Ao final da tarde Alvalade já escutava os acordes das guitarras, as batidas aceleradas e vozes que se destacavam pela agressividade. À porta desta antiga fábrica de componentes elétricos, alguns músicos vestidos de negro e com sweatshirts conversavam entre si, enquanto esperam pela sua vez para o ensaio de som. Estamos no RCA Club um local privilegiado para escutar culturas musicais underground da cidade. A sala nasceu da vontade de dois músicos da Real Companhia dos Animais - daí o RCA - e serve desde 2013 como palco para concertos, maioritariamente ao fim de semana, ligados à música punk, rock, hardcore e metal como é o caso de hoje. Ou melhor, hoje é noite de death metal. .#LisboaEscuta. Marvila tem Samba . Um subgénero extremo do heavy metal, o death metal é reconhecido pela sua sonoridade agressiva e pelas suas temáticas mais sombrias como a morte, a filosofia, a religião ou o horror cinematográfico. Terá nascido em meados dos anos 1980, evoluindo a partir de outro subgénero - o trash metal - para algo muito mais denso e técnico. Esta música é marcada por bateristas que frequentemente usam pedal duplo acelerando assim o ritmo das canções, um baixo muito presente, forte e guitarras com muita distorção, mas mesmo muita distorção. A voz será talvez um dos fatores mais distintivos deste género musical entre outras ligadas à grande família do heavy metal. O uso de uma voz profunda muito grave - quase áspera - numa técnica reconhecida por death growls, uma prática exigente para a voz e até fisicamente. Este tipo de voz “monstruosa”, exige dos vocalistas uma técnica apurada e serve para introduzir os fãs no espírito sombrio do universo do death metal. . A voz gutural - que não dispensa o uso de letras complexas enquadram a noite no recinto alfacinha com capacidade para trezentas pessoas e vontade de fazer “uma noite de muito barulho”. Quem o diz é Sérgio Pascoa, músico e promotor do evento que junta quatro bandas, duas de Lisboa, uma do Porto e uma banda italiana de renome internacional na comunidade de death metal. Para Pascoa, como é conhecido no meio, vivemos um bom momento para este género musical, com muitos concertos e o aparecimento de novas bandas com recursos técnicos muito apurados. Natural de Beja, tem uma ligação ao mundo das tunas desde 1995 e uma formação musical baseada no piano, na guitarra e em instrumentos tradicionais, como o bandolim, que muito aprecia tocar. No entanto, isto é diferente: “Quando isto me puxa para este lado...”, sorri este “ bom gigante” de sorriso fácil e abundantemente tatuado, prosseguindo a descrição do que, na sua opinião, é um novo ciclo: “Estamos a assistir ao rock e ao metal a subir novamente, a atuar nos grandes festivais que começam a incluir no cartaz bandas mais pesadas”. Para Rogério Silva, vocalista dos Blasphemous Blade, lisboeta de 20 anos e responsável por abrir as hostilidades no RCA, “o metal nunca desapareceu, mas parece que está a ficar mais ativo”. E aponta para a cultura que se vai consolidando entre músicos e fãs, em concertos e salas como esta, onde a comunidade se junta ao som da mesma música. . A sala já está bem composta quando se ouve a entrada dos Crucivore. Uma voz feminina gravada faz um discurso pausado, criando uma certa solenidade, antes das guitarras começarem a tocar e a voz de Ricardo Proença se projetar na sala, num exercício de energia contínua que rapidamente contagia os presentes, que começam a dançar, abanando a cabeça ritmadamente (conhecido como headbanging) e praticando o mosh, em que os corpos se atiram uns contra os outros num círculo, numa espécie de saudável libertação da tensão. Num canto da sala, ouvimos duas jovens, vestidas a rigor, a comentar, entre sorrisos: “Isto é bom para libertar os demónios.”Ao lado de Pascoa, que ocupa uma das três guitarras, o vocalista exibe uma técnica de canto gutural muito específica e apurada, mantendo um nível de energia constante. Segundo Ricardo, estamos a assistir ao nascimento de um movimento comunitário: “Há muitas caras novas e muita gente jovem a aparecer nestes concertos”, e bandas como o Holocausto Canibal, a Analepse e o Corpus Christi contribuem para isso, tocando frequentemente na Grande Lisboa. Segundo o músico, “vestimo-nos de negro e temos aquela essência agressiva, mas só em palco”, acrescentando que este é um movimento de mente aberta que não se fecha às inovações musicais, ao conteúdo lírico nem a ninguém que apareça para partilhar a noite. . Algum do muito público presente escolhe acompanhar os concertos num dos balcões superiores e laterais à sala. Para Fernanda Silva, a melhor forma de ouvir música é assistir a um concerto sozinha num destes balcões. Descobriu a noite dedicada ao death metal na internet e decidiu vir sem companhia. Natural do estado do Amazonas, reside em Lisboa há três anos e estar aqui sozinha é uma forma de apreciar a música sem distrações: “Trabalho em restauração, num ambiente de muito barulho”, mas aqui sente-se numa espécie de caos controlado pela batida, que a acalma. Já acompanhava este género musical no Brasil, mas como é oriunda de uma pequena cidade, não tinha oportunidade de assistir a espetáculos ao vivo como o desta noite. Descreve a experiência como algo que gostaria de repetir na companhia de amigos. Lá em baixo, vemos Ricardo Proença a ser carregado nos braços do público enquanto cantam e as guitarras tocam cada vez mais alto, e lembramo-nos das suas palavras antes do concerto: “A melhor coisa é que somos todos amigos e uma família”. As reportagens #LisboaEscuta foram desenvolvidas no âmbito do programa “Lisboa Cultura e Media” da Egeac