Carlo Ancelotti e Samir Xaud,  Presidente da Confederação Brasileira de Futebol
Carlo Ancelotti e Samir Xaud, Presidente da Confederação Brasileira de FutebolFoto: CBF Futebol/X

Crise? Treinadores brasileiros ficam fora de um Mundial pela primeira vez em 96 anos

Eliminação da Albânia na repescagem europeia deixou Sylvinho fora do torneio. Má fase dos técnicos reflete-se também nos clubes brasileiros e quebra marca quase centenária.
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A relação pode parecer estranha num primeiro momento, mas o facto é que o remate certeiro de Piotr Zieliński, que deu a vitória da Polónia sobre a Albânia por 2-1 nos playoffs de apuramento para o Mundial de 2026 – posteriormente os polacos foram eliminados pela Suécia – fez o Brasil perder uma marca quase centenária. A menos que muito mude até junho, o que outrora era conhecido como o “País do Futebol” não terá, pela primeira vez desde 1930, um treinador representado no banco de suplentes de um Mundial.

Sylvinho, selecionador da Albânia que chegou a ser adjunto de Tite na seleção brasileira – além de passagens como treinador principal no Lyon e Corinthians –, era a última hipótese de representação brasileira no torneio. Em baixa no mercado, a classe que noutros Mundiais contou com nomes como Zico, no Japão, Joel Santana e Carlos Alberto Parreira, na África do Sul, e, especialmente, Luiz Felipe Scolari, em Portugal, com cargos consolidados no principal palco do futebol mundial, agora nem sequer na própria seleção tem um representante, com o italiano Carlo Ancelotti a ocupar o posto de treinador da canarinha.

Scolari comandou a Seleção portuguesa (2006) e brasileira (2002 e 2014) em Mundiais.
Scolari comandou a Seleção portuguesa (2006) e brasileira (2002 e 2014) em Mundiais.Álvaro Isidoro / Global Imagens

Pela primeira vez em 96 anos, portanto, nenhum treinador brasileiro estará num Mundial. Nos últimos dois torneios, Tite foi o comandante, mas falhou ao ser eliminado por Bélgica (2018) e Croácia (2022), ambas nos quartos de final. Esperava-se que continuasse a carreira no futebol europeu, o que não se confirmou, e após passagens sem sucesso por Flamengo e Cruzeiro, a tendência é que siga para o Médio Oriente, mercado que tem sido destino frequente diante das portas fechadas na Europa.

O próprio Sylvinho, ao chegar ao Lyon, vinha com a expectativa de contrariar essa dificuldade histórica dos treinadores brasileiros em solo europeu, que desde Scolari – com boa passagem pela seleção portuguesa, mas frustrante pelo Chelsea –, enfrentam obstáculos para se consolidar na Europa. Do início do século XXI para cá, Zico (Fenerbahçe e Olympiacos) foi dos poucos com algum sucesso, ainda que em mercados periféricos, e Ricardo Gomes, no Bordéus, teve um dos trabalhos mais duradouros.

Vanderlei Luxemburgo, supercampeão no Brasil, chegou em 2004 ao Real Madrid com grande expectativa, mas a aposta de Florentino Pérez rende hoje mais memes do que boas lembranças, tanto para adeptos como para alguns dos galácticos da época. Leonardo, posteriormente dirigente do PSG, foi mais um a tentar afirmar-se na Europa, por Milan e Inter, mas também sem sucesso.

Sylvinho, treinador da Albânia, passou pelo Lyon em 2021.
Sylvinho, treinador da Albânia, passou pelo Lyon em 2021.Foto:DR

Nos últimos anos, tornou-se oficial que existe uma crise dos treinadores brasileiros. Afinal, nem no próprio Brasil têm conseguido dominar o cenário. Desde 2019, quando Jorge Jesus desembarcou no Rio de Janeiro para ganhar tudo pelo Flamengo, a moda dos gringos pegou e passou a dar resultado no país.

O Mengão, como já contado aqui no DN Sport, tornou-se destino frequente de treinadores portugueses, com Vítor Pereira, Paulo Sousa e, mais recentemente, Leonardo Jardim a ocuparem o cargo.

Além de Jesus, que conquistou Libertadores e Brasileirão, outros portugueses destacaram-se com títulos relevantes, como Artur Jorge (hoje no Cruzeiro) pelo Botafogo, e Abel Ferreira, multicampeão e ídolo no Palmeiras há seis anos. O país também passou a ser destino de treinadores argentinos, como Hernán Crespo, Ramón Díaz, Jorge Sampaoli, Eduardo Coudet e Luis Zubeldía, além de nomes de outros países latino-americanos, como Paulo Pezzolano (Uruguai) e Juan Carlos Osório (Colômbia), que com frequência têm espaço no Brasileirão.

Já na seleção, após um ciclo consistente de Tite – que, apesar de não conquistar o hexa, teve mais altos do que baixos em seis anos –, o Brasil entrou num período instável. Passou por Ramon Menezes como interino e acumulou maus resultados, como a derrota por 4-2 com o Senegal, em Alvalade. Fernando Diniz e Dorival Júnior foram outras apostas que se mostraram mais confortáveis no contexto de clubes do que num trabalho de seleção.

Na última década, vários nomes que surgiram como promissores não confirmaram as expectativas, como Fábio Carille, Odair Hellmann, Roger Machado, Maurício Barbieri e Zé Ricardo. Em contrapartida, técnicos mais experientes, como Dorival, Diniz, Mano Menezes, Cuca e Renato Gaúcho, seguem a rodar entre clubes.

A expectativa de mudança voltou a ganhar força há cerca de dois anos, com Filipe Luís a destacar-se no Flamengo e agora apontado à Europa, segundo o seu agente, Jorge Mendes. Será o antigo lateral do Atlético de Madrid, com experiência no futebol espanhol, o nome capaz de inverter esse cenário e recolocar um treinador brasileiro em destaque no futebol europeu?

nuno.tibirica@dn.pt

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