Tamara Cortes e Matías Catalán: drama no "fim do mundo".
Tamara Cortes e Matías Catalán: drama no "fim do mundo".

'O Misterioso Olhar do Flamingo'. Quando a sida era uma doença sem nome

Premiada no Festival de Cannes, a primeira longa-metragem do chileno Diego Céspedes chega agora às salas portuguesas: 'O Misterioso Olhar do Flamingo' revisita os dramas dos tempos iniciais da sida.
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São muito variados os modos de abordagem da sida em cinema. Recordo dois exemplos emblemáticos: Filadélfia (1993), de Jonathan Demme, com Tom Hanks, e Les Témoins (2007), de André Téchiné, centrado num grupo de amigos de Paris, confrontados com os primeiros sinais da doença (nunca estreado em Portugal). Distinguido com o prémio da secção “Un Certain Regard”, no Festival de Cannes de 2025, O Misterioso Olhar do Flamingo, longa-metragem de estreia do chileno Diego Céspedes (nascido em Santiago, em 1995), aposta num registo ambivalente em que a crueza realista do cenário tende a ser “corrigida” pelos artifícios da parábola.

Estamos perante um mundo à parte. Datada de 1982, a ação centra-se num grupo de homossexuais, isolado numa pequena “aldeia” de construções de madeira, algures no deserto chileno, na periferia de uma cidade mineira. É um lugar pobre e decadente em que, apesar de tudo, prevalece uma solidariedade tecida de angústia e humor, resistindo às ameaças do exterior. Figura central, Flamingo (Matías Catalán) tem uma filha de 11 anos, Lidia (Tamara Cortes), criança abandonada que a comunidade acolheu.

O filme desenvolve-se a partir do olhar de Lidia, interrogando-se sobre a misteriosa doença (sem nome) que começa a atingir, não apenas alguns membros da comunidade, mas também os mineiros que os visitam durante a noite. É o caso de Yovani (Pedro Muñoz), cujo amor por Flamingo não impede de o acusar da sua agonia. Para Lidia, a explicação parece estar na lenda que circula: cada vez que um homem contempla outro, olhos nos olhos, o amor transforma-se em peste...

O filme tem qualquer coisa de insólito "western”: a paisagem de “fim do mundo” vai sendo resgatada pela bizarria dos espetáculos que a comunidade oferece a si própria, contando com a companhia de alguns mineiros. A partir de certa altura, a realização abandona esse registo, introduzindo elementos alegóricos que acabam por banalizar o dramatismo do que já conhecemos, garantindo uma “mensagem” esquemática de redenção.

Como outros filmes “militantes” da atualidade, sobre causas e temas muito variados, O Misterioso Olhar do Flamingo vai decompondo a intensidade emocional dos elementos que começa por encenar. Em todo o caso, o trabalho do elenco resiste aos estereótipos, sendo forçoso destacar a composição de Matías Catalán na personagem tão concreta quanto abstrata de Flamingo.

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