"Edgar Morin, sociólogo do tempo presente e agitador de ideias" é o título do Le Monde na notícia da morte de Edgar Morin. O grande filósofo francês tinha 104 anos. A morte foi confirmada ao jornal francês pela mulher, a socióloga franco-marroquina Sabah Abouessallam.Nascido em 1921 em Paris, Edgar Nahoum, com origens judaicas sefarditas, adotou o nome de Edgar Morin quando se juntou à Resistência no tempo da ocupação alemã da França durante a Segunda Guerra Mundial. Como pensador, deixa vasta obra, desde O Método até Lições de um Século de Vida, passando por Os Sete saberes necessários à educação do futuro, e por Vidal e os Seus, uma biografia do seu pai, judeu de Salónica, que ajuda a entender o compromisso de Morin com a liberdade. Também publicou já com 104 anos Lições da História, editado em português, tal como o essencial da sua obra..O filósofo tinha uma forte ligação a Portugal, alertava em entrevista recente ao DN Guilherme d'Oliveira Martins, que editou O esplendor das amizades - a experiência portuguesa de Edgar Morin. O livro homenageia a amizade do pensador francês com António Alçada Baptista, que foi diretor da revista O Tempo e o Modo, um exemplo de rebeldia intelectual no tempo do Estado Novo. A última visita de Morin a Portugal foi em 2023, para a conferência "O Atlântico - A Nova Carta do Humanismo".Entrevistado pelo DN nessa passagem por Lisboa, Morin falou do futuro, dizendo que "antes de pensarmos em ir aos planetas, temos de melhorar o destino da Humanidade aqui na Terra". Também relembrou o amigo Mário Soares, tal como Alçada Baptista."Oh, tive aqui tantos amigos! Venho a Portugal desde 1960, participei na revista O Tempo e o Modo, que tinha problemas com a censura, tive caros amigos, que infelizmente já morreram. António Alçada Baptista, Helena Vaz da Silva, Mário Soares, que conheci quando ele estava no exílio em França. E depois, quando houve a revolução dos Cravos e ele teve dificuldades porque houve uma tentativa comunista de se apoderar do poder, eu fiz um grande artigo para defender Mário Soares em França. Porque muitos em França diziam que os portugueses não precisavam de liberdade, precisavam de pão. E eu disse que se tem de ter pão e tem de se ter liberdade", disse Morin. Antigo militante comunista, ideologia com a qual se desiludiu, não hesitou aquando da Revolução Portuguesa em estar ao lado do socialista Soares na defesa da edificação da democracia. Oliveira Martins, na entrevista já deste ano sobre Alçada Baptista e o filósofo francês, destacou, sobre o pensamento deste, que "Morin tem uma densidade extraordinária, porque, para ele, o importante é a questão da liberdade e a questão da complexidade, a perceção de que não há determinismo. Deixou de ser comunista porque considerou que era incompatível uma lógica autoritária, centralista, coletivista. E, por isso, vai buscar a ideia da liberdade, mas compatibiliza, através da complexidade, com a diversidade de influências e de relações.".Lições da História, publicado em 2025, fica como mais um testemunho do pensamento de Morin. O livro está organizado em pequenos capítulos, cada um dedicado a uma lição. Deixo aqui o exemplo da primeira das lições: “O resultado de uma ação pode ser contrário à sua intenção inicial”. Conta Morin que a aprendeu com Georges Lefebvre, professor de História da Revolução Francesa na Sorbonne, no seu primeiro ano na universidade, em 1940: “Para recuperar o poder perdido durante o reinado de Luís XIV, altura em que fora vassalizada, a aristocracia desencadeou o processo que levou à convocação dos Estados Gerais por parte de Luís XVI, sob a pressão de grandes dificuldades económicas. Até então, esta assembleia dos três estados sempre fora favorável à união da nobreza e do clero, em detrimento do Terceiro Estado. Ora, logo no início dos Estados Gerais, em maio de 1789, os deputados do Terceiro Estado conseguiram que os votos fossem contabilizados por cabeça e não por estado. Sendo os seus eleitores mais numerosos, no dia 17 de junho de 1789, o Terceiro Estado declarou-se Assembleia Nacional, e a Revolução pôde começar. A aristocracia perdeu, assim, o poder que esperava recuperar, e Luís XVI, por sua vez, ao querer uma reforma financeira, perdeu tudo”Da última visita de Morin a Portugal recupero aqui um testemunho mais intimista de Manuel José Guerreiro, colunista do DN, que, enquanto presidente da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, esteve envolvido na organização da conferência "O Atlântico - A Nova Carta do Humanismo", no auditório do Museu do Oriente: “Tenho a sorte de ser amigo de um homem que já não é um homem: Edgar Morin é, isso sim, uma parte da civilização que agora parece estar em causa. Na nossa última conversa, em que o fiz provar queijo de Serpa e o Vinho da Madeira, recordo a forma como, esperançoso e otimista, falou do ser humano. E enfatizou-me se soubermos compreender antes de condenar, estaremos no caminho da humanização das relações sociais. Morin nunca desistiu de nós, nunca nos retirou do centro de uma obra que continua na vanguarda do pensamento ocidental”. Isabelle de Oliveira, presidente do Institut du Monde Lusophone, grande amiga do filósofo francês, disse ao DN: “Edgar Morin significa o choque da complexidade contra um mundo de respostas fáceis. Para além do pensador planetario, Edgar Morin foi também uma presença humana rara: mais do que um amigo, foi família, um guia intelectual e uma cumplicidade profunda construída ao longo dos anos. Partilhámos a defesa da latinidade e da importância da lusofonia como espaço vivo de cultura, pensamento e futuro comum. Foi comigo várias vezes a Portugal e, numa dessas ocasiões, esteve presente no lançamento do meu livro Devir da Lusofonia, que teve a honra de ser prefaciado por ele. O seu pensamento recorda-nos que os grandes desafios da humanidade não podem ser resolvidos por visões simplistas. Precisamos de aprender a ligar conhecimentos, culturas e experiências. Precisamos de reconhecer que tudo está interligado. Mas talvez a maior lição de Edgar Morin seja a sua profunda confiança na condição humana. Mesmo diante da incerteza, ele convida-nos a continuar a procurar sentido, solidariedade e fraternidade. A sua voz serena lembra-nos que a verdadeira sabedoria não está em possuir todas as respostas, mas em cultivar perguntas mais profundas.”."Antes de irmos a outros planetas, temos de melhorar o destino da Humanidade aqui na Terra" .Guilherme d’Oliveira Martins: “Foi António Alçada Baptista que apresentou Mário Soares a Edgar Morin” .Sabedoria centenária