Num Velódromo de Konya marcado pela intensidade competitiva e por um nível técnico elevado, Iúri Leitão conquistou esta quarta-feira o título de campeão europeu de omnium, confirmando-se como uma das principais referências do ciclismo de pista mundial. O triunfo na Turquia, alcançado após uma recuperação notável na última corrida do programa, reforça não só o estatuto competitivo do atleta português, como também a sua maturidade desportiva e humana.O omnium, considerado a disciplina mais completa do ciclismo de pista, reúne quatro provas distintas — scratch, tempo race, eliminação e corrida por pontos — e exige aos atletas uma combinação rara de resistência, explosividade, leitura tática e capacidade de gestão emocional ao longo de várias horas. Leitão iniciou a competição de forma dominante, vencendo as duas primeiras corridas do programa, o scratch e a tempo race, assumindo desde cedo um papel central na definição do ritmo da prova.A eliminação, terceira corrida do dia, revelou-se o momento mais delicado da jornada para o português. Eliminado prematuramente, terminou apenas na 15.ª posição, resultado que o fez cair para o segundo lugar da classificação geral antes da decisiva corrida por pontos. À entrada para a última prova, Leitão apresentava um atraso de dez pontos em relação ao neerlandês Yanne Dorenbos, líder provisório da competição.Ao DN contou o que pensou no momento. “Eu nunca posso sentir que vou ganhar isto, porque sei bem do valor dos meus adversários. Sei bem que dez pontos de desvantagem não são fáceis de recuperar e o nível aqui é muito equilibrado. Antes da corrida não tinha nada garantido. Sabia que era capaz de fazer um bom lugar, mas saber que ia ganhar era impossível”, afirmou, sublinhando a incerteza constante que marca provas desta natureza.Na corrida por pontos, a mais longa e estrategicamente complexa do omnium, Leitão demonstrou toda a sua inteligência competitiva. Soube escolher os momentos certos para atacar, integrou fugas decisivas e conseguiu ganhar voltas ao pelotão, acumulando bónus fundamentais que lhe permitiram inverter a desvantagem inicial. No final, o português somou 140 pontos, superando Dorenbos, com 131, e o alemão Roger Kluge, terceiro classificado com 126..Este título europeu é o primeiro de Iúri Leitão no omnium, disciplina onde já tinha sido medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, e eleva para seis o número total de títulos europeus de pista conquistados ao longo da sua carreira. Um percurso que o coloca entre os melhores do mundo e que, inevitavelmente, traz consigo maior visibilidade e responsabilidade. Ainda assim, o ciclista encara esse estatuto de forma positiva. “Gosto de pensar que, se tenho essa responsabilidade, é porque a mereci e porque trabalhei para a ter. Os resultados acabam por trazer essa responsabilidade e eu encaro isso como um elogio, não como pressão”, explicou.Leitão destacou ainda a importância do reconhecimento mútuo entre atletas e do apoio crescente do público português ao ciclismo de pista. “É sempre um gosto estar aqui e ser reconhecido pelos meus adversários, assim como eu os reconheço a eles. E é muito bom sentir o apoio das pessoas em Portugal, que pouco a pouco vão conhecendo mais o desporto, a mim e a nossa seleção”, afirmou.Com outra prova importante ainda por disputar no Europeu, o madison, o ciclista português foi questionado sobre o futuro e sobre a motivação para continuar a competir ao mais alto nível após tantas conquistas. “Há sempre mais para ganhar. Enquanto for capaz e me for possível ganhar mais, vou continuar a trabalhar para manter o meu nível. Não é difícil chegar ao topo; difícil é continuar a grande nível durante muito tempo. Esse é um desafio enorme e é um desafio que eu quero enfrentar”, declarou..Um dos momentos mais simbólicos da competição surgiu no pódio, durante o hino nacional. Para Leitão, esse instante representa muito mais do que o resultado. “Quando vemos a bandeira a subir e cantamos o hino, costuma vir-me um resumo de todo o trabalho que está por trás daquele resultado. A prova resume-se a quatro corridas numa tarde, mas todo o processo é muito desgastante física e mentalmente. Quando chegamos ao objetivo, fazemos um balanço de tudo — do positivo e do negativo — e isso também é muito bonito”, confessou.O campeão europeu deixou uma mensagem de agradecimento, dirigida tanto ao público como ao seu círculo mais próximo. “Quero agradecer a todas as pessoas que têm vindo a acompanhar o nosso trabalho, mais o trabalho do que os resultados, porque o trabalho é contínuo. E deixar uma palavra especial à minha família, à minha esposa e aos meus amigos, que estão todos os dias comigo a apoiar-me neste processo que é a vida desportiva”, concluiu.Também o selecionador nacional de ciclismo de pista, Gabriel Mendes, destacou a dimensão do feito alcançado por Iúri Leitão, sublinhando não apenas o resultado, mas todo o processo competitivo e humano que esteve por detrás da conquista do título europeu de omnium. Para o técnico, a vitória em Konya é o reflexo de um trabalho prolongado e consistente, desenvolvido ao longo de várias épocas, e da capacidade do atleta para responder nos momentos de maior exigência..Gabriel Mendes salientou, em particular, a forma como Leitão soube lidar com a adversidade após a prova de eliminação, quando partiu para a corrida por pontos em desvantagem. Segundo o selecionador, “a recuperação na última corrida é o espelho do que o Iúri é enquanto atleta: alguém com uma enorme inteligência competitiva, capaz de manter a calma, ler a corrida e tomar decisões corretas mesmo sob pressão”. O técnico destacou ainda que, num omnium de nível tão equilibrado, “não basta ter força; é preciso saber quando gastar energia e quando esperar”, algo que o ciclista português executou com mestria.O selecionador nacional frisou igualmente a importância deste título para o coletivo e para o crescimento da modalidade em Portugal. Na sua perspetiva, a consistência de Leitão ao mais alto nível internacional “eleva o patamar da seleção e serve de referência para os atletas mais jovens”, reforçando a credibilidade do ciclismo de pista português no contexto europeu e mundial. Mendes considerou ainda que o facto de o atleta continuar motivado, apesar do vasto palmarés, é um dos seus maiores trunfos: “O Iúri continua a competir com a mesma ambição de quem ainda tem muito para provar, e isso é fundamental para prolongar uma carreira de excelência”.Por fim, Gabriel Mendes deixou palavras de reconhecimento ao compromisso diário do ciclista com o trabalho e com a equipa, sublinhando que “os resultados são visíveis, mas aquilo que muitas vezes não se vê é a exigência, a disciplina e a capacidade de superação que o Iúri demonstra todos os dias”. Para o selecionador, o título europeu de omnium em Konya não é um ponto de chegada, mas “mais uma etapa num percurso que continua a ser construído com ambição, rigor e enorme profissionalismo”.A vitória em Konya reforça o estatuto de Iúri Leitão como uma das maiores figuras do ciclismo de pista português e internacional, não apenas pelos títulos conquistados, mas pela forma consciente, humilde e determinada com que continua a encarar cada desafio, dentro e fora da pista..Iuri Leitão é campeão do mundo de ciclismo de pista: "Um dos meus maiores sonhos".Ciclismo. Iúri leitão sagra-se campeão da Europa de omnium.Iúri Leitão campeão europeu de scratch e Ivo Oliveira ganha prata na perseguição individual