Miguel Trindade faz história no kickboxing e leva título mundial dos peso-pena
Portugal acaba de conquistar o seu primeiro título mundial no kickboxing. Miguel Trindade, de 25 anos, derrotou o turco Deniz Demirkapu na noite desta sábado, 17 de outubro, numa luta pelo Glory, principal liga da modalidade na atualidade, na Lotto Arena, em Antuérpia, Bélgica, e sagrou-se campeão dos pesos-pena.
O combate foi decidido no terceiro round, com a vitória do português por knockout técnico. Miguel Trindade aplicou uma sequência de três pontapés baixos no adversário, derrubando Demirkapu ao chão nas três vezes.
Antes da luta, Miguel Trindade contou ao DN sobre a sua preparação. Os pesos-pena têm de estar na marca dos 65 kg e alcançar este objetivo é, por si só, um trabalho exigente. Junto com os treinos, a alimentação ganha uma relevância ainda maior. “Temos que fazer uma longa dieta, mais ou menos de oito a dez semanas”, revelou o atleta, que, embora siga um plano restrito, não abre mão do sabor. “É comer comida limpa e evitar fritos, comer fora, molhos. Como massa, carne de vaca, peixe, frango, comida saborosa, só que dentro de certos parâmetros e quantidades”. Depois do foco na dieta, os dias que antecedem uma luta ganham outra estratégia. “Na última semana, vamos desidratar o corpo, suar, beber água, para alcançar o peso ali mesmo no milímetro. E depois voltamos a recuperar, a hidratar-nos e a ficarmos fortes”.
Veja o momento final da luta
‘El Unico’
Miguel Trindade começou no kickboxing ainda adolescente. Aos 19 anos, largou a licenciatura em Geografia na Universidade de Lisboa para se dedicar ao objetivo de ser um lutador profissional. “Fui para cumprir o sonho da minha mãe, mas não era aquilo que eu queria”, contou sobre a vida académica.
Filho de imigrantes moçambicanos, Miguel nasceu e cresceu nas Torres da Bela Vista, em Loures, tendo depois ido viver para Sintra. Quando decidiu apostar tudo no kickboxing deparou-se com um cenário de poucas oportunidades. “Em Portugal, tudo o que não é futebol é muito difícil. Agora é um bocadinho menos, mas sempre foi difícil. Eu saí para me dedicar à luta, mas não havia combates suficientes, nem dinheiro suficiente. Então, trabalhei no McDonald’s, trabalhei a dar aulas, até que vim para Espanha”, recordou.
Em 2021, Miguel Trindade ganhou um título europeu como profissional pela primeira vez. Depois de uma lesão, em 2022, conheceu Diego Vazquez, o seu atual treinador, e decidiu apostar em Espanha como local para a sua ascensão. Em 2023, voltou aos ringues. “Começámos a ‘partir pedra’. Fomos lutar a Abu Dhabi, em Roma, na Lituânia, Tailândia... E ganhámos no mundo inteiro, fizemos barulho suficiente para assinar o contrato com o Glory”.
A ascensão desde então rendeu ao português a alcunha que carrega estampada nas camisolas. ‘El Unico’. “O meu treinador dizia, ‘ o Miguel é o único a treinar no domingo, o único a correr uma montanha’, e assim ficou”, disse, satisfeito.
Miguel divide a vida com a companheira, também lutadora, a mãe e os irmãos, que levou para Espanha, e quer ser para outros jovens “o exemplo de que eu precisava aos 17, 18 anos”.
“Em Portugal, não há muitos lutadores que cheguem tão longe. Se calhar ninguém quer saber o que eu digo, mas se calhar há um jovem que ouve. Se eu puder ser exemplo para ele, já estou a fazer o meu papel. Mais do que ganhar ou perder, o que fica é a marca que deixamos nas pessoas. Acredito que represento algo grande. Abraço as minhas raízes, seja em Portugal, seja em Moçambique, seja no bairro onde cresci. Tenho muito orgulho do que sou, de onde venho, e acho importante nunca esquecer isso”.

