Iúri Leitão sobre a medalha de prata com Diogo Narciso: “A chave foi manter a cabeça fria do início ao fim”
FOTO: FPCiclismo

Iúri Leitão sobre a medalha de prata com Diogo Narciso: “A chave foi manter a cabeça fria do início ao fim”

A estratégia de Iuri Leitão e Diogo Narciso valeu a Portugal a medalha de prata no madison, no Europeu de ciclismo de pista. O balanço da seleção é positivo. O foco agora está nas Taças do Mundo.
Publicado a
Atualizado a

A medalha de prata conquistada por Portugal na prova de madison no Campeonato da Europa de ciclismo de pista ficou marcada por uma gestão exemplar de uma das provas mais duras do programa olímpico de endurance. No velódromo, Iuri Leitão e Diogo Narciso protagonizaram uma corrida estratégica, feita de frieza, regularidade e leitura constante da competição, assegurando mais um pódio europeu para Portugal.

No final da prova, Iuri Leitão começou por sublinhar precisamente essa dimensão estratégica da corrida. “O madison é sempre uma prova muito longa e que tem de ser corrida com muita cabeça e muito sangue-frio. Acho que hoje fomos um bom exemplo disso”, afirmou.
O ciclista explicou que a abordagem teve de ser adaptada às circunstâncias concretas da corrida.
Mudámos um pouco a nossa forma de correr porque as condições da prova, os adversários e até a própria pista assim o exigiam. Começámos a pontuar cedo, tentámos ser muito consistentes durante toda a corrida e mantivemos sempre a cabeça fria.”

A gestão do esforço foi um dos pontos-chave da estratégia portuguesa. “Quando havia ataques, tentámos não gastar energia a fechar essas movimentações. Obrigámos as outras equipas a fazer esse trabalho, porque eram elas que estavam à nossa frente em termos de pontos”, explicou Iuri Leitão. “A nossa ideia foi passar a pressão para o lado deles, obrigá-los a defender a posição, enquanto nós poupávamos energia. No final, quando eles já tinham gasto muito, nós ainda tínhamos capacidade para fazer a nossa jogada.”

FP Ciclismo

Mesmo reconhecendo a superioridade da Alemanha nesta prova, o objetivo manteve-se claro. “Sabíamos que a Alemanha estava praticamente inalcançável, mas o segundo lugar era perfeitamente possível. A nossa preocupação foi criar uma margem de pontos suficiente para, no final, controlarmos os adversários e garantirmos o pódio. Foi exatamente isso que aconteceu”, concluiu.

Questionado sobre a preparação específica para a corrida, Iuri Leitão destacou a importância da autonomia dos corredores em pista, sem desvalorizar o papel do selecionador.
Temos sempre um briefing com o professor Gabriel Mendes, que nos dá indicações gerais, mas a verdade é que numa prova destas temos de saber ler a corrida constantemente”, referiu.

Durante a corrida também é muito importante manter contacto visual com o selecionador, porque ele vê coisas de fora que nós não conseguimos ver. A mensagem principal foi sempre a mesma: calma, não nos precipitarmos e guardar energia para a segunda metade da corrida, que é onde tudo se decide.”

Com um palmarés vasto em grandes competições internacionais, Iuri Leitão relativizou números e destacou o processo. “Sinceramente, não sei dizer exatamente quantas medalhas já são. Sei que são muitas entre Europeus, Mundiais, Taças das Nações e Jogos Olímpicos, mas isso não é o mais importante. O mais importante é continuar a trabalhar da mesma forma”, disse. Sobre a gestão entre estrada e pista, reforçou a importância do planeamento. “É algo que faço todos os anos. É preciso uma boa conjugação entre o calendário da estrada e o da pista, muito diálogo entre a seleção e a equipa e, acima de tudo, respeitar o descanso para conseguir render ao melhor nível.”

FP Ciclismo

Ao lado de Iuri Leitão, Diogo Narciso viveu um dos momentos mais marcantes da sua carreira, ao conquistar a primeira medalha europeia em elites. “Sim, é a minha primeira medalha em Campeonatos da Europa como elite. Já tinha medalhas em sub-23, mas esta tem um significado completamente diferente”, confessou. Sobre correr com um campeão olímpico, não escondeu o orgulho. “É sempre um orgulho correr com o Iúri. Aprendo muito com ele e poder subir ao pódio ao lado dele, logo na minha primeira medalha de elites, deixa-me muito feliz.”

A presença de Diogo Narciso neste madison acabou por surgir de forma inesperada.
Eu nem estava previsto para correr esta prova. Acabei por assumir o lugar do Salgueiro e tentei dar o meu melhor por Portugal”, explicou. “Do meu ponto de vista, fizemos uma corrida magnífica, muito bem delineada com o professor Gabriel Mendes, e conseguimos executar o plano quase na perfeição.”

O momento da consagração no pódio foi vivido com emoção. “Quando me colocaram a medalha ao peito senti-me muito contente e muito feliz. Temos trabalhado muito para este objetivo e ver esse trabalho recompensado desta forma é especial”, afirmou. Depois de uma prova anterior menos conseguida, o resultado ganhou ainda mais peso. “Depois do scratch não me senti muito bem e fiquei com algum receio para hoje, mas acabei por ter boas pernas e consegui responder quando foi preciso.”

Com os olhos postos no futuro, Diogo Narciso deixou clara a ambição. “Vou continuar a trabalhar para conquistar mais pódios em elites e, quem sabe, vitórias para Portugal”, garantiu. E deixou uma mensagem ao público português. “Quero agradecer todo o apoio. Mesmo nos momentos menos bons, os portugueses estão sempre connosco. Esse apoio dá-nos muita força para continuar a trabalhar e a representar Portugal.”

FP Ciclismo

Só depois da análise da prova e das emoções vividas em pista surgiu o balanço global do Campeonato da Europa pela voz do selecionador nacional, Gabriel Mendes, que destacou a importância simbólica deste desfecho. “Isto é muito bom. Acabámos o programa olímpico de endurance de uma forma fantástica. As provas olímpicas são as mais importantes e fechámos este campeonato com duas medalhas, culminando hoje com este segundo lugar no madison, que é uma prova extremamente exigente”, afirmou.

O técnico sublinhou ainda que os resultados foram alcançados apesar de várias adversidades.
Tivemos momentos de infelicidade, nomeadamente a queda do MIguel Salgueiro, que era o atleta que estava previsto competir hoje com o Iúri. Isso obrigou-nos a fazer ajustes constantes”, explicou. “Mesmo o Diogo competiu depois de recuperar uma situação pulmonar. Tivemos várias contrariedades, mas a equipa soube lidar com isso, unir-se e dar uma resposta positiva sempre que entrou na pista.”

FP Ciclismo

Sobre a corrida decisiva, Gabriel Mendes reforçou a dificuldade do contexto competitivo.
Numa prova de 50 quilómetros, nada é linear. Entrámos com uma gestão de energia muito cuidada, procurando pontuar de forma cirúrgica e esperando o momento certo para atacar”, analisou. “Sabíamos que seria muito difícil bater a Alemanha e, quando a corrida ficou definida, tivemos de trabalhar sobretudo para segurar a posição de pódio. Foi isso que eles fizeram de forma excecional.”

O selecionador deixou ainda uma perspetiva de futuro, olhando para as Taças do Mundo e para o ciclo olímpico. “Estas competições são fundamentais para o ranking e para o apuramento. Temos de continuar a trabalhar, dar oportunidades aos mais jovens e garantir que, em cada momento, a equipa apresentada seja a mais competitiva possível”, concluiu.

Para fechar o balanço do europeu, Gabriel Mendes abordou também a participação feminina, com destaque para Daniela Campos, num contexto que reconhece como particularmente exigente.

As corridas são duras e nós temos plena consciência disso. Sabemos onde estamos, conhecemos as nossas limitações e também os nossos pontos fortes, e tentamos sempre otimizar tudo para dar a melhor resposta possível”, começou por explicar.
Noutro contexto, as coisas poderiam ter corrido melhor, nomeadamente no programa de endurance feminino. Tivemos ali uma incidência na eliminação que acabou por condicionar o resultado global”, acrescentou.

Gabriel Mendes sublinhou ainda que houve condicionantes físicas que marcaram o desempenho. “Ontem, a Daniela já estava muito desgastada, o que é uma situação que nós sabíamos que podia acontecer e com a qual tínhamos de lidar. Não vale a pena insistir sempre no mesmo ponto, porque esta era uma realidade conhecida”, afirmou.

FP Ciclismo

Há outras seleções que estão em situações semelhantes, apesar de algumas terem atletas num patamar diferente, como é o caso da Grã-Bretanha. O nosso trabalho é fazer o melhor possível dentro das condições que temos.”

Apesar das dificuldades, o selecionador mostrou confiança no futuro. “Podíamos ter feito um pouco mais, provavelmente sim, mas várias contingências não o permitiram. Ainda assim, temos muita margem de progressão e é sobre isso que vamos continuar a trabalhar. Esse é o nosso foco”, garantiu.

O olhar está agora colocado nas próximas grandes competições internacionais, com especial atenção para as Taças do Mundo, que assumem um papel determinante no ranking e no caminho para os grandes objetivos da época. “As Taças do Mundo em março e abril são muito importantes para nós, porque contam para o ranking e para a obtenção das cotas de qualificação para o Campeonato do Mundo”, explicou Gabriel Mendes. “Não contam todas as provas, conta o melhor resultado, mas é fundamental estarmos presentes e competitivos.”

Quanto à gestão do grupo, o selecionador deixou clara a estratégia. “No setor feminino estamos mais limitados, essencialmente com a Daniela e a Maria Martins, apesar de termos atletas jovens em crescimento”, referiu. “No masculino temos um grupo mais alargado e isso dá-nos uma maior capacidade de resposta. É muito importante continuar a dar oportunidades aos jovens, porque se nos concentrarmos apenas nos melhores, retiramos espaço ao desenvolvimento da equipa como um todo.”

Por fim, Gabriel Mendes reforçou a complexidade da conciliação entre pista e estrada, uma realidade constante no ciclismo de alto rendimento. “Os atletas fazem pista e estrada, há calendários para conjugar, momentos de forma a gerir e muitas variáveis a considerar”, concluiu.
O mais importante é que, em cada desafio, a equipa que esteja presente seja a mais competitiva possível naquele momento. Foi isso que conseguimos aqui e é isso que queremos continuar a fazer no futuro.”

A prata europeia fechou assim um Campeonato da Europa intenso e marcante, onde a palavra dos protagonistas em pista abriu caminho a um balanço técnico que confirma a solidez, a ambição e o crescimento contínuo do ciclismo de pista português.

Iúri Leitão sobre a medalha de prata com Diogo Narciso: “A chave foi manter a cabeça fria do início ao fim”
Iúri Leitão e Diogo Narciso conquistam prata no madison nos Europeus de ciclismo de pista
Iúri Leitão sobre a medalha de prata com Diogo Narciso: “A chave foi manter a cabeça fria do início ao fim”
Ciclismo. Iúri leitão sagra-se campeão da Europa de omnium
Iúri Leitão sobre a medalha de prata com Diogo Narciso: “A chave foi manter a cabeça fria do início ao fim”
Iúri Leitão ao DN: “Não é difícil chegar ao topo, difícil é manter o nível muito tempo”

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt