Veio a Lisboa para falar do seu livro A Anomalia no âmbito da Festa da Francofonia. Um thriller, um conjunto de personagens, um avião duplicado. A Anomalia explora essa parte de nós mesmos que nos escapa?A ideia para o livro era imaginar como reagiriam uma série de pessoas se se confrontassem com elas próprias, mas com esta ideia de um décalage de alguns meses entre as personagens. Uma delas tinha vivido mais três meses e meio que a outra. 106 dias exatos. E esta ideia de desfasamento do tempo permitiu-me explorar o que é o destino, ou seja, as diferentes formas como três meses podem passar. Pode conhecer alguém, pode morrer, pode ficar doente, pode terminar uma relação, pode engravidar. O que me interessava era a ideia do confronto entre dois indivíduos idênticos, pelo menos fisicamente, para ver como três meses poderiam influenciar as suas vidas, ao ponto de decidirem matar-se, sacrificar-se ou colaborar. Era o leque de possibilidades ficcionais que me interessavam. Queria examinar como é que todas estas personagens - tinha decidido que seriam oito, ou nove, dependendo da forma como as contámos - viveriam a separação de três meses e os seus encontros, que psicologia poderia determinar que tipo de comportamento. Esta ideia surgiu de uma noção simples: eu a encontrar-me comigo mesmo. Mas achei isso simplista. Por outro lado, conseguia ver com bastante clareza que tipo de pessoa seria um assassino e que tipo de pessoa seria alguém que se sacrifica. Surgiu então uma segunda questão: a plausibilidade deste evento, deste fenómeno de duplicação. O avião tornou-se a escolha óbvia porque representa uma diversidade de personagens, de classes sociais. Mas o que era realmente interessante era porque é que este avião é duplicado e o que é que poderia explicar cientificamente essa duplicação. Porque eu queria evitar o conto de fadas, queria que esta situação improvável tivesse uma explicação plausível. A solução que se me impôs foi bastante perturbadora: a ideia de que todos nós - você, eu, esta secretária - somos objetos virtuais que, em última análise, existem apenas num enorme computador onde oito mil milhões de pessoas vivem as suas vidas a uma velocidade extremamente elevada. Talvez as nossas vidas inteiras se passem em frações de minutos no computador. Acreditamos que vivemos 60, 70 ou 80 anos, mas tudo acontece num tempo extremamente curto. O computador, em última análise, simula toda a humanidade desde o início dos tempos. Achei interessante. É a proposta de um filósofo sueco chamado Nick Bostrom, que ainda está vivo, que conheço e cito, e que agora tem feito declarações sobre a inteligência artificial. Mas, na altura, a questão da IA não era central, e eu estava sobretudo interessado na questão da simulação. Devo dizer que o facto de a IA ser agora tão central nas nossas vidas torna a questão de uma inteligência virtual bastante tangível e mais plausível. O livro ganhou plausibilidade, enquanto se poderia imaginar o contrário. Podemos ver no seu livro duas questões, a da identidade e a da perceção. Num mundo onde a IA é cada vez mais dominante, podemos confiar cada vez menos nos nossos sentidos?O livro levanta precisamente a questão: devemos confiar nos nossos sentidos? O que é a realidade? Ninguém tem a resposta. E esta falta de resposta permite-nos, de certa forma, ligar o mundo descrito no romance ao princípio do próprio romance. Ou seja, o romance é um pequeno mundo em si mesmo, no qual tudo é inventado - as personagens, o cenário - e, nesse mundo inventado, o autor detém o poder supremo. Isto contrasta com o mundo virtual em que uma série de autores, talvez oito mil milhões de autores, criam o mundo. Aqui, a ideia do demiurgo - do deus criador que é o autor - oferece ao leitor um universo fechado, um universo virtual, que espelha a virtualidade do próprio livro. Esta ideia de um paralelo metafórico entre o mundo virtual e o mundo dos livros também me interessou. Por esta razão, o fim do livro é uma espécie de metáfora para ambos, tanto para o desaparecimento do mundo dentro do livro como para o desaparecimento do próprio livro. Achei que era uma forma interessante de quebrar o impasse, porque, caso contrário, o livro seria interminável. Precisávamos de encontrar uma forma de oferecer ao leitor um final coerente, uma conclusão.Encontramos no livro uma mistura de lógica com um toque de magia. A sua formação em matemática foi importante?Como cientista - não tenho a certeza se sou matemático, mas certamente cientista -, utilizo uma fórmula de Arthur C. Clarke, que afirma que qualquer proposição técnica parece magia para alguém que não a domina. Por outras palavras, antes da fotografia, o ato de ter a sua foto tirada e ser retratado nela poderia impressionar uma pessoa do século XVI. A ideia de ver um desenho animado ou um vídeo poderia ser impressionante para alguém em meados do século XIX, e assim por diante. Isto assemelha-se a magia, tal como hoje as propostas criativas feitas pela IA em frações de segundo a partir de uma ordem dada parecem magia. Existe esta ideia de uma desconexão entre a nossa perceção do mundo e as possibilidades que a tecnologia nos permite criar. E esta desconexão significa que a magia e a lógica se encontram em momentos cruciais, precisamente os da criação de uma nova tecnologia: o cinema, a gravação de som, a criação de imagens e assim por diante. Em última análise, trata-se de mudanças paradigmáticas que perturbam a identidade humana, obrigando-nos a confrontar o facto de a Terra girar em torno do Sol, de já não sermos o centro da criação animal, mas simplesmente um animal entre outros, talvez mais eficiente na construção, na criação de estradas, na criação de tecnologia, mas talvez menos eficiente na sobrevivência no fundo do oceano do que um animal das profundezas. A esta fratura narcisista que significa que já não estamos no mesmo lugar que ocupávamos antes, temos agora uma outra, que é a fratura narcisista do surgimento da IA, que significa que já não somos os seres mais inteligentes do mundo. E isso será bastante desmoralizante para toda a humanidade. Já está a ser. Começamos a sentir no nosso corpo e no nosso próprio ser o facto de não sermos tão inteligentes como uma simples máquina. Trata-se de competir contra autores, matemáticos, biólogos e médicos virtuais que são melhores do que qualquer ser humano. E isto é algo novo, algo que vai mudar completamente a nossa relação com o mundo; não sabemos para onde nos levará. E, como autores, é interessante observar, porque nós próprios estamos ultrapassados.Em A Anomalia a personagem Victor Miesel é um escritor cujas vendas, “apesar de um prémio literário muito parisiense, mas daqueles cuja faixa vermelha não provoca qualquer corrida […] nunca ultrapassaram os poucos milhares de exemplares”. O seu livro ganhou o Prémio Goncourt. A faixa vermelha tem, afinal, alguma importância?Depende da faixa vermelha. Imaginei no livro que ele tivesse recebido um prémio como o Prix de Flore ou o Prix des Deux Magots. A Anomalia teve obviamente um sucesso absolutamente desproporcional porque ganhou o Goncourt. O livro vendeu mais de 1,6 milhões de exemplares, o que é incrível em França. É um dos livros mais vendidos desde a criação do prémio. O prémio tem um impacto não só nacional, mas internacional, pois o livro foi traduzido para quase 50 línguas. Para mim, foi algo gigantesco, uma vez que nunca tinha sido traduzido para mais de dez ou 15 línguas. É o presidente da OuLipo, “L’Ouvroir de littérature potentielle”, um grupo literário criativo e inovador que tem como objetivo descobrir novas potencialidades da linguagem e modernizar a expressão através de jogos de escrita. Criar essas restrições linguísticas é uma forma de manter a atenção do leitor e, ao mesmo tempo, lançar-lhe a ele e a si um desafio?Para mim, é uma forma de me divertir. As restrições presentes n’A Anomalia não as revelei aos leitores. Não só não as revelei, como tive o cuidado de as tornar invisíveis. Mas mesmo quando são visíveis, o leitor não se apercebe que é uma restrição que me impus. Por exemplo, distorço citações, distorço frases encontradas noutros livros e brinco com isso. Um capítulo começa com “todos os voos serenos se parecem uns com os outros, cada voo turbulento é turbulento à sua maneira”. Se já leu Anna Karenina, reconhecerá um piscar de olho ao início do livro, mas se não leu, está tudo bem. Há esta ideia de nos divertirmos, de trazer diversidade aos livros, porque isso também faz parte.E de criar diferentes níveis de leitura?Criar inúmeros níveis de interpretação que permitam a uma grande variedade de leitores identificar-se com o livro. Isto explica o sucesso da obra. O livro destina-se a todos, mas também proporciona o prazer, para uns poucos privilegiados, de encontrar piadas internas, entendimentos partilhados, até cumplicidades, amizades - o que chamamos amizade entre um autor e um leitor.O seu livro Eléctrico W passa-se em Lisboa. Como surgiu a ideia desta Odisseia, não de Homero, mas de António?É um livro bastante antigo. E comecei a escrevê-lo há ainda mais tempo. Comecei em 1992 e publiquei-o em 2011, foram 19 anos de gestação. Abandonei o projeto durante 16 anos. Mas queria escrevê-lo. E acabei por manter apenas um terço do material original. Há muito tempo que queria trabalhar no mito de Ulisses. Mas não queria que isso fosse óbvio. Nem queria que as personagens fossem cópias fiéis. A ideia de Ulisses sempre me interessou. E a ideia de a transportar para a modernidade, de a transformar numa espécie de visão metafórica da feminilidade, e da masculinidade também, e de transformar cada uma das provações de Ulisses em algo diferente - a sereia, o ciclope, os comedores de lótus - foi muito divertido, e está tudo disfarçado, não se consegue ver. Mas, para mim, está muito presente. Eléctrico W é um livro sobre ciúmes e usurpação, sobre como alguém pode ter ciúmes de não possuir uma mulher, que é o caso da minha personagem Vincent, que tem ciúmes de não possuir Irene - Irene é a sereia, obviamente, é muito mais engraçada assim - e a personagem António, de quem Vincent tem ciúmes por não ter tido a mesma vida. Desejava ter um amor tão icónico e belo como o de António; um amor absolutamente maravilhoso, que faz eco do amor de Ulisses por Penélope. Para mim, era um livro sobre o ciúme, um livro sobre um destino inacabado. Eu tinha um título inicial que não mantive porque o achei muito ambíguo: “O Delta do Okavango”, que é um rio em África, o terceiro mais longo do continente, e que nunca desagua no mar. Nunca chega ao mar porque entra no Deserto do Kalahari, onde desaparece. Portanto, para mim, esta ideia do rio que nunca chega ao mar era simbólica dos destinos não concretizados. No livro, um dos personagens recita um poema de Fernando Pessoa…Sim, para mim é fantástico quando entro num elevador em Portugal e leio “5 Pessoas” ou “8 Pessoas” e penso sempre em Fernando Pessoa. Sinto-me sempre estranho ao imaginar cinco pequenos Pessoas. Para mim, o elevador é o local onde se encontra Pessoa [risos]. Mas falando mais a sério, para mim os livros mais importantes de Pessoa são O Livro do Desassossego e a sua poesia. Entre os autores portugueses que foram importantes para mim, há um que faleceu recentemente: António Lobo Antunes. Adorei Explicação dos Pássaros e Manual dos Inquisidores. E um último autor, não português, mas de Portugal, foi Antonio Tabucchi. Conheci-o em Portugal há uns 20 ou 30 anos, porque um amigo meu era amigo dele, por isso almoçámos e jantámos juntos. Adorei Afirma Pereira, que é uma carta de amor a Portugal e um livro belíssimo sobre o período do salazarismo. Assim, para mim, este tríptico de autores é essencial. Foi um universo no qual mergulhei para escrever. Aliás, voltei a ele várias vezes para encontrar aquela saudade, aquele ambiente peculiar de Portugal.Como começou este interesse por Portugal?Aos 17, 18 anos, vim para a Revolução dos Cravos. Eu era um ativista político. Éramos todos muito politizados. Eu era muito de esquerda. E o 25 de Abril foi a última revolução europeia. Por exemplo, o franquismo caiu sem uma revolução. Portanto, vim para Portugal e o país encantou-me, gostei muito. Tinha uma namorada portuguesa que trabalhava em França. Era bióloga, trabalhava no Instituto Pasteur. Portanto, tenho este carinho pelo país. Mesmo se não falo português. É uma língua ao mesmo tempo estrangeira e familiar. Porque não a entendo, não sei falar, mas quando pego no jornal, consigo ler. Gosto muito de Portugal. Na sua obra também há lugar para o humor, por exemplo, nos seus livros Joconde jusqu’à cent ou Joconde sur votre indulgence. Fazer rir o leitor, mesmo noutro género literário, é importante?Sim, é importante. Acho até que o meu próximo romance será engraçado. Há uma frase de que gosto muito: a leitura é uma amizade. E a amizade também é uma forma de humor. A relação humorística, a ligação do humor e da autodepreciação com o leitor é muito importante. Eu acredito muito nisso. Já escrevi livros unicamente para fazer rir..“O prémio Goncourt muda a vida do livro, a vida do seu autor e a vida do editor”