Em 1965 Jean-Christophe Averty adaptou ao cinema a famosa peça de teatro Ubu Roi, de Alfred Jarry. Depois disso não surgiram mais “loucuras” ao querer adaptar material que brincava com Rei Lear e Macbeth, ambos textos de Shakespeare. Agora, depois de muitas curtas e documentários, Paulo Abreu estreia-se nas longa de ficção com esta adaptação. Um Ubu em 4:3, a preto & branco e com um registo com uma contratualização de humor delirante..Esta tragicomédia conta a história de uma usurpação de poder em tempos medievais na Polónia. Ubu, instigado pela sua ambiciosa mulher, derruba o Rei Venceslau e fica com o poder. Um poder que cedo lhe sobe à cabeça. Num abrir e fechar de olhos começa a matar a torto e a direito quem não gosta e elementos da corte..A governação de Ubu, sempre com a conivência da mulher, não conhece limites. A sua vaidade vai aumentando para graus intoleráveis e as execuções sucedem-se. A crueldade parece ser a sua característica maior e o seu reino acaba por ficar na ruína. Escrito no século XIX, o texto de Jarry acaba por ter pontos de coincidência com o atual estado do mundo. E é precisamente isso que parece interessar ao projeto: caricaturar a traço grosso o aumento de tiranias em diversas partes do mundo e a crescente popularidade de regimes totalitários. A maneira como se caracteriza a cegueira do rei usurpador e cobarde remete para algo que está muito em cima dos debates contemporâneos: a extensão e gravidade do trumpismo. Abreu carrega no absurdo para ser ainda mais contundente. Em bom rigor, há uma graça punk-rock em todo este gesto..Sem a tão conciliadora pose de dogma de “teatro no cinema”, Abreu filma o texto de Jarry com uma liberdade de “enfant terrible”, dando aos atores uma permissão para um excesso que só lhes fica bem, erigindo também uma jovialidade gótica-recreativa que se torna inesperada. No entanto, em vez de caos, há até um certo rigor nesse prazer de nunca nos dar aquilo que estávamos à espera. Talvez seja precisamente por aí que nesta corte não surgem bocejos ou academismos de “cinema de época”. Ao desmontar a “linguagem” teatral, o cineasta está a instalar energia de cinema pura, mesmo quando se sente a limitação do orçamento..E nessa liberdade dos atores palavras de apreço pelo vigor de Miguel Loureiro, ator que dá a este vilão um sentido de repulsa verdadeiramente refinado. Ao seu lado uma Isabel Abreu também a compreender a permissão para ser tudo menos “natural”. Sente-se que os atores se divertiram mas nesse jogo de diversão muito passa para espectador..Fica o desejo que este filme torne mais visível o trabalho de um realizador que sempre teve um estilo muito próprio, aqui a fazer do artesanal uma arma, Ubu é um “Paulo Abreu original”, impossível de ser imitado.