Fotógrafo belga expõe em Lisboa olhar político sobre a Taça Africana das Nações
A Associação Goela, em Lisboa, recebe a partir desta quinta-feira (19), a exposição African Cup Will Stay Here, do fotógrafo belga residente na capital, Brecht de Vleeschauwer. A mostra, que será inaugurada às 18h00, reúne imagens captadas durante a última Taça das Nações Africanas, realizada em Marrocos, e propõe um olhar que ultrapassa as quatro linhas do campo, cruzando futebol, cultura e poder, além de dar visibilidade ao torneio.
“De alguns anos para cá, houve uma evolução na cobertura mediática, mas ainda acho absurdo o quão pouca atenção o maior evento desportivo do continente africano recebe na Europa. É o maior evento do continente e quase não é mediatizado. Em 2030 vamos organizar o Mundial juntos com Marrocos, isso deveria levar a uma maior reflexão”, afirma o fotógrafo e jornalista, que esteve pela terceira vez no torneio, em entrevista ao DN.
Ao contrário das duas coberturas anteriores - no Egito e na Costa do Marfim -, esta é a primeira vez que transforma a experiência numa exposição inteiramente autoral. Também artista, Brecht já realizou trabalhos sobre o torneio para revistas como Panenka e Líbero e, agora, traz a Lisboa retratos que exploram a cultura do futebol dentro e fora dos relvados marroquinos.
“Marrocos tem investido imenso no futebol. A organização da Copa Africana vem depois de mais de dez anos de investimento nas formações juvenis”, afirma o belga, explicando que o aporte governamental no desporto faz parte de um projeto político de grande impacto no país - o que gera, segundo o próprio, também “alguma arrogância”.
“A Copa Africana foi usada como vitrine: para mostrar o quão bom e desenvolvido é o país em comparação com o resto da África, sobretudo em termos de infraestrutura. Era quase como uma mensagem constante. Muitos marroquinos faziam questão de dizer: ‘Os estádios são bons, não são?’, havia um certo clima de superioridade e até arrogância no discurso dos adeptos, que, dentro dos relvados, achavam que já estava tudo resolvido”, recorda.
O desfecho da Taça Africana de Nações acabou por melar todo o otimismo - e mexer com o projeto político - dos marroquinos. O país-sede foi derrotado pelo Senegal na final por 1-0, depois de Brahim Díaz falhar um penálti controverso no último minuto do tempo regulamentar.
“Sentiu-se depois uma grande decepção com a derrota na final. O irmão do rei, que deveria entregar o troféu ao Senegal, recusou fazê-lo. Isso diz muito sobre o quanto o projeto era simbólico. Normalmente, em abril, Marrocos organizaria também a Copa Africana Feminina, mas, após a derrota, anunciaram que não irão organizar. Parece quase uma birra, mas revela como o futebol estava ligado a uma estratégia maior”, sublinha.
'Soft power' e o futebol fora dos grandes centros
Na exposição, Brecht procura apresentar o torneio em Marrocos como a “personificação do soft power” no futebol. “O soft power aqui passa por essa tentativa de unificação do povo em torno de uma bandeira. Internamente, Marrocos não é um país totalmente estável: há a questão do Rife, do Saara ocupado. O futebol serve para criar essa coesão. Há grandes investimentos em infraestrutura, mas muito concentrados à volta dos estádios. O resto do país continua à espera desses benefícios".
Fã do futebol “para além de Barcelona e Real Madrid”, o fotógrafo recorda, entre tantos momentos, um em especial nesta última cobertura em Marrocos. “No dia 31 de dezembro, por exemplo, fui ver Sudão x Burkina Faso. Para mim foi um dos momentos mais bonitos da Taça. Só o facto de o Sudão se ter qualificado já é impressionante, considerando o contexto do país”, diz o fotógrafo, que reside entre Lisboa e outras partes do mundo desde que participou num programa Erasmus na capital, em 2011.
A exposição de Brecht de Vleeschauwer fica em cartaz na Associação Goela, situada na Rua dos Baldaques 47, até 22 de março. A mostra é composta por 26 imagens registadas com a sua câmara analógica Leica Minilux e, segundo o próprio, será inaugurada Lisboa assim como poderia ser em qualquer outro ponto do mundo.
“A exposição pode ser mostrada na Lituânia ou no Peru e fazer sentido da mesma forma. O futebol é universal. Talvez interesse a quem gosta de um futebol fora da caixa - embora este seja um megaevento comercial e o maior do continente africano. Portanto, ‘fora da caixa’ é relativo, mas não deixa de ser uma descentralização do olhar”, conclui.

