Abel Ferreira dá indicações à equipa durante a segunda mão das meias-finais da Taça Libertadores, frente ao Fluminense, em São Paulo. Português levou 'Verdão' à mais uma final continental.
Abel Ferreira dá indicações à equipa durante a segunda mão das meias-finais da Taça Libertadores, frente ao Fluminense, em São Paulo. Português levou 'Verdão' à mais uma final continental. Foto: Isaac Fontana/EPA

Abel Ferreira e a arte de sofrer para ganhar. Português leva o Palmeiras a mais uma final da Libertadores

Após eliminar o Fluminense nos penáltis, treinador português volta a superar críticas e iguala, em seis anos, marca que o clube alviverde levou mais de um século a alcançar.
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Vai virando rotina no Brasil, mas os números não deixam de impressionar. Até Abel Ferreira desembarcar em São Paulo, em 2020, o Palmeiras, fundado em 1914, tinha disputado quatro finais da Taça Libertadores em mais de um século de história, conquistando o título apenas uma vez, em 1999.

De lá para cá, foram mais duas conquistas continentais sob o comando do português e, na madrugada desta quinta-feira (22), a confirmação da quarta final em seis anos, depois de eliminar o Fluminense nos penáltis (5-3), apesar da derrota por 1-0 no tempo regulamentar.

"Normalizamos algo muito difícil, chegar à final da Libertadores", resumiu Abel Ferreira após a classificação, a oitava da história do Palmeiras para a decisão do principal torneio de clubes da América do Sul. Mas, como tantas vezes aconteceu desde a sua chegada ao Brasil, país conhecido pela elevada exigência dos adeptos para com os treinadores, o caminho até à final esteve longe de ser tranquilo.

Depois de um início de segundo semestre marcado por resultados irregulares, derrotas em casa e críticas dos adeptos, Abel voltou a encontrar em outubro o mês ideal para dar a volta à situação. Algo semelhante ao que aconteceu em 2025, quando, depois de atravessar um período de forte contestação, recuperou o Palmeiras e recolocou a equipa na luta pelos principais títulos da temporada - embora tenha acabado por perder ambos, Brasileirão e Libertadores, para o Flamengo.

Desta vez, a recuperação passou também por uma reinvenção tática. O português apostou num sistema com três centrais, reforçou a segurança defensiva com a integração de Alexander Barboza, antigo jogador do Botafogo de Artur Jorge, e deu maior liberdade aos alas Giay e Piquerez.

No ataque, conseguiu tirar mais partido de Jhon Arias, que ganhou protagonismo depois da saída de Allan Elias para o Manchester City, e contou com o crescimento do argentino Flaco López, que disputou o último Mundial pela sua seleção e tem-se afirmado como um avançado cada vez mais completo. A equipa beneficiou ainda do regresso de Vitor Roque após lesão.

São peças de uma equipa que, apesar do elevado investimento e das expectativas que daí resultam, continua a ter no banco a sua principal referência. Abel pode mudar jogadores, esquemas e protagonistas, mas mantém uma característica que se tornou quase uma assinatura do seu Palmeiras: a capacidade de competir mesmo quando o futebol não encanta.

Foi mais uma vez o que aconteceu diante do Fluminense. Depois de vencer a primeira mão por 2-1, no Maracanã, o Palmeiras perdeu por 1-0 em casa e precisou novamente dos penáltis para continuar vivo na Libertadores, tal como já tinha acontecido frente à LDU, em Quito, nos quartos-de-final. E, de novo, encontrou em Carlos Miguel um protagonista decisivo.

O guarda-redes, que também atravessou momentos de altos e baixos nesta temporada, defendeu a cobrança de Nonato e ajudou a garantir a vitória por 5-3 na decisão por penáltis, depois de os cinco jogadores palmeirenses converterem os seus remates. Curiosamente, Abel nem sequer assistiu às cobranças. O português explicou que, depois de tantas experiências negativas neste tipo de decisão, desenvolveu um protocolo próprio para lidar com a tensão.

Saber sofrer tornou-se uma característica das equipas de Abel Ferreira. Saber ganhar, uma marca.. E é essa a combinação que explica um pouco sobre como o treinador português continua a contrariar os críticos, mesmo depois de tantas conquistas e de quase seis anos à frente de um clube onde a pressão por resultados raramente dá tréguas.

"Pensei que depois de ganhar a primeira seria mais feliz, e é exatamente o contrário, tudo cada vez mais pesado", desabafou Abel, ao lamentar a ideia de que o Palmeiras passou a ter a obrigação de conquistar todos os títulos que disputa. É verdade que o clube dispõe de um dos plantéis mais caros e competitivos da América do Sul, mas também é difícil ignorar o peso histórico de quatro finais continentais em apenas seis anos.

Agora, o Palmeiras aguarda pelo vencedor do confronto entre Flamengo e Estudiantes, que se decide na madrugada desta sexta-feira (23), depois do fecho desta edição, para conhecer o adversário da final marcada para 28 de novembro, em Montevideu. Se os cariocas de Leonardo Jardim confirmarem a classificação, teremos uma decisão entre treinadores portugueses e a oportunidade de Abel procurar a desforra da derrota diante do Flamengo na final do ano passado, em Lima.

Seria mais um capítulo de uma rivalidade que se tornou tão forte nos últimos anos que levou comentadores a falar numa espécie de "espanholização" do futebol brasileiro, numa comparação com a hegemonia de Barcelona e Real Madrid em Espanha. Independentemente do adversário, no entanto, uma coisa já é certa: Abel Ferreira voltará a disputar o título mais importante do continente. E aquilo que parecia extraordinário há seis anos, no Palmeiras, começa a tornar-se rotina sob o comando do treinador português.

Abel Ferreira dá indicações à equipa durante a segunda mão das meias-finais da Taça Libertadores, frente ao Fluminense, em São Paulo. Português levou 'Verdão' à mais uma final continental.
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