarde à Europa. Formado no Corinthians, onde também surgiu como grande promessa, não se firmou no Timão e passou por clubes de menor dimensão, como CRB e Atlético Goianiense, antes de chegar à Europa, já perto dos 30 anos. Tem sido um nome importante neste início de época, presença constante no onze inicial e, na última jornada, o lateral esquerdo fez inclusivamente a assistência para o primeiro golo diante do Marítimo.

Há ainda jovens menos conhecidos no cenário brasileiro, como Sorriso, recrutado na formação do Athletico Paranaense, e Léo Jacó, que passou pelo Atlético Goianiense, além de Brenner, um dos três brasileiros do ataque e outro dos destaques. Em Portugal, passou pelos sub-23 do Estrela da Amadora, pela União de Leiria e pelo Alverca (outro clube com forte ligação ao Brasil), onde ajudou a conquistar a subida à primeira divisão, antes de chegar ao Santa Clara. Esta época já soma dois golos na Liga.

O maior exemplo de que os Açores podem servir de montra para jogadores brasileiros no futebol europeu é Gabriel Silva. Antigo avançado das camadas jovens do Palmeiras, chegou ao Santa Clara em 2022 e rapidamente conquistou espaço no flanco esquerdo do ataque, tornando-se um dos jogadores mais velozes e perigosos da equipa.

Quatro temporadas depois, Gabriel saiu pela porta grande, transferido para o Sporting de Braga por 3,5 milhões de euros. Desde que trocou a ilha pelo Norte de Portugal, tem sido nome constante na equipa minhota e, agora mais recuado, atuando como ala esquerdo, até sonha com uma vaga na seleção brasileira.

E se os brasileiros dominam o plantel do Santa Clara em quantidade de jogadores, o melhor marcador neste início de época é português. E, curiosamente, Gonçalo Paciência reencontrou o caminho das bolas na rede nos Açores justamente depois de uma passagem frustrante pelo Brasil.

Depois de passar por Alemanha, Espanha e Japão, Paciência regressou a Portugal após uma passagem pouco feliz pelo Sport Recife, onde marcou cinco golos no campeonato estadual, mas nenhum no Brasileirão. A má fase em solo brasileiro parecia carimbar o início do fim da sua carreira, mas, aos 32 anos, o avançado reencontrou a eficácia nos Açores e já leva cinco golos na Liga.

A época do clube, porém, não tem sido inteiramente feliz. Em outubro, o Santa Clara caiu na terceira eliminatória da Taça de Portugal, surpreendido pelo Mafra, da Liga 3, que venceu por 3-2 após prolongamento. Por outro lado, sem a Taça no calendário, a equipa de Petit pode agora concentrar-se no campeonato, onde o quarto lugar alimenta a possibilidade de voltar às competições europeias na próxima temporada.

Já a médio e longo prazo, o futuro do projeto brasileiro nos Açores pode depender de uma decisão tomada longe dos relvados. Em julho, a Folha de S.Paulo revelou que Ricardo Vicintin, pai de Bruno, pretende reformar-se dentro de cerca de um ano e meio e entregar ao filho a liderança do Grupo Rima, gigante industrial brasileiro com cerca de cinco mil trabalhadores. "Para ser sincero, ele já deveria ter assumido os negócios da família", afirmou o empresário, de 77 anos.

A sucessão nos negócios da família não significa necessariamente que Bruno tenha de abandonar o futebol português, mas deixa a pergunta: quando chegar a hora de assumir o comando do Grupo Rima, que lugar terá o Santa Clara na vida do empresário? Por enquanto, os brasileiros vão fazendo a sua parte. E o surpreendente quarto lugar da Liga dá-lhes bons argumentos para continuar nos Açores.

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