Fatoumata Diallo. A atleta sem infância, que ultrapassou as barreiras da vida com ajuda do atletismo
TOLGA AKMEN

Fatoumata Diallo. A atleta sem infância, que ultrapassou as barreiras da vida com ajuda do atletismo

Começou no corta-mato no Desporto Escolar e tornou-se barreirista com ajuda de Paulo Murta, tendo agora conquistado bronze nos 400 metros barreiras e com recorde nacional (53,55s).
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Nascida na Guiné-Conacri, Fatoumata Diallo chegou a Portugal com 12 anos e foi no Algarve, onde os pais já residiam, que despertou para o atletismo no corta-mato em 2012. Foi numa prova do Desporto Escolar que conheceu o treinador Paulo Murta. Ele perguntou-lhe se queria fazer atletismo e ela disse que sim, afinal já em África corria muito, até porque a escola era longe, mas até sapatilhas o treinador teve de lhe comprar. Uma realidade agora bem distante, mas que a atleta do Benfica sabe reconhecer sempre que recorda esses tempos difíceis sem perder o sorriso.

O primeiro treino era mesmo correr de Olhão até Pechão (5,7 Km), terra do clube que passou a representar, mas isso não a fez desistir. “Vim de África, não tive uma infância como toda a gente, em África já era adulta”, revelou numa emotiva entrevista que deu à Lusa, em 2023, em que também revelou ter sofrido maus tratos e abusos físicos, como provam as “cicatrizes no corpo”. Diz por isso que o atletismo lhe salvou a vida: “Transformei toda esta raiva no atletismo, sempre a trabalhar, trabalhar, e a não ligar ao que os outros dizem.”

Anos mais tarde, acompanhou os pais na vida de emigrantes em Paris, onde encontrou outro treinador, Joel Batori, que a ajudou a conseguir boas marcas e a ver um futuro nas pistas. A viver e treinar na capital francesa, Diallo tornou-se na segunda melhor portuguesa de sempre nos 400 metros barreiras, a distância predileta, depois de correr em 55,57 segundos. Hoje é recordista nacional com 53,55s, marca conseguida em Birmingham.

Fatoumata Diallo é acompanhada por um psicólogo, mas acredita que é “a mentalidade africana” que a ajuda a ultrapassar as coisas e seguir em frente. Tímida de personalidade, mas destemida na pista, trabalhou nas férias para investir em condições de treino e transformar as agruras da infância em vitórias de vida, passando a valorizar cada vez mais o atletismo.

E a progressão é notória. Em 2021 fazia os 400 metros barreiras em 59,28s, em 2022 baixou para 57,30s, em 2023 para 55,57s e em 2024 para 54,65s e em 2025 chegou aos 54,31s. Nesse ano sacrificou o Natal e mudou-se para os EUA para investir no seu potencial como atleta, com o objetivo claro de baixar dos 54 segundos. É em Clermont, na Flórida, que trabalha com o especialista Felipe Siqueira, o treinador do brasileiro Alison dos Santos, tendo conseguido a medalha europeia de bronze com 53,55s.

Depois do 8.º lugar em Roma 2024, a admiradora de Marie-José Perec e Sydney McLaughlin-Levrone ofereceu a primeira medalha a Portugal em Birmingham, a 42.ª do país em Europeus ao ar livre.

isaura.almeida@dn.pt

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