O Rapaz da Montanha é descrito por ti como o teu álbum mais português. Porquê?A minha música tem imensas influências muito diferentes. Desde o meu primeiro disco, o Ave Mundi Luminar, com influências da música clássica. Eu sou autodidata, aprendi a tocar sozinho no início dos anos 80. A influência da minha música vem sobretudo do que ouvi na minha adolescência, em casa dos meus pais. A minha mãe passava os dias a ouvir música clássica, mas também Astor Piazzolla, Jacques Brel, Chico Buarque. Havia ali uma variedade, apesar de ser muito focada na música clássica. E a minha música, os discos que eu tenho gravado, acabam por ter influências que vão do tango à música pop britânica, à música brasileira, à música clássica.O Passión é um bom exemplo disso?Exatamente. E sempre de uma forma muito intuitiva. Os meus primeiros dois trabalhos, que eram muito marcados por aquela corrente minimalista que me marcou bastante, de compositores como Michael Nyman, Sakamoto, Philip Glass. Depois de dez anos a trabalhar com os Sétima Legião e os Madredeus, eu estava a descobrir uns caminhos novos que não cabiam nem na Sétima Legião nem em Madredeus. Portanto, fui começando a compor uma música mais minimalista, mas, de certa maneira, mais sinfónica, porque coincidiu com a altura em que eu aprendi a trabalhar com os computadores. Eu estava fascinado a gravar uma melodia de violoncelo, uma melodia de violino, um piano, depois uns strings, e estava completamente absorvido com aquele mundo, que ainda hoje é um mundo infinito de possibilidades. Eu estava, nesse início, bastante longe daquele formato mais pop dos Sétima Legião. Mesmo a língua, que era sempre em português, apesar de haver tanto nos Sétima Legião como nos Madredeus, penso eu, já uma componente mais cinematográfica, instrumental, nos temas instrumentais. E a primeira vez que eu utilizo o português será no disco Alma Mater, sete ou oito anos depois de ter lançado o Ave Mundi Luminar. Estou a lembrar-me do tema A Casa, que teve a participação da Adriana Calcanhoto, apesar de ser cantado com sotaque, obviamente. Mais tarde, depois, com o Cinema, foi o disco talvez com canções em francês, em inglês, em castelhano. Como é que sai um disco de toda essa paleta de línguas? Eu percebi que era possível juntar essas correntes musicais todas muito diferentes. A partir dessa altura comecei a compor alguns temas em português. Não foram muitos. Foi o Voltar, que entrou na compilação O Mundo. Depois, um pouco mais tarde, a Vida Tão Estranha. Em 2007, talvez, quando me convidaram para fazer a música para o Portugal, Um Retrato Social, o documentário com sete episódios do professor António Barreto e da realizadora Joana Pontes, nós quisemos, de alguma forma, transpor isso para concertos, para o palco. E precisamente intitulámo-nos Os Portugueses. Onde tocávamos, nos primeiros 30, 40 minutos, grande parte dessa banda sonora com imagens do documentário recebidas pela RTP. E depois uma segunda parte que eu achava que fazia sentido com canções em português. Com as poucas que eu tinha até à altura. Depois, uns anos mais tarde, em 2018, continuei a compor também alguns temas em português. Decidimos reeditar essa banda sonora. Aproveitámos para juntar um disco novo. E esse disco chama-se, de facto, Os Portugueses. Que celebrava, de alguma forma, os 25 anos do meu primeiro disco. Agora, este, eu vejo-o quase como o fechar de uma trilogia que tem mais que ver com Portugal do que muitos dos outros trabalhos. A minha mulher, a Ana Carolina, escreveu bastantes letras neste disco. Compusemos um tema que se chama Cadeira Preta. Acabou por ficar esse título. No dia seguinte, pensei: este tema está a dar-me ideias para um disco novo. Baseado nesta música. Senti, na altura, um pouco a influência que a música portuguesa dos anos 70 teve na minha adolescência, de compositores como o Zeca Afonso, o Zé Mário Branco, o Fausto, o Sérgio Godinho. Na altura, estava a gravar um disco com uma das nossas filhas, a Rosa, um disco que se chama Piano para Piano. Sabia que não tinha tempo para trabalhar nesse momento, mas ficou a ideia. Durante os dois anos seguintes, reuni algumas ideias, uns esboços, e guardei numa pasta, a pensar neste trabalho. Este disco foi composto, essencialmente, ao longo de 2024, o ano em que estávamos a celebrar os 50 anos da liberdade que conseguimos atingir e que esperamos que não volte a fugir. E também a coincidência de, dez anos antes, eu ter feito um concerto, nas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, em frente à Assembleia da República, que deu origem a um disco, O Espírito de Um País. Eu fiquei muito entusiasmado com essa ideia. Fui gravando também muitas vozes, com a minha própria voz, para ter ideia do que seria, nalguns temas, podermos cantar todos. Como acontecia, aliás, em projetos nos anos 70. E acabei também por cantar no disco, quase pela primeira vez, apesar de ser com o coro.Porquê O Rapaz da Montanha? À semelhança de outros discos, como Alma Mater ou o Ave Mundi, parece quase uma referência a um percurso iniciático.Há sempre uma grande preocupação em tentar encontrar um título que tenha que ver mesmo com aquele trabalho. Só que eu sofri tanto com essa coisa da escolha dos títulos. Desde há uns anos, pergunto: mas por que sofres tanto com os títulos? Pensei, realmente, tantas vezes que acabamos por utilizar um título que era o título de guerra, e depois habituamo-nos a ele durante seis meses, um ano, e olha, acaba por ficar aquele título. Depois, há a coincidência, quase intuitiva. O Rapaz da Montanha, para mim, é um título que reflete muito do espírito que está neste trabalho, onde muitas das letras, que são coisas pessoais, falam da liberdade das mulheres, falam de tristezas, mas aquela sensação de que ainda há muito para fazer. As coisas, se calhar, já deviam ter mudado mais do que na realidade mudaram, e aquela necessidade, às vezes, simbolicamente, de ir ao alto de uma montanha e olhar cá para baixo com outra perspetiva e perceber que ainda há muito para fazer, mas eu acho que a mensagem deste disco acaba por ser positiva.Referiste a liberdade das mulheres. Os discos refletem as tuas preocupações com o mundo?Penso que neste disco, talvez mais do que noutros, sabia a direção que queria seguir. Há trabalhos que eu componho intuitivamente durante seis meses ou oito, e depois sinto que há ali um universo que para mim faz sentido, sem sequer ter a preocupação de que está a transmitir uma mensagem ou não. Mas, se pensarmos em política, está em tudo, em qualquer trabalho. As minhas preocupações são mais, se calhar, filosóficas, mais etéreas, mais de sonhos, uma música que nos transporta para outra realidade que não esta, onde até possamos refugiar-nos. Mas, com tudo o que está a acontecer no mundo, não conseguimos ficar indiferentes. Mesmo sem me aperceber, acaba por passar para muitas das ideias que eu vou tentando fazer. Neste caso concreto, pelas letras da Ana Carolina.Seres autodidata trouxe-te constrangimentos ou foi sempre confortável?Nunca estava cem por cento confortável. Por exemplo, o António Cunha, que é um amigo de longa data e é o meu agente e manager há 30 anos, foi ele quem me convenceu a começar a tocar piano acústico ao vivo, desde há uns dez anos, porque eu tinha uma vergonha gigante, porque eu não sou pianista. Quer dizer, foi um peso em alguns momentos, principalmente no início, porque eu, dando o meu nome a um projeto, apesar das composições e dos arranjos e das ideias serem minhas, eu não sou um executante. Portanto, para mim era um pavor tocar sozinho, porque não fazia sentido nenhum. Eu tocava e continuo a tocar coisas simples. Evidentemente, fui evoluindo de alguma maneira, mas com um trio de cordas ou com um cantor. Agora, sinto-me mais à vontade por tocar piano, as minhas coisas simples. Eu acho que as pessoas sabem que eu não sou nenhum executante, nenhum estudioso. Mas, por um lado, sinto que se tivesse aprendido música, com certeza que não faria as músicas que fiz. Se calhar seria mais rápido a tentar atingir aquilo que eu queria, mas se calhar não faria as coisas com esta simplicidade de que gosto.Ou com mais liberdade? Com mais liberdade, também. Porque há pessoas incríveis que não têm estudos e que fazem uma música fantástica. Não estou a dizer que sou eu. Por um lado, sentes uma barreira quando queres escrever arranjos, demoras muito mais tempo e há notas que estão mal. Depois, tu tens a ajuda do Carlos Tony Gomes e de outras pessoas que escrevem muito. O nosso violoncelista para as cordas e para orquestra. Mas depois os arranjos são feitos por mim, mas também com a ajuda do João Eleutério, do Pedro Oliveira, dos próprios músicos, que sugerem, às vezes, pequenas mudanças. Portanto, acho que foi o destino. Já me incomodou mais, já me fez mais confusão.Que rumo tens tentado seguir, tendo em conta a diversidade dos artistas que colaboraram nos teus trabalhos, como Ryuichi Sakamoto e Beth Gibbons?A minha música tem aquelas influências todas de músicas que marcaram a minha adolescência e continuam a marcar, que eu admiro. Eu sou um fã do tango, do Astor Piazzolla, da música clássica, da música brasileira. Fico muito contente por uma cantora como a Beth Gibbons ter aceitado o meu convite. Ou o Ryuichi Sakamoto, o Neil Hannon, a Adriana Calcanhoto, Rosa Passos. Mas, isso permite-me, acima de tudo, que não haja nenhuma espécie de monotonia naquilo que eu estou a fazer. Porque, se estiver num grupo, se é sempre o mesmo género de música, aí pode haver... Ou não, mas pronto. Pode haver uma tendência para... E aqui as coisas mudam. As pessoas, penso, já estão habituadas um pouco a que um disco meu possa ser realmente bastante diferente do anterior. Estou a lembrar-me do disco com o Scott Matthew, mais pop ou Piano para Piano com uma das nossas filhas, a Rosa. Até o Cinema, o Montanha Mágica, e agora A Vida Secreta das Máquinas, mais eletrónico. O Cérebro, que foi para uma exposição, e agora este Rapaz da Montanha. É de facto uma caldeirada, mas que para mim é saudável.Qual é a tua relação com a música tradicional, desde logo pela colaboração com a Celina da Piedade?Gosto imenso, a Celina tem evoluído de uma maneira extraordinária. Se eu me lembrar do primeiro concerto que vi da Celina, no Centro Cultural de Belém, há 12, 14 anos, ou mais, e agora... Há quatro anos que eu tenho visto e tocado com ela - ela convida-me de vez em quando. Lá está, uma música tradicional que me diz alguma coisa. Há outro género de música tradicional com que eu não me identifico tanto, ou que não sinto tanta afeição. Mas há a minha relação com a música tradicional, porque a música tradicional tem, não só em Portugal, como no mundo inteiro, aquele boom da World Music, que tinha influências de alguma música tradicional, nas vozes búlgaras, por exemplo. Isso é uma coisa que eu acho que vai estar sempre presente, de alguma forma, mais ou menos, consoante os trabalhos que eu esteja a fazer. De facto, em alguns discos usarmos mais percussões, como os bombos, os adufes. Ou acordeão, um instrumento muito ligado à música tradicional. Para mim faz todo o sentido..Moisés P. Sánchez: “Respeito o folclore de Espanha, mas não sou um tipo do flamenco”.Pedro Caldeira Cabral: “A música não tem fronteiras. Recebemos influências de vários países”.Rui Vieira Nery: “A identidade portuguesa é um mosaico. É feita de diferenças”