Guerra declarada. UEFA decide boicotar provas da FIFA em protesto contra plano de Infantino
A UEFA decidiu boicotar as provas da FIFA em protesto contra plano de Gianni Infantino, que pretende criar uma nova empresa, detida e controlada pela FIFA, mas aberta a investimento privado. Uma ideia rejeitada pelas 55 federações europeias, incluindo a Federação Portuguesa de Futebol, que esta quinta-feira, dia 30 de julho, decidiram e por unanimidade, boicotar todas as competições da FIFA, incluindo Mundiais masculino e feminino de seleções e de clubes, em protesto com o plano de Gianni Infantino, a quem acusam de querer vender o Mundial de futebol a investidores privados.
As próximas provas da FIFA são: O Mundial de Clubes, em janeiro de 2027, o Mundial feminino, no Brasil, no verão de 2027, o Mundial de futsal masculino, no Qatar, em 2028, e o Mundial masculino em 2030, em Portugal, Espanha e Marrocos.
“A posição da Europa é clara. Nunca daremos legitimidade a este modelo. Ninguém tem a autoridade moral para vender aquilo de que é meramente fiel depositário para a próxima geração. Como resultado da discussão, nenhuma seleção nacional da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem ativas, a menos que esta proposta seja abandonada na sua totalidade”, pode ler-se no comunicado do organismo europeu, que assim respondeu ao ultimato de Infantino, que tinha exigido às federações uma resposta ao seu plano até dia 19 de setembro.
“No momento em que investidores externos adquirem participações de propriedade em competições da FIFA, o futebol muda para sempre, (...) passando a responder ao que melhor serve os acionistas”, pode ler-se no comunicado da UEFA, em que as algumas das federações mais importantes do futebol mundial, lembram que “o Campeonato do Mundo não pode ser tratado como um produto de investimento”.
Para as federações europeias, o Mundial “é um dos maiores legados desportivos do futebol” e “foi construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e adeptos em todos os continentes”, sendo por isso um património de todos. “O Campeonato do Mundo não está à venda. É simultaneamente irresponsável e indefensável que uma proposta de tal relevância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada ao limite da aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles a quem foi confiada a gestão da modalidade. Isto não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial”, rematou o organismo liderado por Aleksander Ceferin, que boicotou a final do Mundial 2026.
Também as confederações norte-americana (CONCACAF) e asiática (AFC) lamentaram que o projeto tenha sido divulgado sem consulta prévia às 211 federações. E a Confederação Africana de Futebol (CAF) partilhou, em comunicado, que irá reunir as associações-membro para “examinar e avaliar a proposta da iniciativa FIFA Forward Enterprise.
Uma proposta e não uma decisão, defende Infantino
Ainda o mundo estava a descansar dos acontecimentos do Mundial 2026, que terminou com a Espanha campeã, e da mensagem de balanço pouco ortodoxa do presidente da FIFA, quando Gianni Infantino anunciou a intenção de criar uma nova empresa para gerir os direitos comerciais dos mundiais. O plano prevê a criação de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise (FFE) para gerir as atividades comerciais do organismo mundial, como a transmissão dos jogos, patrocínios, venda de bilhetes e licenciamento e os eventos, o Campeonato do Mundo e o Mundial de Clubes.
Para avançar é preciso que a ideia tenha o apoio da maioria das 211 federações-membros e se as alterações estatutárias necessárias forem aprovadas em sede de Conselho da FIFA. Nesta altura, a empresa é uma proposta e não uma decisão, como defende Infantino.
O presidente do organismo mundial, que terá de enfrentar eleições em março de 2027 e poderá ter a oposição do qatari Nasser Al-Khelaïfi, garante que o futebol continuará a ser governado pela FIFA e sem interferência dos privados e até deu o exemplo de Cabo Verde para sustentar a ideia de como o investimento privado pode ajudar a crescer o futebol: “Uma década a aumentar o apoio através do FIFA Forward ajudou nações como Cabo Verde, Curaçau, Jordânia e Uzbequistão a alcançarem o Campeonato do Mundo pela primeira vez. Queremos ajudar a criar os próximos ‘Cabo Verdes’.”
Mas os críticos não acreditam que não seja permeável a um investimento tão elevado. Caso o projeto se concretize, a FIFA estima que arrecadará até 4,2 mil milhões de dólares através da venda de participações minoritárias da nova empresa, prometendo duplicar os valores a distribuir. Cada uma das 211 federações-membro da FIFA poderá aumentar de 8 milhões de dólares (7 milhões de euros) para 20 milhões de dólares (17,4 milhões de euros) de 2027 a 2030.
isaura.almeida@dn.pt

