Sonho canarinho: brasileiros buscam época de afirmação em Portugal de olho num futuro na seleção
Mesmo que Portugal já não seja o principal destino de craques do futebol brasileiro como noutros tempos, não deixa de ser um país onde muitos começam a sua trajetória no futebol europeu e consolidam o reconhecimento na sua terra natal. Ao todo, a Primeira Liga deste ano, iniciada na última sexta-feira, 7 de agosto, conta com 84 atletas nascidos no Brasil, o que representa 23,7% dos jogadores estrangeiros em atuação no campeonato.
Mas ainda que o momento mostre que a maioria das grandes promessas brasileiras não esteja entre estes 84 jogadores - afinal, partem diretamente para ligas maiores, como Premier League ou La Liga -, quatro atletas que disputam o campeonato português este ano podem sonhar com uma vaga na seleção para o próximo ciclo. O principal deles é William Gomes, campeão pelo FC Porto em 2025/26 e que vai para a sua terceira época de dragão ao peito.
Revelado pelo São Paulo, o extremo canhoto, por vezes comparado a outro brasileiro que fez história no Dragão - Hulk -, é o jogador do país de maior destaque e projeção em solo português. Ainda com 20 anos, já soma 59 partidas com a equipa do Porto, tendo assinalado 14 golos e uma assistência. No início da janela de transferências, teve o seu nome associado a clubes como Atlético de Madrid, Arsenal, Manchester United, Newcastle e Roma, mas, para já, está assegurado para a temporada. Ainda que tenha muita concorrência na seleção, é um nome que seguramente Carlo Ancelotti tem em conta para os próximos anos.
Já em posições muito mais carentes da seleção brasileira estão dois jogadores formados no Palmeiras e possíveis postulantes a uma vaga na canarinha que atuam em Portugal. Embora tenha jogado mais como extremo na equipa de Rui Borges, Luis Guilherme, também de 20 anos, foi promovido ao profissional por Abel Ferreira como um legítimo camisola 10. No último Mundial, apenas Lucas Paquetá - que posteriormente se lesionou - desempenhava essa função na equipa de Ancelotti.
Da mesma geração de ouro formada pelo Palmeiras, com Endrick (Real Madrid), Estêvão (Chelsea) e Vitor Reis (Manchester City), todos já testados pelo italiano na seleção, Luis Guilherme já se coloca à disposição. "A Seleção é algo que eu sempre sonhei e continuarei sonhando", disse em entrevista à Trivela no final de julho. "É um novo ciclo de Copa [Mundial] que se inicia, certamente com novas oportunidades, e quero estar preparado para estar entre as opções e ter uma chance", complementou.
Outro "cria" de Abel, Gabriel Silva, do Braga, é mais um que quer numa nova posição mostrar que, aos 24 anos, ainda vai a tempo de voltar ao radar do seu país. Após surgir como extremo em Portugal pelo Santa Clara, chegou ao clube minhoto nesta época e tem sido utilizado como ala esquerdo no esquema de três centrais do treinador Carlos Vicens, correspondendo no setor.
Se conseguir afirmar-se nesta posição durante o campeonato, pode ser uma opção para o treinador italiano que, durante o Mundial 2026, tinha os veteranos Douglas Santos (32) e Alex Sandro (35) para a lateral esquerda. Ancelotti, aliás, já mostrou que não tem problema em adaptar a posição que um jogador atua no clube a outra na seleção. Não à toa, Wesley, da Roma, que atuou como ala esquerdo na última época em Itália, era o titular da lateral direita antes de se lesionar.
E enquanto William Gomes, Gabriel Silva e Luis Guilherme podem ambicionar, a médio prazo, uma chamada à seleção se mantiverem um nível alto nesta época, o Benfica pode ter no seu plantel um nome para o futuro da defesa brasileira. Nos últimos anos, não foram poucos os jogadores que chegaram jovens a Portugal e tiveram uma carreira meteórica em solo europeu. Se mantiver o ritmo do seu início no futebol profissional, o central Gabriel Índio pode ser forte candidato a seguir o mesmo rumo de outros conterrâneos.
Cria da formação do Athletic Club, de Minas Gerais, o jovem nascido em 2008 consolidou-se como titular da equipa mineira na segunda divisão brasileira durante a última época. Com apenas 17 anos, assumiu a posição sem medo e manteve o destaque durante o Campeonato Mineiro de 2025 após ter sido promovido à equipa principal pelo português Rui Duarte.
As boas atuações do central canhoto e veloz, que também pode atuar como lateral esquerdo, colocaram Índio na mira dos rivais mineiros Atlético-MG e Cruzeiro, do Palmeiras de Abel Ferreira, do AC Milan de Rúben Amorim, além de Napoli e Villarreal, mas foi o Benfica quem o apanhou. Ainda a atuar pela equipa B, mas também a figurar entre os disponíveis de Marco Silva, o central quer aproveitar a visibilidade em Portugal para surpreender e, ao lado das Águias, alçar voos cada vez mais altos. Ancelotti que fique atento.
