Época de Francesco Farioli no Ajax foi agridoce.
Época de Francesco Farioli no Ajax foi agridoce.Ajax

Farioli: o filósofo da estética ganhou o campeonato na pragmática

O perfil do treinador do FC Porto que, aos 37 anos, se torna o primeiro italiano e dos mais jovens a ser campeão no clube. Defesa blindada e nervos de aço evitaram desastre do Ajax.
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André Villas-Boas só terá tido a possibilidade de contratar Francesco Farioli porque, inesperadamente, o treinador perdeu o campeonato pelo Ajax. Perdeu, é mesmo assim. Os neerlandeses pareciam estar a renascer em 2024/25 e chegaram apenas com 14 pontos perdidos à 30.ª jornada e com nove de avanço para o PSV. Duas derrotas e dois empates nos últimos cinco jogos derrearam a equipa, mergulharam os Lanceiros numa crise de confiança e Farioli rumou a outras paragens, sem condições para enfrentar os adeptos que com ele voltaram a sonhar com o título. Foi com esse carimbo que chegou, mas Villas-Boas viu, até aquela jornada 30, uma equipa que encaixara 22 golos e marcara 62. Vira, em 2023/24, o italiano agarrar no Nice, que não perdeu nas primeiras 13 rondas e que acabou a Ligue 1 a sofrer somente 29 golos. A melhor defesa da Ligue 1 e o apuramento para a Liga Europa foram curtos também para quem, à jornada 20, era segundo classificado. Sete jogos sem ganhar nos dois meses seguintes impediram mais do que o quinto lugar.

No Dragão, Farioli tremeu, como todas as equipas tremem por vezes, mas passou obstáculos. Foi passando. E essa é a enorme diferença para poder dizer que consolidou uma época de afirmação plena na Europa com o seu primeiro título conquistado e logo um campeonato. E que aprendeu, certamente, com a desilusão de tropeçar, cair quando estava lá em cima. Na primeira volta deste campeonato, 16 vitórias em 17 possíveis, 36 golos marcados e quatro encaixados. Inabalável, os azuis e brancos só empataram em casa com o Benfica, por isso virando para a segunda metade da Liga com sete pontos de avanço para Sporting e dez para Benfica. Só em dezembro soaram os primeiros alarmes com a fatídica prova para os dragões, a Taça da Liga (só ganhou uma, em 2023). A eliminação ante o Vitória de Guimarães teve resposta cabal, porém. Vitórias com Plzen, Malmo e Rangers para garantir os oitavos de final da Liga Europa e a chegada às meias-finais da Taça de Portugal ao arredar o Benfica.

Só no dia 2 de fevereiro voltaram, realmente, os fantasmas para Farioli. A derrota com o Casa Pia, em vésperas de clássico com o Sporting, alarmou, quebrou a invencibilidade no campeonato, mas a reação foi a custo, sem tropeções. O empate com o Sporting, em casa, não matou as aspirações do leão, contudo manteve quatro pontos importantes de diferença e as vitórias pela margem mínima com Nacional e Rio Ave permitiram ao FC Porto continuar à tona e vivo até ao clássico com o Benfica, na Luz, de onde saiu com um empate que arredou as esperanças dos encarnados.

Nitidamente, ficou o sabor agridoce pela eliminação contra o Nottingham Forest nos quartos de final da Liga Europa, pois dava ideia de que poderia haver, 15 anos depois, hipótese de os dragões voltarem a uma final, e também com o afastamento da final da Taça de Portugal às mãos do Sporting, no entanto, quatro anos depois, fica devolvido o troféu nacional mais importante à vitrina, o 31.º campeonato do FC Porto e o primeiro conquistado com um técnico italiano. É o quinto transalpino da história azul e branca, depois de Cattulo Gadda (1906/07 e 1907/08), Alejandro Scopelli (1948/49), Ettore Puricelli (1959/60) e Luigi Del Neri (2004/05), o último de péssima memória já que sucedeu a Mourinho e nem sequer chegou a fazer um jogo oficial. Com apenas 37 anos, Farioli é um dos mais jovens de sempre e o mais imberbe desde Villas-Boas, o presidente que o tutela.

Farioli é nascido na Toscana, fez um percurso incomum antes do futebol, licenciando-se em Filosofia na Universidade de Florença, publicando uma tese sobre a estética do jogo, o caminho da liderança e o papel dos guarda-redes na segurança e construção dos pilares da modalidade. Em 2009, saído da universidade, treinou guarda-redes no Margine Coperta, esteve no Lucchese, da Serie C, antes de se reinventar no Qatar, enquanto analisava outras equipas. A mão de Roberto De Zerbi é determinante, ao levá-lo para a equipa técnica no Benevento em 2017/18, passando, consigo, depois para o Sassuolo. Na Turquia, Farioli chegaria aos 30 anos ao Karagümrük e prosseguiria para o Alanyaspor, no qual foi quinto classificado, com recorde de pontos do clube, iniciando o percurso a solo. Mas De Zerbi, que treinou o Marselha, foi crucial também para dar pormenores que convenceram Villas-Boas. O presidente do FC Porto fechou a carreira de treinador em França e identificou-se com Farioli, o homem de exaustivos relatórios, como AVB foi com Mourinho, que conjugou, como lhe disseram, ideia de jogo e capacidade de convencer os jogadores a lutarem por cada bola e fecharem a baliza quando a estratégia é ganhar a todo o custo. Até ao jogo com o Alverca o FC Porto só encaixou 15 golos em 31 jogos e em 19 não sofreu. Por 12 vezes, a vantagem mínima foi suficiente para levar os três pontos. Para um técnico que expressou a estética do futebol e a arte de construir detrás para dominar, Farioli soube adaptar a tese ao pragmatismo e chega à meta a duas jornadas do fim, sem, realmente, se ter presumido outro vencedor.  

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