Painel 'March' (1986) de Gilbert & George serviu de cenário para a apresentação da nova exposição  por Nuno Vassalo e Silva, presidente do CCB, Nuria Enguita, diretora artística do MAC/CCB e os curadores Marta Mestre e Raphael Fonseca.
Painel 'March' (1986) de Gilbert & George serviu de cenário para a apresentação da nova exposição por Nuno Vassalo e Silva, presidente do CCB, Nuria Enguita, diretora artística do MAC/CCB e os curadores Marta Mestre e Raphael Fonseca.Reinaldo Rodrigues

Nova exposição permanente no CCB mostra arte a partir dos anos 1970 e questiona missão dos museus

Abre ao público esta quinta-feira uma nova exposição no CCB com 127 obras de 84 artistas. Diretora artística diz que protocolo que limita uso da Coleção Ellipse “não condiciona trabalho do MAC/CCB”.
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O título da nova exposição permanente do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB), May I Help You? Posso Ajudar?, é emprestado de uma obra da artista Andrea Fraser que o visitante pode ver nesta mostra. Para isso terá de se sentar e um vídeo de 20 minutos e sete segundos. A peça nasceu de uma performance realizada numa exposição em Nova Iorque, em 1991, na qual Andrea Fraser colocou três atores a interpretar monólogos de 15 minutos, escritos por ela, como se fossem elementos da equipa da galeria. Os atores encarnaram seis personagens-tipo do mundo da arte, desde artistas, galeristas ou colecionadores, captando a forma distinta de olhar para uma obra de arte e a “relação entre gosto e classe social”, sublinhou Nuria Enguita, diretora artística do MAC/CCB na visita de imprensa.

Noutro ecrã ao lado é possível ver mais uma obra de Andrea Fraser, Little Frank and his Carp (2001), um vídeo de seis minutos, em que o Frank do título é Frank Gehry, o arquiteto do museu Guggenheim de Bilbau. O vídeo foi filmado nesse museu com câmaras escondidas e é a própria artista que se vê a ir buscar um áudio guia dando início a uma performance em que mais uma vez se questiona, "de forma irónica e por vezes cómica", o mundo artístico e as suas instituições.

'May I Help You?' (1991) e 'Little Frank and his Carp' (2001), de Andrea Fraser.
'May I Help You?' (1991) e 'Little Frank and his Carp' (2001), de Andrea Fraser.Foto: Reinaldo Rodrigues

Ali perto está uma obra de Gabriel Abrantes, Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre [As Extraordinárias Desventuras da Rapariga de Pedra], um filme de 20 minutos, que o autor já descreveu como "uma metáfora da arte que quer escapar às restrições institucionais do museu e tornar-se politicamente empenhada no mundo real".

Está dado o mote para uma das abordagens a esta nova mostra no CCB - “mostrar os mecanismos de validação da arte”. Para Nuria Enguita, “a âncora desta exposição é a mudança de função e missão dos museus para dar acesso a um público mais diversificado”.

Com 127 obras de 84 artistas, May I Help You? Posso Ajudar? vem substituir, no Piso -1, a mostra Objeto, Corpo e Espaço - A revisão dos géneros artísticos a partir da década de 1960 , e ficará patente durante cerca de três anos. A exposição abrange um arco temporal de cinco décadas de produção artística a partir dos anos 1970 - marcados pela rutura com a arte tradicional e o surgimento de novas linguagens, como o minimalismo, a arte conceptual ou a Arte Povera -, até ao ano de 2025, data da obra mais recente, de Bruno Zhu, uma encomenda para esta exposição.

'As Extraordinárias Desventuras da Rapariga de Pedra', de Gabriel Abrantes.
'As Extraordinárias Desventuras da Rapariga de Pedra', de Gabriel Abrantes. Foto: Reinaldo Rodrigues

“Partimos da premissa de que os anos 1970 são um momento de crise que muda o mundo”, diz Nuria Enguita, que é curadora da exposição com Marta Mestre e Raphael Fonseca, especialista em arte latino-americana do Denver Art Museum. Num contexto de expansão do capitalismo e globalização, em que surgem movimentos de contracultura, “as artes também se transformam, e transformam o campo artístico, expandindo-o”, diz diz Nuria Enguita. "A arte sai dos museus, sai para os corpos, sai para a linguagem, sai para a terra, sai para os media, e sai até para as relações interpessoais", sublinha. “Os museus, como parte desse ecossistema artístico, têm que transformar-se também para poder dar conta dessas novas narrativas artísticas.”

Para Marta Mestre, May I Help You? Posso Ajudar? “traz uma pergunta de volta ao museu: como passar de uma crítica institucional para uma institucionalidade crítica, como fazer das instituições espaços que acolham essas posturas críticas dos artistas sem se deixarem capturar pelo mercado ou pela orientação museológica”.

Esta exposição reflete, segundo o MAC/CCB, o compromisso da instituição em "ampliar horizontes interpretativos, questionar narrativas hegemónicas e contribuir para uma abordagem crítica e plural".

Com obras de uma grande diversidade de materiais e processos, May I Help You? Posso Ajudar? junta artistas portugueses como Helena Almeida, Fernanda Fragateiro, a dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Sara Bichão, Ana Jotta ou os já referidos Gabriel Abrantes e Bruno Zhu, a nomes internacionais como Jeff Koons, Doris Salcedo, Mona Hatoum, Richard Serra, Jenny Holzer, Félix González-Torres, Kara Walker, Thomas Hirschhorn ou Lothar Baumgarten.

Produções, primeiro eixo da exposição.
Produções, primeiro eixo da exposição.Foto: Reinaldo Rodrigues

A exposição começa com um "prólogo" onde se exibe o painel March (1986) de Gilbert & George e um mural da artista argentina Ad Minolti (Antifa Parade), convidada para fazer esta obra para a exposição.

Seguem-se depois três eixos que ocupam três salas dedicadas aos temas Produção, Mudanças e Tramas. Derrubaram-se paredes (a anterior exposição permanente estava dividida em nove salas) abrindo-se outras possibilidades na visita. "Quem nos visitou no MAC/CCB antes vai entender essa mudança, essa abertura de paredes, que é interessante para uma visão em ziguezague, uma visão que não é linear, uma visão que não aponta uma direção única, mas um percurso que se faz de escolhas ", diz Marta Mestre.

No eixo Produções há um foco nos objetos, sejam de produção industrial e até desperdício urbano, usados para questionar a sociedade de consumo e os fluxos de comércio global, sejam objetos artesanais que remetem para a recuperação da memória e regresso à natureza. Aqui estão expostas, por exemplo, um conjunto de obras de Ana Jotta feitas de assemblagens com objetos readymade, ou a peça Torsione (1968) de Giovanni Anselmo, associado ao movimento Arte Povera.

O 'kitsch' de Jeff Koons: 'Poodle' (1991).
O 'kitsch' de Jeff Koons: 'Poodle' (1991).Foto: Reinaldo Rodrigues

Nesta secção inicial também se questionam as noções tradicionais de gosto, por exemplo, através de duas obras kitsch de Jeff Koons, Poodle (1991) e Bob-Tail (1991).

No eixo Mudanças abordam-se "traumas coloniais" e "tradições patriarcais" questionando-se a noção de poder, com obras de artistas como David Hammons, Glenn Ligon, Kara Walker, Gabriel Chaile, Antonio Pichillá ou os angolanos Kiluanji Henda e Yonamine.

Obra de Kara Walker, sem título, de 2005.
Obra de Kara Walker, sem título, de 2005. Foto: Reinaldo Rodrigues

No eixo Tramas a atenção é virada para as superfícies e reúnem-se um conjunto de artistas em que domina a abstração, padronização ou uma vertente meditativa ou até espiritual. Nesta sala final estão obras dos artistas portugueses Fernanda Fragateiro, Helena Almeida, Ana Hatherly, Júlia Ventura, Carla Filipe, João Marçal e Julião Sarmento, e internacionais como Frank Stella, Daniel Buren ou Matt Mullican.

É também aqui o visitante tem de ficar atento e olhar para cima. Porque a obra que Bruno Zhu fez para esta exposição é quase invisível.

Das 127 obras em exposição, 30 vieram de fora, de instituições como Serralves, Gulbenkian, Culturgest e de outras coleções. A pesquisa curatorial foi “muito abrangente, muito ampliada, no sentido de não só criar uma maior representatividade para aquilo que é o cânone das instituições e, de certa maneira, formulações mais tipificadas”, diz Marta Mestre, contemplando também “uma diversidade geográfica que era preciso trazer, e o trabalho do Raphael foi nesse sentido”, sublinh

A curadora Marta Mestre com uma obra de João Marçal ao fundo.
A curadora Marta Mestre com uma obra de João Marçal ao fundo. Foto: Reinaldo Rodrigues

Das obras expostas, 62 são da Coleção Ellipse - Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Foram escolhidas já no âmbito do protocolo entre o CCB e a Museus e Monumentos de Portugal que criou regras nos empréstimos desta coleção. O protocolo estabelece um regime de comodato de 50 obras para exposição permanente no MAC/CCB durante cinco anos, e 200 obras para programação anual. Nuria Enguita diz que as 50 obras foram selecionadas no âmbito da “escolha curatorial para esta exposição e que a maioria está em exibição. “O protocolo não condiciona o trabalho do MAC/CCB”, considera a diretora artística do museu.

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