Vini Jr gesticula frente ao árbitro François Letexier em partida entre Benfica e Real Madrid na Luz; avançado brasileiro alegou racismo por parte de Prestianni, da equipa encarnada.
Vini Jr gesticula frente ao árbitro François Letexier em partida entre Benfica e Real Madrid na Luz; avançado brasileiro alegou racismo por parte de Prestianni, da equipa encarnada. FOTO: JOSE SENA GOULAO/LUSA

Do Camp Nou à Luz: histórico de racismo com Vinícius Júnior ganha novo capítulo e UEFA abre investigação

Após alegado insulto racista no Benfica–Real Madrid, organismo europeu abre investigação. Histórico do avançado brasileiro reacende debate que já marcou o futebol espanhol nos últimos anos.
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"Acontece em tantos estádios, sempre com o mesmo. Há alguma coisa que não bate certo". As palavras são de José Mourinho, que rejeitou a leitura automática de racismo no lance que envolveu Gianluca Prestianni e Vini Jr, na derrota encarnada frente ao Real Madrid por 1-0, na noite da última terça-feira (17), no Estádio da Luz. Nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, a UEFA nomeou um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar o caso.

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O ocorrido deu-se aos 50 minutos da partida, após o brasileiro - assobiado desde o início do jogo na Luz - assinalar um golaço para abrir o marcador para a equipa espanhola. Ao dançar perto da marca do pontapé de canto e mostrar o número da sua camisola aos adeptos, Vini foi alvo da ira da massa adepta benfiquista e de jogadores da equipa encarnada - incluindo Prestianni.

Após um debate mais aceso, o argentino colocou a camisola sobre a boca e proferiu palavras que, até ao momento, não são possíveis de confirmar. Vini acusou o gesto como racismo e, desde então, a repercussão tem sido massiva. O árbitro François Letexier interveio e ativou o protocolo antirracista, paralisando a partida por cerca de dez minutos.

Vini e Prestianni.
Vini e Prestianni.JOSE SENA GOULAO

Comprovado ou não o teor do que foi dito, esta não foi a primeira vez - muito pelo contrário - que Vinícius se viu envolvido numa situação semelhante. Um dos principais rostos da luta antirracista no futebol europeu, o brasileiro de 25 anos convive com episódios de perseguição dentro e fora dos relvados desde que chegou a Espanha.

Enquanto para uns o avançado demonstra coragem ao denunciar o ódio, para outros - como parte dos adeptos presentes na Luz, que dividiram assobios ao brasileiro e aplausos a Prestianni - Vini é visto como provocador desde os primeiros tempos no futebol espanhol.

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Cinco episódios que marcaram a trajetória de Vini Jr em Espanha

O primeiro episódio amplamente noticiado remonta a outubro de 2021, no Camp Nou, frente ao Barcelona. A denúncia chegou às autoridades, mas acabou arquivada por falta de identificação dos autores, numa decisão que viria a ser apontada por Vinícius como exemplo da impunidade que, segundo o jogador, alimenta a repetição dos ataques.

Já em setembro de 2022, antes de um Atlético-Real Madrid, vídeos divulgados nas redes sociais mostraram cânticos racistas nos arredores do estádio. Na mesma semana, declarações públicas sugerindo que o brasileiro deveria "parar de dançar" ampliaram a discussão e reforçaram a leitura de que o atleta era frequentemente responsabilizado pelas reações que sofria. Na época, o caso fez surgir a campanha "Baila, Vini", incentivando o brasileiro a dançar - Mbappé repetiu o mote ontem (veja abaixo).

Em dezembro de 2022, frente ao Valladolid, Vinícius voltou a ser alvo de insultos racistas após celebrar um golo do Real Madrid. O caso foi investigado pelas autoridades espanholas, resultando em multas e no afastamento de adeptos identificados. Ainda assim, o jogador criticou publicamente a falta de punições mais severas.

Meses depois, em janeiro de 2023, a véspera de um dérbi com o Atlético de Madrid ficou marcada por uma imagem que correu o mundo: um boneco com a camisola de Vinícius Júnior pendurado numa ponte da capital espanhola, simulando o seu enforcamento. O ato gerou repúdio generalizado, inclusive de clubes, federações e jogadores.

O episódio que mais impacto gerou até hoje ocorreu em maio de 2023, no Mestalla, no jogo entre Valencia e Real Madrid. Chamado de "macaco" por adeptos da equipa da casa, Vinícius confrontou os aficionados do clube 'che', viu a partida ser interrompida pelo árbitro e deixou o relvado visivelmente abalado.

O caso tornou-se um ponto de inflexão no debate sobre racismo no futebol espanhol, provocando reação imediata do Real Madrid, manifestações do governo brasileiro e uma troca pública de acusações entre o jogador e o presidente da La Liga, Javier Tebas.

Desde então, o avançado assumiu um papel ainda mais ativo na denúncia pública dos casos e na cobrança por medidas estruturais das entidades responsáveis.

A repercussão do caso com Prestianni

O episódio na Luz reacendeu esse histórico. Após o apito final, a reação mais contundente partiu do seu companheiro de ataque, Kylian Mbappé. O avançado francês afirmou ter ouvido o insulto dirigido a Vinícius "cinco vezes" e defendeu punições exemplares, dizendo que o jogador do Benfica "não merece jogar mais a Champions" e que tolerar esse tipo de comportamento esvazia "todos os valores do futebol".

José Mourinho, por sua vez, foi direto ao contestar a versão apresentada. Em declarações à TNT, afirmou que "uma coisa é o que Vinicius diz, outra coisa é o que diz o Prestianni. São coisas completamente diferentes. Aquilo que eu disse ao Vinicius de modo independente, não defendendo a minha dama (Benfica), é: quando se faz um gol daqueles, sai em ombros, não se vai mexer com o estádio ou mexer com o coração de um estádio, que é o estádio adversário", sublinhou Mourinho.

"Como dizem na Espanha, quem marca um gol daqueles corta o rabo, corta a orelha e sai em ombros. Não acaba com o jogo. E ele acabou com o jogo", completou o treinador do Benfica.

Mourinho em discussão com Vini após a paralisação da partida na Luz.
Mourinho em discussão com Vini após a paralisação da partida na Luz.JOSE SENA GOULAO

Já o treinador do Real Madrid, Álvaro Arbeloa, revelou que questionou diretamente Vinícius sobre a vontade de continuar em campo e garantiu que a equipa estaria preparada para abandonar o relvado. Reiterou "tolerância zero com o racismo" e afirmou não ter motivos para duvidar da palavra do jogador brasileiro, embora o árbitro lhe tenha comunicado não ter ouvido os alegados insultos.

Vinícius Junior recorreu às redes sociais para contextualizar o episódio dentro de uma vivência contínua: "racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam de colocar a camisola na boca para demonstrar como são fracos. Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida e na da minha família".

A reação mais dura no universo benfiquista veio de Luisão, que afirmou envergonhar-se do episódio e defendeu que vestir a camisola do clube implica dignidade, classificando o ocorrido como "um ato racista".

Posteriormente, através das redes sociais, Gianluca Prestianni negou as acusações, afirmando nunca ter dirigido insultos racistas ao adversário e que foi alvo de perseguições e ameaças por parte de jogadores do Real Madrid.

A UEFA anunciou ao início da tarde desta quarta-feira (18) que nomeou um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar os alegados comportamentos discriminatórios ocorridos durante a partida.

Em comunicado, o organismo europeu informou que está a analisar todos os casos reportados nos relatórios oficiais do jogo e confirmou a abertura de um inquérito específico aos incidentes registados na Luz.

Brasileiro foi advertido com cartão amarelo por dançar e mostrar a camisola na comemoração do golo.
Brasileiro foi advertido com cartão amarelo por dançar e mostrar a camisola na comemoração do golo.MIGUEL A. LOPES

A partir daqui, o processo entra na esfera disciplinar da UEFA, que poderá - caso sejam confirmados os factos - aplicar sanções desportivas. Para Vinícius Junior, trata-se de mais um capítulo de um debate que o acompanha há anos - e que, desta vez, ganhou palco também em Lisboa.

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Vinícius Júnior, aliás Vini Jr, é fenómeno de marketing

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