Conhecemos Ruth Goldman na rotina de casa. Na cozinha, está a torrar uma fatia de pão. Pega nela e coloca-a num aparato metálico onde estão alinhados alguns pratos, talvez a escorrer depois de lavados... Que se passou? Nada, aparentemente, uma vez que Ruth prossegue as suas tarefas, preparando uma refeição para dois. Pouco depois, chega Steve. Sentam-se à mesa e Ruth pergunta-lhe qual a sua profissão. Steve é arquiteto, o que suscita um comentário caloroso de Ruth: “Num mundo destrutivo, a capacidade de construir coisas é um dom muito importante.” Acontece que Steve é filho de Ruth, mas ela já não o reconhece...Assim, nos primeiros minutos de Um Toque Familiar, primeira longa-metragem de ficção da americana Sarah Friedland (nascida em Los Angeles, em 1992), somos confrontados com uma personagem que sofre de demência. Não se trata de apresentar a demência como um "tema” alheio aos próprios humanos, mas sim de observar um caso concreto das suas manifestações — a palavra nuclear é, por isso, “personagem”.Friedland chegou às imagens cinematográficas através da coreografia. Um exemplo do seu trabalho poderá ser a obra Crowds (2019), resultante da filmagem de vários grupos humanos em movimento, gerando e decompondo formas de “comunicação”. Não é um filme tradicional, mas sim uma video-instalação de três canais — estreou-se no Ann Arbor Film Festival, no Michigan, tendo passado por vários certames internacionais, incluindo o Festival Ecrã do Rio de Janeiro.Atenta aos enigmas e singularidades dos corpos, Friedland transforma Um Toque Familiar numa invulgar experiência narrativa. O seu “objeto” central é o corpo de Ruth, na certeza de que as fronteiras desse corpo são tão ambíguas quanto as transfigurações da sua identidade. Afinal, ela tanto é a mulher que perdeu a memória familiar como a sofisticada cozinheira que surpreende todos os que a acompanham no lar onde passa a viver — no papel de Ruth, a veterana Kathleen Chalfant é um prodígio de delicadas emoções.Em tempos de exploração mediática da “doença” através de formas duvidosas de piedade e paternalismo, Um Toque Familiar é uma das melhores revelações do nosso verão cinematográfico. Chega algo atrasado (ganhou três prémios da secção Orizzonti do Festival de Veneza de 2024), mas a maravilhosa humanidade da sua linguagem cinematográfica é uma dádiva preciosa. .A crise filosófica do Homem-Aranha