A estreia do musical Evita em Portugal, esta sexta-feira, dia 27, no Teatro Capitólio, assinala um dos momentos mais ambiciosos do teatro musical recente no país e marca o regresso de Sofia Escobar aos palcos nacionais num dos papéis mais exigentes do repertório internacional. Com encenação de Paulo Sousa Costa, esta nova produção propõe uma leitura simultaneamente histórica, política e emocional de Eva Perón, uma figura que continua a dividir opiniões e a suscitar debate décadas após a sua morte e cuja atualidade é sublinhada tanto pela protagonista como pelo encenador..Para Sofia Escobar, interpretar Evita representa um ponto de viragem artístico. “É um enorme desafio a vários níveis.” Não apenas pela exigência vocal da partitura de Andrew Lloyd Webber, mas sobretudo pela densidade dramática da personagem. “É uma personagem totalmente diferente do que eu tenho vindo a interpretar. Até agora eram personagens mais jovens, mais ingénuas. Esta tem todo um universo de bipolaridade, de contradições, um peso dramático.”.A consciência de estar a representar uma figura histórica real intensificou ainda mais esse processo. “Só o facto de ser uma personagem real já traz uma pressão muito diferente do que é uma personagem de ficção”, explica. Ao contrário de protagonistas ficcionais como Christine ou Maria, papéis que marcaram momentos anteriores da sua carreira, Eva Perón obriga Sofia a um diálogo permanente com a memória coletiva e com as múltiplas leituras políticas que continuam a existir sobre a sua figura.Por isso, o trabalho de preparação começou muito antes dos ensaios em sala. “Primeiro foi um trabalho de pesquisa histórica também. Ver o contexto em que surge a Eva Perón. Depois também o trabalho do que foi a abordagem para o musical da personagem. E no fim procurar a minha própria interpretação.” Esse percurso levou-a a confrontar a imagem cristalizada que existe no imaginário público com uma leitura mais íntima e vulnerável. “Eu tinha uma imagem de Eva que acho que é um bocadinho a imagem que toda a gente tem, de um ícone político, emocional, alguém que era amado e odiado em igual medida. A abordagem que eu quis procurar foi a humanidade por trás da fachada.”Essa procura da mulher antes do mito tornou-se central na construção da personagem. “Era o lado humano, o medo, a fragilidade, o tentar cobrir a vulnerabilidade, até porque ela no fim sabia perfeitamente que ia morrer”, afirma. Para a atriz, essa consciência da morte iminente altera profundamente a leitura da figura histórica e permite compreender melhor a intensidade emocional da sua intervenção pública..Também Paulo Sousa Costa sublinha essa complexidade como um dos principais motores do espetáculo. “É uma personagem polémica, acima de tudo polémica para a aristocracia, para o sistema. Na altura não viam com bons olhos uma mulher (acima de tudo uma mulher) a entrar nestes meandros do poder.” Essa dimensão de confronto com estruturas tradicionais continua, segundo o encenador, a tornar Evita uma figura profundamente contemporânea.Trazer Evita a Portugal foi, aliás, um projeto de longa maturação. “Já era um sonho de há alguns anos. O Evita não se traz assim de ânimo leve. Vai-se construindo o sonho e depois realiza-se”, afirma. Para Paulo Sousa Costa, trata-se de um dos projetos mais ambiciosos da sua carreira. “Arrisca-se claramente a ser o maior projeto que alguma vez fizemos na Yellow Star Comapny. Mas esse desafio para mim não é assustador, é um privilégio.”Nesse percurso, a escolha de Sofia Escobar foi imediata. “A Sofia foi claramente a nossa primeira escolha”, sublinha. “Eu já tinha uma ideia para esta Evita e acho que ela encaixa na perfeição.” O encenador destaca não apenas a experiência internacional da atriz, mas também a sua capacidade de aprofundar psicologicamente a personagem. “Tem sido muito interessante vê-la trabalhar em Portugal depois de tantas coisas que fez lá fora. É uma excelente atriz, uma excelente profissional.”.Para Sofia Escobar, essa coincidência entre momento artístico e maturidade pessoal foi decisiva. “Acho que Evita me surgiu numa altura da minha vida perfeita. Se me tivessem convidado há uns anos não teria aceitado, porque não me sentiria preparada ainda. Às vezes é preciso ter um bocadinho mais de vida para certas personagens.”Essa maturidade permitiu-lhe enfrentar a dimensão política da personagem com maior profundidade. A atriz confessa ter ficado particularmente impressionada com a coragem de Eva Perón enquanto mulher num contexto dominado por estruturas masculinas de poder. “Uma mulher que é capaz de não ter medo de ocupar o espaço que ela ocupou naquelas circunstâncias é admirável.”Essa admiração intensifica-se em vários momentos do espetáculo. “Há muitos momentos no musical que para mim são arrepiantes, mesmo por causa disso, porque uma pessoa realmente dá conta do que era preciso ter em termos de força. Há uma capacidade extrema, quase sacrificial, de lutar por aquilo em que ela acreditava.”Também Paulo Sousa Costa destaca essa dimensão histórica. “Na altura as mulheres não votavam na Argentina e ela conseguiu mudar a forma de pensar dos políticos e dos generais. Eu acho que continua a ser um tema muito atual, porque cada vez mais precisamos de mulheres de força.”Para Sofia Escobar, essa atualidade não se traduz necessariamente em paralelos diretos com figuras contemporâneas, mas antes numa continuidade de valores e de formas de intervenção pública. Ainda assim, identifica exemplos que considera inspiradores. Entre eles, destaca Michelle Obama e Catarina Furtado. “São pessoas que vão muito além do trabalho artístico ou institucional e que começam a dar voz a causas e a lutar por elas sem querer nada em troca.” Ao mesmo tempo, sublinha que as referências mais profundas continuam a ser pessoais: “Se calhar algumas que não são tão conhecidas, como a minha mãe, a minha irmã. Mas são extremamente importantes para mim. Mulheres fortes, mulheres decididas.”Essa dimensão de força feminina é, aliás, um dos eixos centrais da leitura que a atriz faz da personagem. “Evita veio fortalecer a capacidade que nós mulheres temos de lutar, de nos adaptarmos às circunstâncias. Esse lado da força feminina está muito bem vincado no musical e é absolutamente inspirador.”Ao longo do processo de ensaios, a ambiguidade histórica da figura revelou-se outro elemento determinante. Eva Perón continua a dividir profundamente a sociedade argentina, e essa polarização tornou-se um dos motores interpretativos da atriz. “Era complicado conseguir entender o que é que ela sentia em relação a isso”, admite. “Porque eu acho que ela, no fim, entrou quase num estado de ilusão. Quando começaram a dizer que ela era santa, acho que começou a acreditar também.”Essa dimensão quase mítica da personagem continua viva até hoje. “Ela virou um mito. Tal como a princesa Diana, alguém que morreu muito cedo e deixou uma marca histórica. Ainda hoje há pessoas que adoram e outras que odeiam.”.Para Paulo Sousa Costa, essa divisão é precisamente aquilo que mantém a personagem viva no imaginário coletivo. “Mexer com uma figura histórica como a Evita dá sempre polémica. Há pessoas que gostaram da peça e outras que não gostaram precisamente porque ali é espelhado um lado dela menos santinho.”Ao mesmo tempo, o encenador sublinha a dimensão social da sua trajetória. “É a história de uma menina de 15 anos que vai para Buenos Aires e que dialoga, olhos nos olhos, com os descamisados. Percebeu que podia mudar o destino daquelas pessoas — e mudou.”Esse percurso continua a impressionar Sofia Escobar. “Estamos a falar de uma pessoa que veio de um cenário extremamente humilde, de pobreza absoluta, com uma vontade enorme de sair desse paradigma. É muito difícil, especialmente naquela época e naquele contexto para uma mulher.”Durante os ensaios, essa complexidade levou a atriz a repensar momentos emblemáticos do musical. Um exemplo particularmente marcante foi a cena do confronto com a amante de Perón. “Essa cena para mim custou-me imenso. Muitas vezes é feita com muita agressividade. Mas eu não conseguia sentir a Eva assim. Honestamente acho que ela já esteve ali. Então quis explorar um lado quase de espelho.”Esse tipo de escolhas contribui para uma leitura mais humana da personagem, algo que Paulo Sousa Costa considera central nesta produção. “Criámos uma Evita que as pessoas ainda não viram. Sem fugir à figura máxima, criámos uma leitura nova.”A atualidade do espetáculo é outro dos aspetos sublinhados por ambos. Sofia Escobar reconhece paralelos claros com o presente. “Há muitas circunstâncias que continuam a ter paralelos com a realidade do dia a dia de hoje. Isso é um bocadinho assustador, mas também é importante podermos recordar historicamente e não repetir erros no futuro.”Também o encenador insiste nessa dimensão. “É um musical que tem a política que se vivia na altura, é bastante emotivo, é uma história de superação. Mas depois tem muitas camadas sobre o que é a mulher, sobre o que é a nossa relação na sociedade, sobre a pobreza.”No plano artístico, o espetáculo representa igualmente um desafio vocal para Sofia Escobar. “Saiu um bocadinho da minha zona de conforto, mesmo a nível vocal. Tive de explorar timbres e coisas que não estava habituada a fazer. Mas eu gosto disso. Porque se foi para ficarmos sempre no mesmo, já não se evolui.”Ao mesmo tempo, a atriz sublinha o impacto emocional da partitura. “Andrew Lloyd Webber está aqui no seu melhor. É extremamente difícil, mas temos um elenco que lhe está a fazer justiça de uma forma inacreditável.”Essa intensidade musical, acredita, surpreenderá o público português. “As pessoas têm uma imagem da Evita só do ‘Don’t Cry for Me Argentina’ e vão levar um tsunami de emoções muito para além disso.”No final, o objetivo comum é provocar reflexão sem perder a dimensão de espetáculo. “Espero que se sintam inspirados pela história”, afirma Sofia Escobar. “E que vão para casa também a tentar decidir se a Evita foi a tal santa — ou não.”Já Paulo Sousa Costa resume a ambição da produção com clareza: “Acima de tudo quero que as pessoas saiam daqui e digam: que bom momento que passámos aqui. E depois absorvam as camadas.”Para Sofia Escobar, permanece uma pergunta essencial — aquela que talvez nunca tenha resposta definitiva. Se pudesse encontrar Eva Perón, diz, não procuraria a figura pública, mas a mulher antes da construção do mito. “Gostava mesmo de conhecer a Eva Duarte e não a Eva Perón. A mulher por trás da máscara.” Paulo Sousa Costa vai mais longe.“Perguntava qual seria o segredo para criarmos mais Evas Perón, a partir de Evas Duartes, no fundo qual foi o segredo dela. Mas, acima de tudo, perguntava se ela estava disposta a fazer o mesmo em Portugal.”.Paulo Sousa Costa: “Não acredito num Estado que faz o papel do pai rico”