A coleção de arte contemporânea da Fundação EDP é composta por 2450 obras de 345 artistas e uma pequena parte delas pode ser vista na exposição Turn Around. Um olhar sobre a Coleção de Arte da Fundação EDP, que abre ao público esta quarta-feira, 11 de fevereiro, no MAAT Central, em Lisboa. João Pinharanda, diretor do MAAT e um dos curadores da mostra - juntamente com Margarida Chantre e Sérgio Mah -, diz que a exposição foi montada a partir de três grandes peças: Passerelle (2005), de Joana Vasconcelos, Hero, Captain and Stranger (2009), de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira e Marmitex, Guggenheim Ibérico (escultura acidentada #1), de Rodrigo Oliveira. Estas duas últimas, assim como a obra Aklimatyzacja (2010), de João Ferro Martins, também patente nesta exposição, entraram no espólio da Fundação EDP por via da compra da coleção particular pertencente a Pedro Cabrita Reis, em 2016, com 388 obras de 74 artistas portugueses da última década do século XX e início do século XXI. A coleção de arte contemporânea da EDP passou assim a integrar um conjunto de obras, reconhece João Pinharanda, que dificilmente seriam adquiridas pela instituição. “Foi um momento muito importante, porque o Cabrita tinha a capacidade de fazer uma coleção que é um pouco difícil de fazer institucionalmente. E muitas dessas peças que o Cabrita adquiriu são muito ousadas, é o caso desta [Hero, Captain and Strange] e a do Rodrigo Oliveira. Eu, como representante de uma instituição, podia ter receio em negociá-las. Por outro lado, o Pedro trocava obras por obras, o que eu não posso fazer, e depois ele tem uma ousadia infinita e comprou obras impossíveis, algumas das quais só temos em projeto. Esta é uma das tais impossíveis”, sublinha João Pinharanda em relação à instalação de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. . João Pedro Vale, também presente nesta visita de imprensa, ajuda-nos a perceber a “ousadia” desta obra. “Esta peça faz parte de um projeto um pouco mais complexo, que é a realização de um filme pornográfico gay a partir do Moby Dick do Melville. Este filme porno acontece durante um período em que eu o Nuno estamos a morar em Nova Iorque e a pensar sobre esta ideia do que são os imigrantes portugueses nos Estados Unidos, e deparamo-nos com uma comunidade que emigrou para os EUA por causa da caça à baleia. E daí a presença de alguns portugueses na obra do Melville”, explica. “Hero, Captain and Strange é o título do primeiro livro de queer studies – na altura não se chamava assim – que analisa a obra do Melville sob o ponto de vista da homossexualidade.”A obra exposta é o cenário desse filme, uma espécie de cabana de baleeiro, mas em que todos os adereços que lá estavam voltaram a ser feitos a preto e branco. “Quando olhamos para a instalação temos exatamente a imagem daquilo que nos aparece no filme, por ele ser a preto e branco. E retirado tudo o que aconteceu aqui durante as filmagens, que basicamente foram homens a fazer sexo, ela volta a ter caráter de museu etnográfico, com toda esta carga sexual e identitária que nos interessa trabalhar”, explica o artista. . Coincidência ou não, João Pedro Vale aparece associado a mais duas obras em exposição no MAAT Central: participa como ator no filme de sete minutos A Brief History of Princess X (2016), de Gabriel Abrantes, vencedor do Prémio Novos Artistas Fundação EDP em 2009, e é autor da peça When you wish upon a star (2001), que pode ser vista no âmbito de outra exposição no MAAT Central que foi apresentada ontem – A Carpintaria da Central Tejo, 1936-2013, com curadoria de Rosa Goy e Ivone Maio. Ali exibem-se ferramentas e equipamentos que fizeram parte da carpintaria da central elétrica, construída em 1936 e que deixou de funcionar em 1972. .Nessa carpintaria e num armazém contíguo onde depois nasceria o edifício do MAAT, em 2016, realizou-se, no verão de 2001, uma exposição de arte contemporânea para a qual foram convidados, além de João Pedro Vale, os artistas Ana Jotta, Fernanda Fragateiro, Leonor Antunes, Noé Sendas, Rui Toscano e Xana. Realizar-se-iam ali depois outras exposições, como Medly, de Joana Vasconcelos, vencedora da primeira edição do Prémio Novos Artistas, em 2000. When you wish upon a star é a única obra da exposição de 2001 exibida, uma vez que foi comprada pela Fundação EDP. É composta por uma das bancadas de trabalho da carpintaria, em cima da qual estão tábuas forradas a cetim azul que se transformam num tubo de tecido de 300 metros que conduzem a um Pinóquio feito com o mesmo tecido (remetendo para a fada da história). Mas há fotografias de trabalhos de alguns dos outros artistas e de outras exposições que ali se realizaram, como a de Luís Campos (Aldeia da Luz) e Patrícia Garrido (Tectos Falsos). . Voltando à exposição Turn Around, há uma peça que nunca foi exposta anteriormente, e que também pertenceu à coleção de Pedro Cabrita Reis antes de ser integrada na coleção da Fundação EDP. Trata-se de Marmitex, Guggenheim Ibérico (escultura acidentada #1), de Rodrigo Oliveira. “Acaba por ser uma peça inédita, estou a revisitá-la em 2026, a primeira versão desta peça foi feita em 2006, quando estava a fazer o meu mestrado em Londres, foi destruída, porque era complicada de se transportar, e era uma peça muito frágil. Mas depois foi adquirida em 2009 pelo Cabrita Reis, e tive de a reconstruir e finalmente é mostrada pela primeira vez”. A escultura partiu dos desenhos preparatórios do arquiteto Frank Gehry para o Guggenheim de Bilbau e é feita com marmitas de alumínio, folha de alumínio e madeira. “Interessava-me muito trabalhar um pouco aquela ideia de exotismo através do próprio material. A ideia era também que as pessoas se identificassem com a peça porque era um objeto muito quotidiano”, diz o artista. . A seleção de obras desta exposição não seguiu uma cronologia ou tema, embora se possa apontar um “confronto de gerações”. “Escolhemos pela capacidade que tinham de intervir neste espaço”, diz João Pinharanda. A coleção acaba por refletir também a programação do museu ao longo dos anos e a aquisição de obras que dela resultou, assim como os prémios promovidos pela Fundação EDP. . Nesta exposição, além dos artistas já mencionados, estão representados Adriana Progonó (Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2022), Ana Jotta (Grande Prémio Fundação EDP Arte 2013), Bruno Cidra, João Paulo Feliciano, João Pedro Croft, Maria Beatriz, Sérgio Pombo, Tiago Batista e Luísa Cunha (Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021). A peça desta última artista (Turn Around, 2007) é a primeira a aparecer no espaço expositivo do MAAT Central (uma coluna suspensa) e acompanhará o visitante ao longo de todo o percurso, pois é um texto sonoro em inglês que se ouve em loop de 24 segundos – vira-te, olha para ti mesmo, roda, olha em teu redor.