Coube ao destino ditar que, 40 anos depois do Mundial de 1986, Portugal voltasse a participar numa prova que tem o México como organizador, neste caso em parceria com Estados Unido e Canadá. Antes do reencontro com a seleção azteca para um jogo de preparação, o DN recuou até Saltillo, cidade que ficou, para sempre, na mente dos portugueses e não só. O local de concentração da equipa das Quinas, em 1986, foi o epicentro de um debate entre jogadores, por melhorias nas condições de trabalho e financeiras, com quem representava a Seleção e continuou meses depois em Portugal, já após a eliminação na fase de grupos depois de derrotas com Polónia e Marrocos, que contrariaram um arranque frutuoso diante da Inglaterra.Saltillo é um dos primeiros momentos de reivindicação pública na modalidade e marcou o curso para uma transformação no dirigismo, na evolução dos prémios de jogo, contratos de publicidade e condições logísticas e organizacionais nas seleções. “Fomos os maus da fita, na altura, mas houve um grito de revolta e foi a forma de um dia Portugal saber como organizar eventos. Fomos todos Salgueiro Maia e demos um pontapé de saída na luta pelo combate ao amadorismo”, começa por dizer Augusto Inácio, que relata que os jogadores, antes de rumarem ao México, nunca tiveram “garantias de condições, nem dos prémios de jogo” e que muitas vezes ouviram de Amândio Carvalho, antigo vice-presidente, um “logo se vê.” “Antes de irmos para o México, estivemos um mês a fazer a preparação em Portugal e o tema era sempre protelado. Chegámos lá e vimos que não havia organização. Tivemos de subir montanhas como preparação em certos dias e o campo do centro de treinos era inclinado, com buracos dignos de toupeiras. Percebemos logo que não havia organização”, conta ao DN Jaime Magalhães, corroborando as queixas e recordando que “existiam guardas armados, à cowboy, à porta dos quartos” e que “saqueavam jogadores” quando estes saíam para treinar. “Houve uma altura em que o Futre saiu lesionado de um treino, voltou ao centro de estágio e viu que tinha um segurança a remexer-lhe nas gavetas”, lembra Augusto Inácio.Uma das lacunas reveladas pela falta de planeamento foi o facto de Portugal nem sequer ter adversários oficiais para jogos de preparação. Inácio lembra até uma proposta inusitada que os jogadores acabaram por recusar: “Foi muito difícil, estávamos desterrados no meio de um deserto. Queriam colocar-nos a jogar contra empregados de mesa de um hotel. Isto não é profissional. Recusámos, naturalmente. Fizemos umas vezes 100 km até à fronteira para os Estados Unidos para ir aos centros comerciais. O lado mental não é falado quando se toca no assunto Saltillo. Houve excessos, sabemos que sim, mas é a partir daí que se começa a valorizar a ideia de que a presença das famílias deve estar autorizada e que os jogadores têm direito a ter momentos com os filhos e esposas”. .“Fomos os maus da fita, mas houve um grito de revolta e foi a forma de um dia Portugal saber como organizar eventos. Fomos todos Salgueiro Maia e demos um pontapé de saída na luta pelo combate ao amadorismo.”Augusto Inácio, ex-defesa da Seleção..A questão financeira não podia ser ignorada. “Tivemos prejuízo, claro. Numa chamada para casa, na altura, podia gastar-se o equivalente a 100 euros. Tínhamos de fazer barulho”, comenta Jaime Magalhães. Sabendo do que a Federação Portuguesa de Futebol passara a faturar com publicidade, os jogadores recusaram ter o logotipo da Sagres à vista como protesto. “Virámos o colete num treino, apenas isso. Mas nunca deixámos de treinar. Alguém passou a versão de que fizemos greve, mas isso é mentira”, detalha o antigo médio, de 1980 a 1995 profissional no FC Porto. Voltaria apenas em 1987 aos trabalhos na Seleção. “Assinámos uma carta a protestar por condições, fizemos barulho e muitos ficaram ‘queimados”, aponta ao DN.“Quem marcou aquele jogo com empregados de mesa? Nem o selecionador [José Torres] queria. Não estávamos com os sindicatos ou ao lado de forças políticas, sabemos que existiram coisas que não foram bem comunicadas e que mal se falou do dinheiro começaram a chamar-nos mercenários. Contudo, era a falta de condições de preparação que mais nos frustrava. No entanto, sabíamos da entrada da Olivedesportos, de como se faturava com publicidade, e nunca conseguimos negociar, coletivamente, o valor da nossa imagem. A Federação queria ficar com grande parte e cada jogador negociava, por si, uma quantia reduzida”, lembra Inácio, que, aos 31 anos, se manteve a jogar no FC Porto, mas nunca mais foi à Seleção, também por sua opção. “O dinheiro não foi para os jogadores, não sabíamos quanto e como receberíamos os prémios de jogo. A bola não entrou, fomos eliminados porque Marrocos foi mais forte fisicamente e chamaram-nos de mercenários, de bandidos. Mas porque os dirigentes eram intocáveis, ninguém os criticava. Houve depois barulho, mas em surdina, e a meio dos anos 90 Portugal evoluiu, o dirigismo melhorou, mas sem os soldados de 1986 isso não teria acontecido”, declara Inácio, titular no México como lateral esquerdo.“O Presidente [Silva Resende liderou de 1983 a 1989] nunca esteve connosco. Valorizo os presidentes que se seguiram e as pessoas profissionais que foram entrando para a FPF e que possibilitaram condições aos jogadores. Nada tem a ver com o que encontrámos e isso deve-se também ao que dissemos e fizemos em Saltillo”, destaca Jaime Magalhães , reconhecendo que já no Europeu de França, em 1984, para o qual não foi convocado, tinham existido “quezílias”, mas que a ida até às meias-finais da prova as “apagou”. “Tínhamos um grande grupo em Saltillo e demos sempre o máximo pelo país”, frisa, recusando falta de profissionalismo. Até recorda que, apesar das rivalidades internas entre FC Porto, Benfica e Sporting, as más condições uniram o balneário para a luta coletiva..“Sabíamos da entrada de publicidade na Federação. Nunca deixámos de treinar. Alguém passou a versão de que fizemos greve, mas isso é mentira.”Jaime Magalhães, ex-médio da Seleção.Álvaro Magalhães, por sua vez, diz que Portugal foi “muito cedo para o México” e que faltou “planeamento”. Ainda assim, salienta, em certo tom de crítica, que “os jogadores tinham de estar preparados para estar afastados da família” e que a componente financeira “não podia ser tão importante.” Concretiza, porém, que “eram péssimas condições de trabalho”, embora recuse a ideia de “perseguição” aos jogadores após Saltillo. “A maioria dos jogadores do FC Porto voltou logo e eu fui um dos que me insurgi no sindicato porque não havia resolução. Com vinte e poucos anos queria era jogar na Seleção e não podia estar à espera, a fazer greve mais de três meses”, elucida o ex-lateral do Benfica. “Foi importante reivindicar-se algumas coisas, mas a renovação foi natural e passou a existir, incomparavelmente, mais dinheiro. As condições nos clubes não eram péssimas, simplesmente o mundo foi evoluindo. Hoje, cada jogador tem uma banheira de gelo, antes dividíamos entre sete ou oito”, relativiza Álvaro, embora admita: “Se tivéssemos as condições de hoje em dia poderíamos ser campeões do mundo”, lembra, elogiando a geração de Bento, Damas, Carlos Manuel, Fernando Gomes, Diamantino ou Futre. .“Foi importante reivindicar-se algumas coisas, mas a renovação foi natural, passou a existir, incomparavelmente, mais dinheiro.” Álvaro Magalhães, ex-defesa da Seleção..Roberto Martínez anuncia várias novidades e confirma que Gonçalo Guedes é o terceiro avançado da seleção."Saltillo é um assunto mal resolvido para os jogadores".Amândio de Carvalho o dirigente em Saltillo