Este ano será de mudança programática para o Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva, em Lisboa, depois do projeto 331 Amoreiras em Metamorfose, comemorativo dos 30 anos da abertura do museu, que decorreu de 20 de novembro de 2024 a 18 de janeiro deste ano. O diretor, Nuno Faria, apresenta esta terça-feira, dia 3, a programação para 2026 que prevê três ciclos expositivos, o último dos quais será uma exposição antológica de Arpad Szenes, que Nuno Faria considera que será a “grande exposição do ano”. Em cada um dos ciclos as obras do casal Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes serão alvo de “um trabalho de maior profundidade e atenção a obras individuais”, em diálogo com outros artistas convidados, entre eles os também casais Rui Sanches e Teresa Segurado Pavão e Mariana Caló e Francisco Queimadela. “Não foi propositado, não é um mote de programação, mas é interessante”, aponta Nuno Faria. .Durante os cinco capítulos expositivos de 331 Amoreiras em Metamorfose procurou-se unir o espaço expositivo e vez de “uma divisão demasiado estrita entre coleção permanente e exposições temporárias, isso agora muda, mas não volta ao que era. Está entre uma coisa e outra”, adianta Nuno Faria sobre as próximas exposições. O espaço será estruturado em núcleos , “interpolados com projetos individuais mais localizados ou mesmo exposições individuais”, explica. Uma novidade será a recuperação do espaço expositivo do piso térreo onde estava há três anos uma experiência imersiva que entrará em circulação por outras instituições. Esse espaço exibirá agora um conjunto de obras “com várias vistas da Vieira a pintar ou a desenhar que o Arpad fez, o Arpad desenhou-a e pintou-a sempre ao longo da vida deles, portanto, esse olhar de dentro. Vemos a Vieira a pintar pinturas que existem ou a desenhar coisas que sabemos que existem”, descreve o curador. . O primeiro ciclo expositivo decorrerá de 10 fevereiro a 10 de maio com a exposição Arpad Szenes e Vieira da Silva: núcleos da coleção. A mostra começa na nave com desenhos anatómicos da Vieira da Silva, de 1926 -1927, seguindo-se um conjunto de outros desenhos de Arpad e Vieira. Também se poderão ver, por exemplo, grandes pinturas de Vieira da Silva dos anos 1960 e guaches dos anos 1930. .Em simultâneo serão mostrados trabalhos de outros quatro artistas que em comum têm uma produção “a meio caminho entre a escultura e a pintura”. O casal Rui Sanches e Teresa Segurado Pavão terão uma exposição intitulada Ensaios em Imobilidade e Movimento Secreto. “É uma surpresa grande, porque são dois artistas que são um casal na vida, um escultor e uma ceramista que também trabalha com têxtil, que estão a trabalhar há bastante tempo num conjunto de obras, feitas a quatro mãos, que vamos expor aqui. Dizem os artistas que é uma primeira e única colaboração entre eles e ficamos muito, muito entusiasmados de mostrar essas peças”, diz Nuno Faria. .Será ainda possível ver nestes primeiros meses do ano a exposição Desafios Defiances da artista brasileira radicada em Portugal Frida Baranek, que apresentará esculturas de parede, em suspensão e de chão. Vasco Futscher mostra um conjunto de peças da série Volte-Face na mostra Broken Mile, “peças de chão, em cerâmica pintada, cuja forma é obtida através de um processo de extrusão, recorrendo ao uso de moldes”. "O ciclo é pensado em torno de questões que preocupam a todos os autores. Há uma espécie de diversidade a partir de uma certa uniformidade temática", diz Nuno Faria. O que os une, além "desta ambiguidade entre ser escultura e ser pintura", sublinha o curador, "é o tema da natureza morta e a presença muito forte do corpo". . O segundo ciclo expositivo irá de 21 de maio a 13 de setembro. As obras de Arpad Szenes e Vieira da Silva estarão em diálogo com as de Lourdes Castro, João Paulo Feliciano, Mariana Caló e Francisco Queimadela, e Carlos Noronha Feio. . Lourdes Castro, desenhos iniciais e outras obras e documentos (1950-1960) é uma parceria com o MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira e apresenta um núcleo de desenhos realizados pela artista madeirense na década de 1950. “A Lourdes tinha uma relação muito forte com a Vieira. A Vieira foi uma espécie de protetora, modelo e amiga para a vida da Lourdes, havia uma relação muito íntima”, explica Nuno Faria.João Paulo Feliciano, artista das Caldas Rainha, terá a exposição Da Capo. “Este ano é um ano de ressurgimento da obra dele, inaugurou recentemente uma exposição na galeria Cristina Guerra. Vamos ter um conjunto de pinturas, porque pouca gente sabe que o João Paulo Feliciano começou a pintar muito jovem, influenciado pela obra da Vieira”, sublinha o curador. Serão expostas primeiras pinturas dos anos 1980 e outras mais recentes e inéditas. .Reflexo de Adorar mostrará trabalhos de Mariana Caló e Francisco Queimadela, obras “entre a pintura, a instalação e a sala escura do cinema”. E ainda neste segundo ciclo haverá uma exposição de Carlos Noronha Feio, que “apresenta obras com impressões de imagens sobre seda e luz que serão produzidas a partir de um trabalho de pesquisa e em diálogo com a coleção e arquivo da FASVS - Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva.”Entre 24 de setembro e fevereiro 2027 o museu propõe uma exposição antológica do trabalho de Arpad Szenes. “Será inédita no sentido em que nunca o museu foi totalmente dedicado ao Arpad Szenes. Penso que isso seria um motivo de grande alegria para a Vieira”, diz o diretor do museu. “Com este trabalho de mais de um ano que fizemos aqui, pude constatar o interesse enorme que artistas mais novos e o público em geral tiveram pela obra do Arpad”, uma obra marcada "por uma irredutível liberdade formal e temática e atravessado por uma descontinuidade que o abre a uma dimensão experimental assinalável”, diz o museu. As obras virão sobretudo da coleção do museu, mas haverá peças de outras instituições e de colecionadores privados, nacionais e internacionais e a exposição “será acompanhada de um estudo que atualizará criticamente o trabalho do artista". Uma mostra que coincidirá com a viagem da obra de Vieira da Silva até à China. “A exposição do Arpad ocupará todo o espaço, até porque, na mesma altura – a data ainda está a ser afinada – haverá uma exposição individual antológica da Vieira no Museu de Macau, com peças da nossa coleção, que concebemos com o museu de Macau”. Será a primeira grande mostra da obra de Vieira da Silva em território chinês, depois de, em 1991, a Fundação Calouste Gulbenkian ter organizado uma exposição retrospetiva da sua obra gráfica, sublinha o museu. .Na vertente “fora de portas”, preveem-se parcerias entre FASVS e o Centro de Arte de Coimbra, Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, uma exposição na Embaixada de Portugal nos Países Baixos, e uma mostra da obra gráfica de Vieira da Silva, em parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em São Miguel e Terceira, nos Açores. .Benjamin Weil: "A missão principal da coleção do CAM é estar fora, não é ficar aqui” .António Filipe Pimentel: "O Museu Gulbenkian ganhou uma centralidade que não tinha na instituição. Essa foi a minha luta"