Brasil quer recuperar o trono onde se sentam os melhores
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Brasil quer recuperar o trono onde se sentam os melhores

Pentacampeã mundial chega ao Mundial de 2026 pressionada pela história, impulsionada por uma nova geração de talento e envolvida na inevitável polémica do regresso de Neymar
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Pentacampeã mundial e dona do historial mais impressionante do futebol internacional, a seleção brasileira apresenta-se no Campeonato do Mundo de 2026 quer recuperar um título que lhe escapa desde 2002. Num torneio organizado entre Estados Unidos, Canadá e México, o Brasil volta a assumir naturalmente um lugar entre os candidatos à conquista do troféu, mas também carrega o peso de uma exigência permanente: numa seleção habituada a viver entre os melhores, apenas competir raramente basta. O país continua a olhar para o Mundial como o palco onde se mede verdadeiramente o valor da sua equipa nacional, e o jejum de mais de duas décadas sem levantar a taça aumentou ainda mais a pressão sobre uma geração que procura devolver ao futebol brasileiro a supremacia perdida.

A relação do Brasil com os Campeonatos do Mundo é praticamente única. Nenhuma seleção venceu tantas vezes a competição: os títulos conquistados em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 transformaram a canarinha numa referência permanente do futebol mundial. 

Ao longo de décadas, nomes como Pelé, Garrincha, Jairzinho, Romário Ronaldo Nazário Rivaldo, Ronaldinho ou Kaká ajudaram a construir uma identidade associada à criatividade, improvisação e talento ofensivo.  Mais do que um simples desporto, o futebol tornou-se parte da identidade cultural brasileira, funcionando frequentemente como uma das mais fortes expressões de orgulho nacional.

O Brasil integra o Grupo C, juntamente com Marrocos, Haiti e Escócia. A estreia acontece a 13 de junho, frente a Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, num teste de elevada exigência diante de uma seleção que se afirmou nos últimos anos como uma das mais competitivas do futebol africano. Segue-se o Haiti, a 19 de junho, em Filadélfia, numa partida onde os brasileiros entram como favoritos claros. A fase de grupos termina a 24 de junho, diante da Escócia, em Miami, num jogo potencialmente decisivo para a liderança do grupo. Apesar do favoritismo natural do Brasil, o sorteio apresenta obstáculos suficientes para impedir qualquer excesso de confiança, sobretudo perante a consistência defensiva de Marrocos e a intensidade física tradicionalmente associada aos escoceses.

Grande parte da esperança brasileira continua a residir no talento ofensivo de uma geração que combina juventude, criatividade e experiência internacional. Vinícius Júnior surge como a principal referência técnica da equipa, depois de vários anos de afirmação entre os melhores jogadores do futebol europeu. Ao seu lado aparecem nomes como Raphinha, Gabriel Martinelli, Endrick e Matheus Cunha, capazes de oferecer velocidade, imprevisibilidade e capacidade de decisão nos momentos mais exigentes. Sem abdicar da sua identidade ofensiva, a seleção tornou-se progressivamente mais pragmática e organizada, procurando equilibrar criatividade individual com maior disciplina tática e intensidade física.

Nenhuma decisão do selecionador italiano provocou tanta discussão quanto o regresso de Neymar. Aos 34 anos, o avançado do Santos regressa a um Campeonato do Mundo depois de um período particularmente difícil da carreira, marcado por sucessivas lesões, longas paragens competitivas e dúvidas persistentes sobre a capacidade de voltar ao mais alto nível. Melhor marcador da história da seleção brasileira, Neymar esteve afastado da equipa nacional durante largos períodos após uma grave lesão no joelho sofrida em 2023 e passou grande parte do ciclo de qualificação longe da melhor condição física. A sua inclusão acabou por dividir profundamente a opinião pública brasileira.

Os críticos da decisão argumentam que Neymar já não apresenta a intensidade física necessária para suportar a exigência de um Campeonato do Mundo, sobretudo depois de vários anos marcados por limitações físicas e irregularidade competitiva. Outros questionam até se o peso simbólico e mediático do jogador terá influenciado a decisão. Por outro lado, defensores da convocatória insistem que Neymar continua a oferecer algo raro: capacidade de decidir partidas equilibradas através do talento individual, criatividade e experiência acumulada ao mais alto nível competitivo. O próprio Carlo Ancelotti procurou encerrar a polémica, insistindo que a decisão foi exclusivamente desportiva e baseada na evolução física e rendimento recente do jogador, recusando qualquer sentimentalismo na escolha. Apesar de um recente problema muscular ter gerado nova preocupação, a expectativa é de que Neymar esteja disponível para o arranque da competição.

A memória dos fracassos recentes permanece, no entanto, profundamente presente no imaginário do futebol brasileiro. A traumática derrota frente à Alemanha por 7-1, nas meias-finais do Mundial de 2014, continua a ser encarada como uma das maiores feridas da história desportiva do país. Mais recentemente, as eliminações diante da Bélgica, em 2018, e da Croácia, em 2022, reforçaram a sensação de uma seleção rica em talento, mas incapaz de transformar superioridade técnica em domínio competitivo nos momentos decisivos. Esse passado recente aumentou ainda mais a pressão sobre uma geração que sabe que apenas vencer poderá devolver ao Brasil o lugar onde, durante décadas, se sentaram os melhores do futebol mundial.

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