Crucivore durante a atuação no RAC Club, marcada por um ritmo poderoso e uma voz gutural.
Crucivore durante a atuação no RAC Club, marcada por um ritmo poderoso e uma voz gutural.Foto: Reinaldo Rodrigues

#LisboaEscuta: O caos do heavy metal está à solta em Lisboa

Embora o heavy metal tenha desaparecido de muitas das rádios e dos palcos nacionais, tornando-se um fenómeno 'underground', na verdade nunca desapareceu das ruas de Lisboa. Pequenas comunidades de músicos e fãs celebram alguns subgéneros musicais menos conhecidos e esta é uma história de música muito alta e sobre a ideia de comunidade e liberdade. Na segunda reportagem do projeto #LisboaEscuta mergulhamos no death metal.
Publicado a

Ao final da tarde Alvalade já escutava os acordes das guitarras, as batidas aceleradas e vozes que se destacavam pela agressividade. À porta desta antiga fábrica de componentes elétricos, alguns músicos vestidos de negro e com sweatshirts conversavam entre si, enquanto esperam pela sua vez para o ensaio de som. Estamos no RCA Club um local privilegiado para escutar culturas musicais underground da cidade. A sala nasceu da vontade de dois músicos da Real Companhia dos Animais - daí o RCA - e serve desde 2013 como palco para concertos, maioritariamente ao fim de semana, ligados à música punk, rock, hardcore e metal como é o caso de hoje. Ou melhor, hoje é noite de death metal.

Crucivore durante a atuação no RAC Club, marcada por um ritmo poderoso e uma voz gutural.
#LisboaEscuta. Marvila tem Samba

Um subgénero extremo do heavy metal, o death metal é reconhecido pela sua sonoridade agressiva e pelas suas temáticas mais sombrias como a morte, a filosofia, a religião ou o horror cinematográfico. Terá nascido em meados dos anos 1980, evoluindo a partir de outro subgénero - o trash metal - para algo muito mais denso e técnico. Esta música é marcada por bateristas que frequentemente usam pedal duplo acelerando assim o ritmo das canções, um baixo muito presente, forte e guitarras com muita distorção, mas mesmo muita distorção. A voz será talvez um dos fatores mais distintivos deste género musical entre outras ligadas à grande família do heavy metal. O uso de uma voz profunda muito grave - quase áspera - numa técnica reconhecida por death growls, uma prática exigente para a voz e até fisicamente. Este tipo de voz “monstruosa”, exige dos vocalistas uma técnica apurada e serve para introduzir os fãs no espírito sombrio do universo do death metal.

Som agressivo e muito “mosh”, mas num ambiente  saudável.
Som agressivo e muito “mosh”, mas num ambiente saudável. Foto: Reinaldo Rodrigues

A voz gutural - que não dispensa o uso de letras complexas enquadram a noite no recinto alfacinha com capacidade para trezentas pessoas e vontade de fazer “uma noite de muito barulho”. Quem o diz é Sérgio Pascoa, músico e promotor do evento que junta quatro bandas, duas de Lisboa, uma do Porto e uma banda italiana de renome internacional na comunidade de death metal. Para Pascoa, como é conhecido no meio, vivemos um bom momento para este género musical, com muitos concertos e o aparecimento de novas bandas com recursos técnicos muito apurados. Natural de Beja, tem uma ligação ao mundo das tunas desde 1995 e uma formação musical baseada no piano, na guitarra e em instrumentos tradicionais, como o bandolim, que muito aprecia tocar. No entanto, isto é diferente: “Quando isto me puxa para este lado...”, sorri este “ bom gigante” de sorriso fácil e abundantemente tatuado, prosseguindo a descrição do que, na sua opinião, é um novo ciclo: “Estamos a assistir ao rock e ao metal a subir novamente, a atuar nos grandes festivais que começam a incluir no cartaz bandas mais pesadas”.

Para Rogério Silva, vocalista dos Blasphemous Blade, lisboeta de 20 anos e responsável por abrir as hostilidades no RCA, “o metal nunca desapareceu, mas parece que está a ficar mais ativo”. E aponta para a cultura que se vai consolidando entre músicos e fãs, em concertos e salas como esta, onde a comunidade se junta ao som da mesma música.

Rogério Silva dos Blasphemus Blade em palco abriu as hostilidades no  palco do RCA Club.
Rogério Silva dos Blasphemus Blade em palco abriu as hostilidades no palco do RCA Club.Foto: Reinaldo Rodrigues

A sala já está bem composta quando se ouve a entrada dos Crucivore. Uma voz feminina gravada faz um discurso pausado, criando uma certa solenidade, antes das guitarras começarem a tocar e a voz de Ricardo Proença se projetar na sala, num exercício de energia contínua que rapidamente contagia os presentes, que começam a dançar, abanando a cabeça ritmadamente (conhecido como headbanging) e praticando o mosh, em que os corpos se atiram uns contra os outros num círculo, numa espécie de saudável libertação da tensão. Num canto da sala, ouvimos duas jovens, vestidas a rigor, a comentar, entre sorrisos: “Isto é bom para libertar os demónios.”

Ao lado de Pascoa, que ocupa uma das três guitarras, o vocalista exibe uma técnica de canto gutural muito específica e apurada, mantendo um nível de energia constante. Segundo Ricardo, estamos a assistir ao nascimento de um movimento comunitário: “Há muitas caras novas e muita gente jovem a aparecer nestes concertos”, e bandas como o Holocausto Canibal, a Analepse e o Corpus Christi contribuem para isso, tocando frequentemente na Grande Lisboa. Segundo o músico, “vestimo-nos de negro e temos aquela essência agressiva, mas só em palco”, acrescentando que este é um movimento de mente aberta que não se fecha às inovações musicais, ao conteúdo lírico nem a ninguém que apareça para partilhar a noite.

Fernanda Silva esteve pela primeira vez a assistir a uma noite de puro death metal.
Fernanda Silva esteve pela primeira vez a assistir a uma noite de puro death metal. Foto: Reinaldo Rodrigues

Algum do muito público presente escolhe acompanhar os concertos num dos balcões superiores e laterais à sala. Para Fernanda Silva, a melhor forma de ouvir música é assistir a um concerto sozinha num destes balcões. Descobriu a noite dedicada ao death metal na internet e decidiu vir sem companhia. Natural do estado do Amazonas, reside em Lisboa há três anos e estar aqui sozinha é uma forma de apreciar a música sem distrações: “Trabalho em restauração, num ambiente de muito barulho”, mas aqui sente-se numa espécie de caos controlado pela batida, que a acalma. Já acompanhava este género musical no Brasil, mas como é oriunda de uma pequena cidade, não tinha oportunidade de assistir a espetáculos ao vivo como o desta noite. Descreve a experiência como algo que gostaria de repetir na companhia de amigos. Lá em baixo, vemos Ricardo Proença a ser carregado nos braços do público enquanto cantam e as guitarras tocam cada vez mais alto, e lembramo-nos das suas palavras antes do concerto: “A melhor coisa é que somos todos amigos e uma família”.

As reportagens #LisboaEscuta foram desenvolvidas no âmbito do programa “Lisboa Cultura e Media” da Egeac

Diário de Notícias
www.dn.pt