Desde o humor de George Carlin à literatura filosófica e cosmológica de George Ivanovich Gurdjieff, os Unsafe Space Garden ainda assumem influências de Herberto Helder ou do livro Les cerfs-volants (que numa tradução idiomática livre do francês seria algo como Os Papagaios de Papel), de Romain Gary. Há ainda margem para a inspiração musical emanada por Frank Zappa, of Montreal ou Captain Beefheart. Além disso, com uma “portugalidade acentuada”, como a definem, Alexandra Saldanha e Nuno Duarte explicaram ao DN como é que esta banda do norte tem algo de Zeca Afonso e de José Mário Branco. É assim que os Unsafe Space Garden, apesar do nome em inglês, lançam esta quarta-feira, 4 de março, o seu quinto álbum de originais – o mais português que fizeram até agora –, que chega com um título descritivo que esconde muitos conceitos: O Melhor e o Pior da Música Biológica.FKNKU e Mais Uma Voltinha são os singles do mais recente álbum dos Unsafe Space Garden que foram divulgados até agora. Em comum, tal como acontece com as outras sete músicas do disco, têm o facto de serem cantadas em português, mas não é isso que faz com que estas músicas sejam portuguesas, garantem os dois músicos.Já no segundo disco, o Bro, You Got Something In Your Eye - A Guided Meditation, “havia pessoas que notavam referências de José Mário Branco”, ainda que poucas músicas fossem em português, descreve Nuno Duarte, antes de revelar que, nessa altura, começou a detetar que a “música portuguesa não tem necessariamente de ser falada em português. Há um portuguesismo numa certa atitude que depois acaba por passar.”Como objetivo que acompanha a música que fazem, Alexandra e Nuno destacam a importância de não se confundir esta atitude com nacionalismo, até porque o mais importante é “trazer luz”.“É mesmo iluminar”, explica, sorridente, Alexandra Saldanha, definindo como alvo da sua música as pessoas que têm “vidas complexas” que permitem que “muita coisa fique na escuridão e no inconsciente”. Na perspetiva da voz feminina da banda, é por isso que os Unsafe Space Garden fazem a música que fazem, porque, sublinha, “um artista habita um bocado aquela zona em que tem essas preocupações e procura traduzir a cultura para quem consome arte”.Em relação ao nome do disco, a “música biológica” é justificada de várias formas, desde logo porque a palavra “vida” é dita “umas 300 vezes” no disco, lembra Nuno Duarte. Depois, Alexandra Saldanha acrescenta que a música é “feita por seres biológicos que contemplam a sua biologia” na mesma medida em “que tentam transgredi-la e transcendê-la e celebrá-la”. “Então, a ideia do melhor e do pior da música biológica é o de celebrar ao máximo toda a maravilha que é estar vivo com o contraste constante do pior que é estar vivo, porque acho que todos os dias podemos ir aos dois sítios”, continua.Sobre o nome da banda, os músicos dizem que “tinha de ser um sítio onde se vai”, especialmente um jardim. Inicialmente pensado como kindergarten (jardim infantil), “mas não podia ser só alegria”, diz Alexandra Saldanha, acrescentando que “tinha de ter o outro lado em que há um confronto com alguma coisa”.Assim, os Unsafe Space Garden, para além da Alexandra e do Nuno, são também Filipe Louro, José Vale, Diogo Costa e João Cardita.Os Unsafe Space Garden vão apresentar o seu mais recente disco em Lisboa, a 9 de abril, no B.Leza, e no Porto, no dia seguinte, no Plano B, no meio duma digressão que vai levá-los de Austin, no Texas, em março, até aos Países Baixos e Reino Unido, em maio..Jordi Savall: “Fazer música é uma mensagem de solidariedade, de igualdade”.Rui Vieira Nery: “A identidade portuguesa é um mosaico. É feita de diferenças”