Com os bilhetes esgotados para os dois concertos que têm esta sexta-feira, 13 de fevereiro, e sábado, 14 de fevereiro, na MEO Arena, os Quatro e Meia confirmam um percurso que já estava a ser desenhado desde 2023, quando o grupo, na altura com dez anos de existência, pisou pela primeira vez o maior palco do país em nome próprio. Porém, mais do que um triunfo comercial, o feito representa a consolidação de um percurso singular no panorama nacional de uma banda que nasceu da vontade de amigos que se conheceram na Universidade de Coimbra e que, apesar de terem esgotado a MEO Arena pela terceira vez, continuam a apreciar o sucesso com humildade, até porque, explica ao DN Tiago Nogueira, vocalista e guitarrista da banda, “nunca ninguém há 13 anos – nem nós, nem quem começou ouvir-nos – algum dia imaginou que isto pudesse tornar-se tão sério”.A aparente surpresa assumida por Tiago Nogueira tem também os pés assentes na terra e está relacionada com a vida paralela da banda, porque alguns dos seis dos músicos que compõem a banda mantêm carreiras fora da música. Tiago Nogueira, por exemplo, é cirurgião torácico.Essa dualidade, longe de ser um obstáculo, tornou-se um mecanismo de proteção contra o deslumbramento. “Traz-nos serenidade a possibilidade de tomar decisões não apenas baseadas na pressão de que a música tenha que ter sucesso”, explica. Durante a pandemia, essa consciência de que a música pode ser interrompida a qualquer momento revelou-se crucial, porque, vinca, a música, nessa altura, passou “a ser vista como uma coisa secundária”. Numa análise à sua própria vida dupla e à forma como isso condiciona as vidas dos outros membros da banda, na mesma medida em que é condicionada, o músico explica que ter duas profissões faz com que os Quatro e Meia possam distanciar-se “um bocadinho dos piores momentos em cada uma”, porque “é difícil que as duas estejam a correr mal ao mesmo tempo. Isso é bom, porque podemos concentrar-nos um bocadinho mais numa ou noutra, conforme a nossa necessidade emocional para nos agarrarmos mais a uma coisa ou a outra”, descreve.No seu caso em concreto, a comparação entre o palco e a sala de operações configura duas formas de adrenalina. Na cirurgia, o desvio ao plano pode ser fatal, no entanto, na música, o improviso é um lugar de conforto, descreve.“É a adrenalina do desconhecido, mas um desconhecido bom, por natureza”, afirma. Tiago Nogueira partilha ainda uma visão humanista, que relativiza a ideia de consagração e atravessa todo o discurso do músico. Para Tiago Nogueira, a MEO Arena surge nesta fase da banda sob a forma de marco simbólico, mas não um fim em si mesmo: “Se for um espetáculo normal em que saímos de lá com a sensação de dever cumprido, isso acaba por ser mais importante do que a sensação da consagração.”Mas o músico também promete que há algo mais neste espetáculo. “Desta vez vão ser concertos em formato 360”, isto é, há um público à volta da banda, que estará no centro, explica. Mas há uma outra dimensão que vai para além da configuração da sala. “De certa forma, esta repetição é também uma oportunidade de mostrarmos algo diferente, até porque na primeira [em 2023] tivemos alguns problemas técnicos que prejudicaram um bocadinho a experiência, quer para nós, quer para o público, e estamos também a ver isto como uma oportunidade de mostrar algo melhor”, assume, acrescentando que “é de facto algo mais interessante para o público”.“Espero que a experiência desta vez seja totalmente isenta de problemas técnicos que é para também podermos divertir-nos muito mais, e o público também”, projeta.A visão sóbria que admite ter perante estes espetáculos estende-se à forma como o músico olha o mundo. Questionado sobre o que o preocupa mais, Tiago Nogueira destaca uma “polarização crescente” e confessa inquietação com “o extremismo” e com o regresso de discursos discriminatórios. “Vivemos num mundo onde o preconceito está cada vez mais de volta e isso preocupa-me enquanto ser humano, enquanto pai, enquanto amigo.”Os Quatro e Meia são João Cristóvão, no violino e bandolim, Mário Ferreira, no acordeão e teclas, Pedro Figueiredo, nas percussões, Ricardo Liz Almeida, na voz e guitarra, Rui Marques, no baixo e contrabaixo, e Tiago Nogueira, na voz e guitarra..Lisbon Film Orchestra apresenta ‘Our Stories’ para quebrar preconceitos.FestVybbe volta a Lisboa em fevereiro com edição na MEO Arena