Aos 99 anos, e depois de vários sustos de saúde nos últimos meses, Ruy de Carvalho prepara-se para regressar esta quarta-feira, 22 de abril, ao palco do Coliseu do Porto com A Ratoeira, numa encenação de Paulo Sousa Costa. O regresso acontece após um AVC que o deixou fisicamente fragilizado, mas não afastou o ator do lugar onde diz sentir-se “feliz”: o teatro. É o ator em atividade mais velho do mundo, com uma carreira que atravessa mais de oito décadas e várias gerações de público. Ruy de Carvalho volta a subir ao palco num momento particularmente simbólico. O reencontro com os espectadores surge depois de uma recuperação exigente e de sucessivas homenagens públicas ao seu percurso artístico e contributo para a cultura portuguesa. Ao longo de quase um século de vida — e de mais de 80 anos em cena — construiu uma das trajetórias mais marcantes do teatro português, passando por autores como Shakespeare, Tchekhov ou Tennessee Williams e por palcos decisivos como o Teatro Nacional D. Maria II. Hoje, regressa com a mesma convicção que sempre afirmou: a de que o palco é um lugar de liberdade, de disciplina e de encontro com o público.Nesta conversa, o ator revisita a relação profunda com o teatro, a memória das personagens que o marcaram, o sentido de responsabilidade perante os espectadores — e o que significa continuar a representar aos 99 anos, entre o homem que é hoje e o rapaz que entrou em cena pela primeira vez em 1936.Sentiu que este regresso era mais necessário para si ou necessário para o público?O palco é a minha felicidade. Creio que para qualquer ator ou atriz. O que me aconteceu deixou-me frágil fisicamente, é verdade, pois perdi muitos quilos, mas a minha cabeça ainda funciona bem. E no palco, as doenças não existem. Tudo desaparece. É como magia. Uma magia boa. Eu gosto do palco e preciso dele. Vamos ver até quando consigo. Para já, os meus colegas dizem que os ensaios correram bem..Ao fim de oito décadas em palco, ainda há personagens que o assustam?O que me assusta não é esta ou aquela personagem. Algumas já não posso fazer, como é óbvio. O que me assusta é não cumprir e não respeitar o público para quem trabalho.Sabemos que o público é muito importante para si. Acha que o público olha para si como ator ou como um símbolo?Espero que ainda olhem para mim como ator. Os dois últimos prémios que recebi, recentemente, quer o prémio 5 Estrelas, quer o Prémio Marcas de Confiança, dizem que é como ator. O símbolo, só se for pelo Amor que dediquei toda a minha vida pelo que gosto de fazer, pelo Amor que tenho à cultura.Há papéis que continuam dentro de si? Quais?Todos deixaram qualquer coisa dentro de mim. Sem exceção. Mas há algumas que foram mais fortes que outras, como por exemplo, o Rei Lear, o Camareiro, A Casa do Lago, A Carroça do Poder, Fígados de Tigre, Palhaço de Mim mesmo, do meu genro e o Render dos Heróis, do José Cardoso Pires, de todas elas, talvez, a que mais me marcou. Alguma personagem está ainda por fazer?Já não. Agora não. O que distingue um ator que dura dois anos de um ator que dura oitenta?Se durou dois anos, é porque não era ator. Se durou ou dura oitenta, é porque provou, ou pelo menos, conseguiu, ter feito alguma coisa bem.A disciplina é mais importante do que a inspiração? Como?A disciplina é importantíssima. Primordial. É o que define depois o profissionalismo. Mas a inspiração anda a par. Ajuda muito. Representar aos 99 anos é um gesto artístico ou um gesto de liberdade? Acho que é as duas coisas. É a minha paixão. A paixão de muita gente, felizmente. O teatro ainda o surpreende? De que forma?Sempre! Pisar um palco, é sempre diferente, apesar das palavras serem diariamente as mesmas, pelo menos durante aquela temporada. O público nunca é igual. Muda de dia para dia. Não ri nem chora nos mesmos sítios. Não reage da mesma maneira. É fascinante.Quando subir ao palco desta vez, quem é que regressa: o ator… ou o rapaz que entrou em cena em 1942?Vão subir os dois. O Ruy e o rapaz que entrou em cena pela primeira vez em cena em 1942. Aqui fica uma pequena emenda, sem grande importância. Entrei pela primeira vez num palco, para representar, com 9 anos, no dia 16 de julho de 1936, no agora Teatro Municipal da Covilhã, cidade onde vivia com os meus pais, para fazer de Mosquito na Peça “Quem quer casar com a Carochinha”. Um familiar da “Carochinha” enviou à minha filha o cartaz desse Espetáculo..O regresso de Ruy de Carvalho aos palcos é muito mais do que um momento artístico: é um gesto de vontade, de identidade e de ligação profunda à vida. Ao lado da filha Paula, revela-se não apenas o ator maior do Teatro português, mas também o pai, o homem e a história viva que continua a emocionar gerações. Entrámos nesse espaço de cumplicidade familiar e de paixão pelo palco, onde se cruzam memórias, escolhas e afetos que atravessam uma vida inteira dedicada à representação.Há alguma coisa que a sua filha ainda hoje lhe diz antes de cada estreia? Existe alguma tradição entre vocês antes das estreias?Ruy: Deseja-me o mesmo que a mãe. E o meu filho, meu querido colega, também. Desejam que corra tudo bem. Desejam muita merda, como é hábito no Teatro. Ambos são muito importantes para mim. De resto não temos mais tradições.Quando o Ruy decidiu voltar ao palco agora, qual foi a primeira reação da família?Paula: Falámos sobre o assunto. Falámos sobre os prós e os contras e depois acabámos por concluir que a vontade dele, que ainda existe e é muito forte, pois ele não está incapaz, antes pelo contrário, era mais forte. Pode não ser muito tempo, mas é um dos seus amores. Representar. Este regresso foi uma surpresa… ou já sabiam que ia acontecer?Paula: Ele nunca deixou de falar no assunto. Só mesmo quando esteve muito mal. De resto, disse sempre que estava farto de estar doente e que o que queria mesmo era voltar ao palco. Como disse, acabou por não ser uma surpresa. O palco faz parte dele. É uma parte dele.Quem é mais exigente com quem: o pai com a filha ou a filha com o pai?Ruy: Ela não quer que eu envelheça e por isso, para ela, sou sempre o pai que ela sempre conheceu, totalmente independente. Eu entendo-a, mas apesar de ser independente, na minha vontade, a verdade é que a idade já não é a mesma. Já não nos divertimos como fazíamos, nem viajamos como fazíamos, mas a vontade está cá. Ela foi agora a Cabo Verde e eu queria ter ido também. Talvez ainda vá. Vamos ver. A nossa cabeça manda muito. Ele pede opinião em casa… ou decide tudo sozinho como em palco?Paula: Opiniões, em relação ao Teatro, só pedia à minha mãe. A nós não pede. É ele que decide. Nós só conseguimos que ele já não esteja sozinho em casa. Foi uma vitória. A outra foi ele próprio que a tomou há cerca de 4 anos. Deixar de conduzir. O palco roubou tempo à família ou trouxe a família para mais perto?Paula: Tive um pai ausente pelo trabalho, mas muito presente como pai. Parece estranho, mas é isso mesmo. Por vezes estava fora nos meus anos, mas depois compensava de outra forma. Foi um pai extraordinário. Quando precisei dele, já mesmo quando mulher, nunca me faltou. Nem o seu apoio nem o seu Amor. Ruy: Eu fiz os possíveis para não roubar e tive uma mulher que ajudou para que isso não se notasse. Mas a vida é isso mesmo. A vida de um Artista não é fácil. Não se pode negar trabalho. Não se trabalha, não há dinheiro para comer. Quando olha para ele em palco, vê o pai… ou vê o ator?Paula: Vejo os dois. Primeiro o ator. Mas nunca perco de vista o pai, com o orgulho que sinto por ele, pelo exemplo que é e sempre foi na minha vida. Há alguma frase do Ruy que ficou como regra de vida na família?Paula: Respeitar sempre os outros. As suas ideias, crenças e vontades. Numa frase, como define o ator Ruy de Carvalho?Paula: Um dos Maiores.E o pai? Como o define?Paula: O meu pai. O meu mais que tudo. Quando terminar a peça no regresso do Ruy aos palcos, o que é que acha que a Paula vai sentir?Paula: Vou descansar o meu coração e dar-lhe um enorme beijo. E depois vou dizer-lhe: estás proibido de me deixar. .25 Abril: Montenegro vai almoçar com Ruy de Carvalho e “homenagear teatro” na residência.A Figura do Dia. Ruy de Carvalho