É no seu atelier, na Tapada da Ajuda, em Lisboa, que a artista Cristina Ataíde mostra a maquete da escultura pública que concebeu para o Parque Urbano de Ponta Delgada em homenagem aos produtores de leite açorianos. A obra é constituída por dois aros em aço inoxidável escovado e um baixo relevo em cerâmica como base. O aro maior, com três metros de diâmetro, é um cincho em aço inoxidável perfurado. O aro mais pequeno, com 2,70 metros, no mesmo material mas liso, representa o queijo. A base, em pastilha de vidro branco brilhante, com sete metros de comprimento e quatro de largura, é o leite. Há também mais dois elementos fora da base principal, como se fossem pingos de leite. . “Como isto vai ficar no meio da erva, vai remeter também para as pastagens”, explica Cristina Ataíde, que procurou usar materiais que não necessitam de manutenção e respeitar o orçamento. “Não é uma escultura grande, é muito intimista. Porque três metros ao ar livre é uma dimensão muito reduzida. Mas fica com uma escala humana”, diz a artista. “Tudo fica a 20 centímetros do terreno para dar alguma elevação, mas pode ser percorrida pelas pessoas, as minhas esculturas são sempre participativas”, sublinha Cristina Ataíde, que tem esculturas públicas, por exemplo, no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, no Jardim da Água, no Centro Cultural de Belém, no Parque dos Poetas, em Oeiras, ou em Cascais. .Outra dimensão da obra concebida pela artista para o Parque Urbano de Ponta Delgada é a luz. “Penso que com o sol vai ter umas sombras interessantes, que também é uma coisa que me agrada. Portanto, haver um movimento de sombras nesta superfície branca do leite. E à noite vai ser iluminada, o que vai provocar outras sombras completamente diferentes. Vai modificar a forma, que eu acho que é sempre muito interessante.” A obra será inaugurada no dia 20 de março no âmbito da programação oficial de Ponta Delgada - Capital Portuguesa da Cultura 2026, em parceria com a Bel Portugal, que procurou assinalar os dez anos do seu Programa Leite de Vacas Felizes. Na primeira fase do projeto, o curador de Artes Visuais da Ponta Delgada - Capital Portuguesa da Cultura 2026, José Maçãs de Carvalho, selecionou quatro artistas para apresentarem propostas para a escultura pública. Além de Cristina Ataíde, foram convidados João Miguel Ramos e Sofia de Medeiros, ambos dos Açores, e Marcelo Moscheta, do Brasil. Um júri composto por representantes da Capital da Cultura, do Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande e da Bel Portugal, avaliaram as propostas e escolheram a de Cristina Ataíde. Intempéries e ação humana No estúdio da artista, rodeado de vegetação da Tapada da Ajuda, temos um vislumbre da escultura através da maquete e dos esboços iniciais realizados para esta obra de arte pública. Também estão à vista outros trabalhos que Cristina Ataíde está a fazer para a sua próxima exposição individual. “É uma exposição que se chama Espaços Intermédios e que, muito a propósito, tem a ver com esta problemática da destruição do património natural. Porque eu comecei por trabalhar com um cedro que caiu aqui por causa de uma intempérie que houve no ano passado, um cedro magnífico. E pedi para o cortarem em três pedaços.” Essas três peças não estão no atelier da artista. As cinco esculturas de madeira que se veem no chão tiveram outra origem. “Estes eram uns cedros, também magníficos, que estavam a incomodar, estavam a cair para cima de um muro, e foram pura e simplesmente cortados. O que eu achei tristíssimo. E pedi também algumas fatias. É a mesma linha, só que estes foram cortados pelo homem”. . As três peças maiores, com 95 centímetros de diâmetro, estão no Instituto Superior de Agronomia, uma vez que não podiam ser trabalhadas no atelier por falta de espaço.“Eu queria fazer um pouco essa comparação entre o que cai pelas forças das intempéries, que cada vez são maiores, e que tem a ver com a sustentabilidade do planeta, mas também com a destruição que o homem provoca nessa própria natureza”, sublinha Cristina Ataíde. A artista tem feito uso da natureza no seu processo criativo, por exemplo, utilizando a ação do vento para espalhar pigmentos em papel, ou imergindo papel em rios, como o Ganges, na Índia, ou o Mekong, no Laos. “Eu trabalho muito com os elementos. E, neste caso, trabalhei com os próprios insetos e larvas que abriram aqueles buracos dentro da madeira. Portanto, na realidade, eu não faço nada. A única coisa que eu fiz foi limpar a serrilha. Aqueles buracos que veem nestas peças vão ver também nas outras, nas grandes”. A artista deu forma à madeira arredondando-a e encerando-a para ficar com uma superfície lisa e macia. “São peças que podem ser acariciadas, tocadas, porque são muito sedosas.”A exposição, a par destas esculturas, também terá “desenhos” a carvão sobre papel pintado com pigmento vermelho. “São desenhos que são trabalhados com carvão, que também é uma árvore carbonizada, queimada. E depois eu apago. Portanto, há uma ação. Digamos que o meu desenho é um desenho feito com borracha. É tentar tirar todo o excesso, tudo o que é desnecessário.” E aponta para uma das obras suspensas no seu atelier: “Este, por exemplo, já está completamente limpo. E depois é muito interessante, porque há uma altura em que não se consegue limpar mais. Deixo de poder atuar sobre o desenho. E a base são estas linhas maravilhosas das árvores, ao fim e ao cabo, o ciclo de vida das árvores”. .O uso do vermelho também é muito comum na obra da artista - incluindo em esculturas - e ela aponta as razões para isso. “Sim, porque o encarnado é uma cor completa para mim. É uma cor de opostos. O encarnado tanto representa o amor como representa o ódio, representa a vida, mas representa a morte. É energia feminina e energia masculina. A feminina é mais escura, lunar. E a masculina é mais solar e mais aberta. E também é uma coisa de paixão, de sexualidade, de proibição. Enfim, eu acho que tem quase todos os significados”. Além disso, acrescenta, acentua o verde da natureza com a qual gosta tanto de trabalhar. “Quando eu ponho uma fita vermelha na nossa natureza, que é verde - há outras naturezas que não são verdes, mas a europeia e portuguesa é - , tudo vibra. Porque são cores contrastantes e é uma reação muito forte.” A artista fala em “fita vermelha na natureza” porque ela já o fez, por exemplo, em 2018, no Parque do Fontelo, em Viseu, de onde é natural. Para a exposição Espaços Intermédios, que é inaugurada no próximo dia 26 de fevereiro na galeria Appleton, em Lisboa, onde ficará patente até dia 2 de abril, a artista levará oito destes desenhos, em diferentes tons de vermelho. ."Tento sempre modificar os tons. Às vezes parecem iguais, mas se estiverem juntos são diferentes. É também uma coisa de percepção e de continuar com aquela ideia de olhar com atenção”. Apontando para a maquete da exposição, Cristina Ataíde mostra-nos que os desenhos vão ficar suspensos, uns mais próximos e outros mais afastados das paredes. As oito peças escultóricas de madeira de cedro ficarão no chão. “Estava a pensar fazer uma iluminação forte nos cedros e fraca nos desenhos. Ficarem um bocadinho em segundo plano.” Aos 75 anos e com uma longa carreira artística, as viagens pelo mundo continuam a fazer parte do processo criativo de Cristina Ataíde. A última jornada foi a Annapurna, uma montanha dos Himalaias (as montanhas também estão muito presentes no seu trabalho, por exemplo, em esculturas de mármore). Além de muitas fotografias, trouxe pedras, que ela nos mostra já devidamente catalogadas. A próxima aventura será ao Vale Sagrado no Peru onde espera aprender sobre pigmentos naturais com as artesãs locais. Ponta Delgada - Capital Portuguesa da Cultura 2026A capital da Ilha de São Miguel, nos Açores, assumiu-se no final do mês passado como Capital Portuguesa da Cultura deste ano, depois de Aveiro, em 2024, e Braga, em 2025. Comissariada por Katia Guerreiro, a programação decorre sob o mote O Lugar do Amanhã. Eis alguns destaques da programação que abrange teatro, música, dança e artes visuais. 21 de fevereiro Victor Hugo Pontes & Companhia Maior apresentam espetáculo de dança ‘A Esta Hora na Infância Neva’ no Teatro Micaelense. 22 de fevereiro Requiem de Mozart na Igreja Paroquial de São José, com a Orquestra Arquipélago Cromático e Coro Sinfónico do Coral de São José. 26 de fevereiro Afonso Dorido, Homem em Catarse, em concerto na Igreja do Colégio. 8 de março Concerto de Cristina Branco que leva o seu 18º álbum de originais, ‘Mãe’, ao Teatro Micaelense. 14 de março Márcio Vilela inaugura ‘Previsão de Deriva’ no Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas. 30 de maio ‘Catarina e a Beleza de Matar Fascistas’, encenada por Tiago Rodrigues, em cena no Teatro Micaelense.28 de setembro ‘Os Maias’ da Companhia Nacional de Bailado no Teatro Micaelense. 28 de novembro Teatro Nacional de São Carlos leva a ópera de Verdi ‘Um Baile de Máscaras’ ao Teatro Micaelense..Coleção EDP em exposição: há obras ousadas e "impossíveis" que já foram de Pedro Cabrita Reis .Vhils e as camadas que formam a identidade. No espaço digital, elas vêm de onde? .O ano em que o húngaro Arpad Szenes terá uma exposição só dele