Com uma mãe cantora de ópera, sempre soube que a música clássica era a sua vocação? Não sei se sempre soube, mas cresci imersa neste mundo. A minha mãe praticava muito em casa, por isso acho que descobri este mundo sonoro ainda no útero. Depois, debaixo do piano, na cadeira de bebé. Em vez de me ler uma história para adormecer, a minha mãe falava-me de óperas para que eu pudesse ir assistir. Como não conseguia ler as legendas, era uma oportunidade para me preparar. Depois chegava o grande acontecimento de ir à ópera, e eu ficava completamente absorvida na história. Houve duas ou três vezes em que tiveram de sair a meio porque eu comecei a chorar, porque achava que a personagem estava mesmo morta. Sempre estive neste ambiente de música clássica e, naturalmente, a minha mãe sugeriu que eu começasse a estudar música. Tive iniciação musical, depois piano, e aos seis anos, sugeriu-me que escolhesse o meu instrumento. Fui eu que escolhi o violoncelo, mas tive a sorte de poder contar com uma mãe que me acompanhou nos primeiros anos. Isso ajudou a obter resultados relativamente rápidos. Depois de a minha família se ter mudado para Paris, quando eu tinha dez anos, foi aí o ponto de viragem, quando comecei a compreender que era possível tornar-me violoncelista profissional. Estava num lugar com pessoas que aspiravam a isso, era um ambiente muito favorável. As coisas aconteceram naturalmente.O que a atraiu no violoncelo?O meu pai levou-me a uma apresentação de instrumentos. Consegui ver um pouco de tudo, e decidi que seria o violoncelo. Foi uma decisão categórica, mas não havia nenhuma escola perto de casa nesse ano, por isso tentaram de tudo para me fazer escolher outra coisa, mas eu estava determinada. E eles garantiram que isso pudesse acontecer. Como disse, foi viver com os seus pais para Paris, mas a certa altura eles tiveram de regressar à Suíça e a Estelle ficou. Tinha 15 anos. Como foi essa decisão? Houve uma primeira tentativa quando eu tinha 14 anos, mas disse que não. Tínhamos ido a Paris por causa do trabalho do meu pai, que era investigador em literatura e tinha uma bolsa, mas quando esta terminou, a família teve de voltar à Suíça. A primeira vez que a questão surgiu, eu tinha 14 anos e disse: “vou com a família”. Não me sentia preparada para ficar. Também não era o momento certo para o meu irmão, que precisava de terminar o ensino básico para, na Suíça, entrar diretamente no secundário. Então o meu pai voltou e nós e a minha mãe ficámos mais um ano. Depois, ficou claro que a família ia regressar, e eu estava um pouco mais velha, por isso disse que ficaria. Foi a minha decisão.Ficou mesmo sozinha em Paris? Sozinha numa chambre de bonne. Não foi fácil. De um dia para o outro, passa-se de criança a adulto, tendo de assumir responsabilidades, pagar contas, gerir a vida, fazer compras, etc. Eu também tinha decidido ter aulas em casa, por isso fazia absolutamente tudo sozinha, no meu pequeno quarto, e era uma enorme responsabilidade, especialmente num ambiente que nem sempre era muito saudável. Isso deixou marcas, mas foi também uma escola da vida, aprendi muito. Já falou noutras entrevistas sobre as condições, por vezes difíceis, da profissão, especialmente para as mulheres. Mesmo hoje, no século XXI, ainda é um ambiente muito masculino?Sim. Obviamente, as coisas evoluíram, mas ainda existem códigos profundamente enraizados. Percebi, especialmente desde que me envolvi na política, que a forma como as coisas funcionam no setor cultural ainda é muito diferente de como funcionam noutros setores. Muitas coisas noutro setor não seriam toleradas, enquanto na cultura ainda são consideradas bastante normais. Estamos a falar de pessoas muitas vezes muito jovens, muito sozinhas e muito responsáveis, em que os pais não vivem necessariamente perto. Estudei em Paris, no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança, e na minha turma havia talvez dois parisienses, os outros eram da província ou do estrangeiro. É um momento em que é preciso ser forte. As coisas estão a mudar, lenta mas seguramente, mas acho que precisamos de continuar a lutar para redefinir limites mais saudáveis, especialmente para os jovens que precisam desses limites para se desenvolverem. São ambientes extremamente competitivos, com muita pressão, situações muitas vezes um pouco desestabilizadoras, e é importante ser resiliente. .Quando pensamos em música clássica, pensamos logo na Áustria, em Viena como a capital da música clássica, e menos na Suíça. É injusto?É verdade que talvez não pensemos imediatamente na Suíça, mas existem muitos conservatórios, salas de concerto belíssimas, festivais incríveis como Verbier, Gstaad, o KKL, etc. No meu caso, tendo partido para Paris muito jovem, acabei por me integrar no sistema francês e, mais tarde, prossegui os estudos na Alemanha. Isto demonstra também a importância, para a Suíça, de manter boas relações com os vizinhos, porque estamos inseridos em ambientes muito específicos e extremamente competitivos, onde não operamos à escala de uma região, nem de um país, nem mesmo de um continente. A pequena Suíça, por si só, não tem recursos para criar centros de excelência em todas as áreas. Dedicou um disco a obras de compositores suíços, é uma espécie de homenagem? Dediquei dois, um deles especificamente aos compositores genebrinos. Acho que faz parte do nosso papel enquanto artistas no século XXI manter o património vivo, mas também criar o repertório do futuro. Para isso, temos de defender as obras que foram criadas, temos de as apresentar ao público para que tenham hipótese de perdurar no tempo. E quem o faria pelas obras suíças senão os artistas suíços? Dou o exemplo de Franck Martin, que foi um grande compositor genebrino. Franck Martin foi uma estrela em vida, o que é muito raro para compositores clássicos, que caiu no esquecimento porque ninguém se deu ao trabalho de editar as suas partituras. Então temos de tocar em cópias de manuscritos muito difíceis de ler, o que acarreta limitações hoje também financeiras. Quando não se consegue ler bem uma partitura, o tempo de ensaio triplica, as orquestras não o querem fazer e o repertório não circula. No caso de Franck Martin, houve falta de vontade na Suíça em manter e promover este património. Eu tento encontrar um equilíbrio entre defender o repertório do passado, dar oportunidade ao de amanhã e cumprir o meu papel como artista suíça, que é defender a cultura suíça.Tocou em muitos países, que público mais a a surpreendeu?Existem países onde os costumes são muito diferentes. Há uns meses, fiz uma grande digressão pela China e, mesmo já tendo lá ido várias vezes, ainda me surpreendo, porque é muito diferente dos hábitos europeus. As pessoas comem durante os concertos, falam ao telefone, etc, o que não é de todo desrespeitoso para elas. Mas, como artista, é difícil de assimilar e surpreende-me sempre. Por outro lado, há públicos que podem ser extremamente recetivos, penso na América do Sul, por exemplo. E temos o público europeu, onde existe uma cultura de música clássica que permite uma intensidade e qualidade de audição muito apreciável. Na Alemanha, por exemplo, todas as crianças tocam um instrumento ou praticam desporto, porque as aulas terminam ao início da tarde, deixando as tardes livres para se dedicarem ao desenvolvimento pessoal. E é possível sentir isso depois no público adulto. .A sua vida divide-se entre a música e a política. Como é que a covid-19 influenciou a sua decisão de se candidatar ao Conselho Federal?Eu não era nada interessada em política antes da covid. Votei na primeira vez que pude votar mas depois os envelopes foram-se acumulando. Mas, como toda a gente, fui atingida pela pandemia. Estava a meio de uma digressão e, de repente, veio o confinamento. Ali estava eu, a regressar a casa aos ziguezagues enquanto as fronteiras iam fechando. No início, pensei que podia durar 15 dias, um mês. Mas não. Portanto, lutei muito para que as pessoas na Suíça compreendessem que existia um setor cultural e que era necessário um plano de reabertura. Não era justo que, na Alemanha, todos já estivessem de volta aos palcos há dois meses com planos adequados em vigor, mas na Suíça, nem sequer o tinham considerado. Foi o meu primeiro envolvimento cívico, que diria ser quase um compromisso sindical, uma vez que estava a tentar unir o sector cultural para que pudéssemos pressionar coletivamente por estes planos de segurança. Em setembro, surgiu a famosa lei da covid. E simplesmente esqueceram-se dos agentes culturais, sobretudo dos independentes. Tinha reportado o sucedido e pensei: temos de pressionar o máximo possível até ao próximo confinamento. E chegou o segundo confinamento. Voltei a contactar o Gabinete Federal de Cultura, mas percebi que não estava a acontecer nada. Então pensei: vou organizar alguns concertos. Era possível tocar em igrejas, uma vez que estavam abertas e permitiam reuniões até 10 pessoas. Então pensei: 9 espectadores, 1 músico. Organizei 40 concertos em menos de três semanas mas no dia do concerto de abertura, o governo decidiu proibir todos os eventos culturais. Assim, na mesma igreja, era possível realizar uma missa para 50 pessoas, mas não um concerto para 10. Foi uma injustiça que me afetou profundamente. Aí comecei a envolver-me verdadeiramente, como cidadã, o que passava por escrever um manifesto e recolher assinaturas. Finalmente, consegui que dois ex-conselheiros federais assinassem, uma da esquerda e um da direita. Para meu azar, enviámos o manifesto na véspera de Natal e, em 246 parlamentares, apenas um respondeu. Agora que estou no Parlamento, compreendo, é normal, mas na altura fiquei desiludida. Foi aí que contactei um antigo membro do Parlamento para lhe perguntar: “Como funciona?”. Existe um Parlamento, e neste há duas câmaras, depois há comissões gémeas, e é preciso apresentar o caso às comissões certas. É preciso um membro de cada partido, juntá-los à mesa e encontrar o mínimo denominador comum. Eu disse: “não há problema. Vou procurar online quem está nessas comissões”. E comecei a ligar. O mais difícil foi encontrar os números. Mas à medida que as pessoas viam que eu tinha algo para dizer, iam-me dando o número de um colega. E assim me vi no centro de uma coligação suprapartidária que abrangia da esquerda à extrema-direita, trabalhando para mudar aquela infame lei da Covid e garantir que todos recebiam indemnizações, o que acabou por funcionar em menos de três meses. Sempre pensei: não tenho nada a ver com política, mudei esta lei, é ótimo, mas dois dias depois estava a gravar um álbum. Foi então que três partidos vieram ter comigo a dizer que eu devia continuar, o socialista, do centro e o liberal. A princípio, disse que nunca na vida, mas depois percebi que os problemas que tínhamos enfrentado não estavam realmente relacionados com a covid. A covid revelou inseguranças e lacunas preexistentes na rede de proteção social que existiam há muitos anos, e estava na altura de mudar isso. Compreendi que liderar uma coligação a partir do exterior era possível durante a covid, porque era uma situação extraordinária, mas é preciso estar por dentro. Então pensei: “Talvez deva aproveitar esta oportunidade. Tenho de escolher um partido.” Os meus critérios foram simples: analisei os votos sobre a cultura e os referentes aos direitos das mulheres e foi fácil escolher (os socialistas). Mas ainda tinha de ser eleita. Arrisquei e fui eleita, para surpresa de todos.A defesa dos profissionais da cultura é uma das suas prioridades enquanto deputada. Ainda há trabalho a fazer nesta área?Há muito a fazer em diversos assuntos. Neste em particular, é preciso considerar que, na história do Parlamento Suíço, sou a primeira artista profissional. Isto explica porque é que a Suíça está tão atrasada no apoio à cultura, quer em termos de financiamento, quer na proteção social dos trabalhadores culturais. É um setor muito específico, com uma forma de funcionamento singular devido à enorme quantidade de postos de trabalho e às relações hierárquicas difíceis de definir. Num sistema dual, como o da Suíça, com uma estrutura rígida - ou se é trabalhador por conta de outrem ou trabalhador independente -, muitas pessoas acabam por não se enquadrar em nenhuma categoria. Isto leva a lacunas significativas na proteção social, seja na reforma, no seguro contra acidentes, na indemnização por perda de rendimentos ou na cobertura para as mulheres, na gravidez, etc. Enquanto isso, todos os outros países europeus já adotaram medidas específicas para refletir a realidade dos agentes culturais. Um país vai subsidiar o seguro de saúde, outro assume por defeito que todos são empregados por conta de outrem. Existem muitas soluções. E é nisso que precisamos de trabalhar agora. Vive em Genebra, mas tem concertos por todo o mundo, além da atividade parlamentar, ainda sobra algum tempo para si, para a família, para tempos livres?Esse é um dos grandes desafios. Sou violoncelista, sou artista, essa é a minha identidade principal. Estou envolvida na política porque estou convencida de que há algo a fazer, e também por responsabilidade para com o setor. Ambas as carreiras são muito exigentes. A minha carreira de concertista envolve cerca de 80 concertos por ano em três continentes, combinada com uma carreira parlamentar a que alguns dos meus colegas se dedicam em exclusivo. Não é um problema quando se é bem organizado, capaz de trabalhar de forma eficiente, otimizar o seu tempo. Mesmo assim, facilmente acabamos com jornadas de 15 horas, 7 dias por semana, e aí não há tempo para o lazer, para a família, para a vida privada. Vejo-o como um período. Também estou a aprender a reservar para mim períodos de tempo muito curtos. Pequenas pausas. Por vezes, isto basta para recarregar baterias. No fundo, idealizei o conceito de férias de cinco minutos.