Os diabos correram entre o público do Rock in Rio, entre chamas a saltar do palco e uma Cantiga da Burra, de Sebastião antunes, que os Karetus fizeram questão de "estragar". Foi assim que este domingo que Carlos Silva e André Reis – os dois músicos do Cacém que integram esta formação – voltaram a provar que são um dos projetos mais singulares da música eletrónica portuguesa, capazes de transformar uma herança ancestral do nordeste transmontano num espetáculo contemporâneo, explosivo e identitário. A responsabilidade desta adaptação das tradições musicais portuguesas – onde até o futebol e o fado estiveram presentes – começou quando a mãe de André Reis, há vários anos, decidiu levar o Entrudo Chocalheiro ao Cacém..“Ela fez lá um entrudo urbano, improvisado. Nós ficámos malucos com aquilo”, recorda Carlos Silva. Foi nesse momento que os dois músicos tiveram o primeiro contacto com os caretos – figuras mascaradas, de "origem celta", explica o músico, associadas ao Entrudo e à ideia de "expulsar o que é mau e trazer o que é bom". A energia dessa tradiçã tornou‑se imediatamente uma inspiração estética e emocional: “É libertação, é boa energia, é chocalhar. É isso que queremos na nossa música", sustenta ao DN o músico.A escolha do nome Karetus surgiu pouco depois, quando decidiram criar um projeto de música eletrónica que incorporasse essa força ritual. “Pensámos: isto é uma figura mitológica quase. Foneticamente diz‑se da mesma forma – caretos –, mas escreve‑se com K e U e energia é a mesma”, explica Carlos Silva. A partir daí, a dupla mergulhou na tradição, visitou aldeias, estudou as máscaras, os rituais e os instrumentos, e acabou por ser “batizada” pelos próprios caretos. “Infelizmente, ficámos amigos deles, agora temos sempre de aturá‑los”, brinca Carlos Silva..Eessa amizade foi evidente no Palco Super Bock, quando 20 caretos – dez de Podence e dez de Lazarim – invadiram as várias centenas de pessoas que assistiam ao concerto dos Karetus. E nem o calor os demoveu de fazerem travessuras, apesar ostentarem fatos pesados, feitos de lã, pensados para os rigores do inverno transmontano.Ao longo dos anos, desde 2010, os Karetus foram ampliando esse universo, colaborando com figuras icónicas da música tradicional portuguesa, como Vitorino e Isabel Silvestre. “É surreal trabalhar com estes artistas. São professores, literalmente. Tem sido uma aprendizagem”, diz Carlos. Para o concerto no Rock in Rio, a dupla preparou uma nova celebração dessa herança, com a presença de Sebastião Antunes, músico que conhecem desde a infância e que lhes trouxe a Cantiga da Burra, tema que os Karetus “estragaram um bocadinho mais”, como dizem com humor..No meio dum espetáculo de pirotecnia que podia perfeitamente ter sido trazido por uma certa versão de Rammstein, o Entrudo Chocalheiro, figura gigante que se tornou presença obrigatória nos concertos da banda, teve gravidade própria. “Queremos que quem esteja a ver o concerto entre neste mundo dos caretos. Que ponha a máscara, nem que seja de forma figurativa”, explica Carlos. A ideia é transportar o público para esse universo de bombos, gaitas, vozes ancestrais e energia coletiva. “Hoje é gaita digital”, admite Carlos, “mas temos muitos bombos e muitos gaiteiros connosco ao longo do ano.”A relação dos Karetus com as máscaras evoluiu também para a criação dos "caretos lisboetas" –diz o músico sobre o figurino da banda –, desenhados pela estilista Alexandra Moura. “Achámos que ela era perfeita. Tem um estilo muito punk, muito energético. Criou esta nova tradição connosco”, explica Carlos Silva.. Hoje, a dupla usa máscaras de Podence, de Lazarim, e evoca outras variações, num total de “50 a 60 caretos diferentes” existentes em Portugal. E não ficam por aqui: estudam também mascarados de outras regiões, como os de Góis ou de Aveiro. “Estamos a tentar incorporar tudo. Esta tradição da máscara vai às raízes da humanidade”, continua Carlos Silva.A internacionalização do projeto tem levado esta estética para palcos distantes. “Fomos agora para a Ásia, estivemos na China, no Japão, em Macau. As pessoas estão muito curiosas sobre as tradições e as máscaras”, diz André. Para os Karetus, levar esta cultura além‑fronteiras é uma responsabilidade e um orgulho: “Ficamos muito contentes de poder ajudar a espalhar um bocadinho das tradições portuguesas no mundo.”“Vai ser um momento de congregação, vai ser brutal”, prometia Carlos antes do concerto. E cumpriram..#LisboaEscuta: O caos do heavy metal está à solta em Lisboa.Quatro e Meia enchem Meo Arena e prometem mostrar “algo diferente”.Rodrigo Leão: “Se tivesse aprendido música, com certeza que não faria as músicas que fiz”