Gianni Infantino, presidente da FIFA.
Gianni Infantino, presidente da FIFA. FOTO: Sam Wasson / EPA

Infantino sai reforçado de reunião com a cúpula da FIFA, que pede desculpa por plano polémico

Presidente não se demitiu, mas viu o seu plano, a FIFA Forward Enterprise para gerir as atividades comerciais ligadas aos mundiais de futebol, abandonado. Organismo a ameaça avançar com ações legais.
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O presidente da FIFA convocou uma reunião com os principais diretores do organismo, com carácter de urgência, para esta quarta-feira (dia 5 de agosto), em Rabat, Marrocos, na sequência de uma onda de críticas ao plano comercial, que previa a criação de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE) para gerir as atividades comerciais, mas, não só não se demitiu como saiu reforçado desse encontro da cúpula do organismo.

“Após uma reunião em Rabat, Marrocos, o secretário-geral da FIFA e os membros do Conselho de Administração presentes reafirmaram o seu total apoio ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, como o único dirigente eleito pelas 211 associações-membro da FIFA", resumiu o organismo mundial em comunicado.

Ainda segundo o documento que a FIFA partilhou, o presidente "reiterou o seu total apoio ao secretário-geral da FIFA e à administração da FIFA pelo trabalho essencial e excecional que têm vindo a desenvolver na concretização da sua visão", apesar de reconhecer que têm de melhorar a comunicação entre si e para o exterior.

A reunião abordou também a proposta FIFA Forward Enterprise (FFE), onde foram reconhecidos os erros cometidos. Ficou acordado que não era intenção que o Conselho da FIFA e as Associações-membro da FIFA se sentissem excluídos do processo e que o processo deveria ter sido conduzido de forma diferente. Reconheceu-se ainda que também foram cometidos erros após a fuga da proposta para a comunicação social. Numa carta separada ao Conselho da FIFA e às Associações Membro da FIFA, foi feito um pedido de desculpas por estes erros, juntamente com o compromisso de garantir que não se repitam. Será conduzida uma revisão e um relatório será apresentado ao Conselho da FIFA na sua próxima reunião”, segundo o comunicado.

Garantindo que o plano de Infantino "está agora descartado", a FIFA avisa que "não tolerará" quaisquer ataques à sua integridade e boa governação" e que "tomará todas as medidas necessárias para proteger e salvaguardar o seu nome e reputação".

Carlos Cordeiro, Luís Figo e Arséne Wenger entre os critícos do projeto

Carlos Cordeiro, o luso-americano antigo presidente da US Soccer e conselheiro do presidente da FIFA, foi o primeiro a manifestar desagrado e demitiu-se em protesto contra um plano comercial de Gianni Infantino, que previa a criação de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE).

A ideia gerou indignação e revolta em grande parte do Mundo do Futebol e criou uma crise interna e externa, com várias personalidades ligadas a Gianni Infantino a demarcarem-se. Mattias Grafstrom, secretário geral da FIFA enviou um mail a toda a direção do organismo, onde criticou a "série de tristes e reprováveis eventos".

E o diretor de desenvolvimento global da FIFA, Arsène Wenger desmarcou-se do plano, assegurando que não esteve envolvido na iniciativa e que apenas tomou conhecimento da proposta através da comunicação social. O antigo treinador do Arsenal, que integra a FIFA desde 2019, considerou por isso "absolutamente necessária" a decisão de abandonar a proposta tornada pública por Infantino, defendendo uma "FIFA independente, que sirva o futebol com compromisso, transparência e integridade".

Luís Figo pediu a demissão imediata de Gianni Infantino da presidência da FIFA, num artigo de opinião publicado pelo jornal britânico Daily Mail, em que defendeu que a crise desencadeada pelo projeto FIFA Forward Enterprise, entretanto retirado, só expôs a forma como o organismo tem sido governado. "Podia escrever 10 mil palavras sobre os problemas da FIFA. Mas a solução resume-se a três: Infantino deve sair", escreveu o antigo capitão da seleção portuguesa, que em 2015 chegou a candidatar-se à presidência da FIFA, e que atualmente é assessor da UEFA.

E o antigo vice-presidente da FIFA, o príncipe Ali bin Al Hussein, afirmou que, durante o Mundial 2026, em que a Jordânia se estreou, lhe disseram que, se apoiasse o presidente da FIFA, Gianni Infantino, “isso ajudaria bastante a federação”.

UEFA na linha da frente contra Infantino

Na semana passada, a UEFA decidiu boicotar todas as competições da FIFA, incluindo Mundiais masculino e feminino de seleções e de clubes, em protesto com o plano de Gianni Infantino, a quem acusam de querer vender o Mundial de futebol a investidores privados.

“A posição da Europa é clara. Nunca daremos legitimidade a este modelo. Ninguém tem a autoridade moral para vender aquilo de que é meramente fiel depositário para a próxima geração. Como resultado da discussão, nenhuma seleção nacional da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem ativas, a menos que esta proposta seja abandonada na sua totalidade”, pode ler-se no comunicado do organismo europeu, lembrando que “o Campeonato do Mundo não pode ser tratado como um produto de investimento”.

A entidade que rege o futebol europeu enviou cartas separadas à FIFA e a Joshua Kushner, a informar que está pensar avançar com ações judiciais e denúncias junto de órgãos reguladores, exigindo que não sejam destruídos quaisquer documentos relacionados os planos.

Também as confederações norte-americana (CONCACAF) e asiática (AFC) lamentaram que o projeto tenha sido divulgado sem consulta prévia às 211 federações e acompanharam o organismo liderado por Aleksander Ceferin nas criticas à FIFA. A Confederação Africana de Futebol (CAF) ainda vai reunir as associações-membro para “examinar e avaliar a proposta da iniciativa FIFA Forward Enterprise.

A Associação de Ligas Europeias de futebol (EPL) saudou o recuo da FIFA na proposta, mas avisou que o organismo continua com práticas pouco claras, acusando-o de aproveitar a agitação em torno do projeto FIFA Forward Enterprise para avançar com a expansão do Mundial de 2030, que será organizado por Portugal, Espanha e Marrocos, de 48 para 64 equipas. "Agora, mais do que nunca, a FIFA precisa de uma reforma na governação que garanta que todas as partes interessadas relevantes têm um papel formal nas decisões que moldam o futuro do nosso desporto", justifica a associação que já em 2024, apresentou uma queixa formal à Comissão Europeia sobre o conflito de interesses da FIFA.

Uma proposta e não uma decisão, defendeu Infantino

O plano previa a criação de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE) para gerir as atividades comerciais do organismo mundial, como a transmissão dos jogos, patrocínios, venda de bilhetes e licenciamento e os eventos, o Campeonato do Mundo e o Mundial de Clubes. Para avançar era preciso que a ideia tivesse o apoio da maioria das 211 federações-membros e fosse alterado estatutariamente em sede de Conselho da FIFA. Algo inviável pelos votos contra reunidos 160.

Perante a tomada de posição da UEFA, Gianni Infantino garantiu que o futebol continuaria a ser governado pela FIFA e sem interferência dos privados e até deu o exemplo de Cabo Verde para sustentar a ideia de como o investimento privado pode ajudar a crescer o futebol, mas os críticos não acreditam que não seja permeável a um investimento tão elevado.

Caso o projeto se concretizasse, a FIFA estimava que arrecadaria até 4,2 mil milhões de dólares através da venda de participações minoritárias da nova empresa, prometendo duplicar os valores a distribuir. Cada uma das 211 federações-membro da FIFA poderia receber 20 milhões de dólares (17,4 milhões de euros) de 2027 a 2030, em vez dos 8 milhões de dólares (7 milhões de euros) atuais.

isaura.almeida@dn.pt

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