A relação de António Alçada Baptista com Edgar Morin, começa graças a Morin ser um nome recomendado pela equipa da revista Esprit para uma conferência em Lisboa. Mas o facto de ele ter sido recomendado não significa que fossem construir uma amizade que durará décadas. O que é que faz estas duas figuras se aproximarem?Bom, em primeiro lugar, o facto de Edgar Morin, que é um homem muito afetivo, ter gostado muito da relação que teve com o grupo de portugueses, antes de mais com António Alçada. E esse facto é tão determinante que quando Edgar Morin faz 104 anos, ele diz que não pode morrer sem fazer esta homenagem a Portugal, aos seus amigos, a Helena Vaz da Silva. E, portanto, há ali uma relação extraordinária, pessoal, que demonstra bem que, no fundo, é a causa da liberdade que aqui se afirma fundamentalmente. É uma relação permanente até ao fim da vida. E foi António Alçada Baptista que apresentou Mário Soares a Edgar Morin. Estabelece-se logo uma empatia extraordinária.Além desta relação de amizade que António Alçada Baptista faz com Morin, e que o aproxima de Portugal, tem, como diz, esse papel histórico de apresentar Mário Soares ao grande pensador francês. Temos aqui aqueles pormenores da história que depois ganham importância. Esta relação entre Soares e Morin tem uma densidade especial?Tem uma densidade extraordinária, e volto ao testemunho de Edgar, quando ele diz que quer homenagear António Alçada, porque foi ele que o aproximou de Portugal e que o levou a ter esta relação muito especial, porque Morin diz que Portugal foi um laboratório. E, por isso, eu recordo aqui aquela ideia de Samuel Huntington, de que Portugal em 1974 é o início da terceira vaga das democracias. E Morin teve esta intuição. Edgar Morin, em densidade de pensamento, não se compara com Huntington. Morin tem uma densidade extraordinária, porque, para ele, o importante é a questão da liberdade e a questão da complexidade, a perceção de que não há determinismo. Deixou de ser comunista porque considerou que era incompatível uma lógica autoritária, centralista, coletivista. E, por isso, vai buscar a ideia da liberdade, mas compatibiliza, através da complexidade, com a diversidade de influências e de relações. Daí que a revista O Tempo e o Modo teve um papel muito importante. E muito importante porque o próprio Mário Soares aproxima-se de O Tempo e o Modo no pressuposto de que, para construir a democracia, também é preciso considerar os cristãos. Esta relação é fundamental.Diz cristãos, mas muitas vezes falamos em católicos progressistas. No fundo, são católicos que não estão confortáveis com a ditadura salazarista e querem uma mudança. A revista é importante aqui em que medida?A revista é muito importante na medida em que abre um horizonte, deixa de ser uma revista da oposição na tradição neorrealista. Isto para simplificar, porque o facto é que temos personalidades muito diferentes que participam no projeto. E, de facto, a revista O Tempo e o Modo significa uma abertura relativamente a uma perspetiva política de liberdade e democracia pluralista.Submetida à censura, como qualquer publicação…Está submetida à censura, com certeza. Devo dizer que foi O Tempo e o Modo, quando era chefe de redação Vasco Pulido Valente, que começou a publicar os discursos do presidente da República, do presidente Américo Tomás, que passaram a ser censurados. Porque, no fundo, os discursos eram motivo de riso. E, portanto, eles eram publicados para que as pessoas lessem e tirassem as suas conclusões. Mesmo censurados.Era uma forma de ser subversivo, cumprindo a lei...Cumprindo, exatamente. Era subversivo, mostrando o que é que se dizia. Portanto, é uma revista diversa, mas há, de facto, esse núcleo de católicos. Mas seguindo a tradição da revista Esprit. Emmanuel Mounier, em 1932, quando cria a Esprit, parte de um pressuposto. Não é uma revista confessional. É uma revista que tem católicos e não católicos. A revista O Tempo e o Modo tem a mesma matriz. E, por isso, vão buscar jovens estudantes, como Jorge Sampaio. É muito interessante vermos a capa da primeira revista. Tem António Alçada, que era o diretor, tem Mário Soares e tem Jorge Sampaio, jovem dirigente académico. . Como é possível o Estado Novo, mesmo confiando na censura prévia, aceitar uma revista destas? Faz parte das válvulas de escape que o regime permitia?Eram as válvulas de escape que funcionavam, mas a censura à O Tempo e o Modo levou à falência de António Alçada, porque, de facto, foram seis mil páginas censuradas. As pessoas não fazem ideia o que são seis mil páginas censuradas. São seis mil páginas pagas e não publicadas. Ora, uma revista tem que sair. Uma revista tem que ter um número de páginas suficiente. A vida da revista é a década de 1960?A primeira série vai de 1963 a 1969. E é com essa revista que Edgar Morin se relaciona. A aventura está bastante documentada no livro. Procurei que, sobretudo os mais jovens, percebessem o que é que acontecia no ano de 1963, 11 anos antes do 25 de Abril. Mas a verdade é que deu-se a falência de António Alçada, que tinha uma pequena fortuna, feita, através da sua família, na Beira, na Covilhã. E, portanto, esse aspeto é um aspeto importante. E Edgar salienta muito isto. É um grupo que se sacrificou completamente pelos seus ideais. Sacrificou-se completamente pelos seus ideais através de fazer uma livraria, fazer uma revista. E é isso que animou Edgar a pedir que este livro pudesse ser feito. Edgar é que quis que este livro fosse feito. Para que não se perdesse esta ideia. A experiência era conhecida.Mas quis deixar um testemunho…Da sua ligação. É uma ligação forte. É uma ligação que corresponde justamente a que a liberdade conquista-se por pequenos passos. E há duas coisas que Edgar salienta. Uma é que os militares milicianos estavam entre os assinantes da revista O Tempo e o Modo. Ou seja, a revista e as ideias tratavam de tudo. Da literatura. E, portanto, os jovens capitães, de algum modo, foram influenciados. Melo Antunes era um leitor de O Tempo e o Modo. A outra é que a liberdade antes de 1974 foi preparada e António Alçada fez parte desse combate, com sacrifício pessoal…Há um pormenor, para o qual é chamada a atenção no livro, que tem a ver exatamente com a defesa da liberdade por Morin. Que acontece já depois do 25 de Abril de 1974, quando há um grande debate em França sobre a Revolução portuguesa. Sobre a luta que havia aqui entre comunistas e socialistas. E Edgar Morin faz uma grande defesa de Soares e do Partido Socialista, defendendo que a liberdade é um valor decisivo. Não são só as condições materiais a ter em conta...É isso mesmo. É essa questão que a democracia e a liberdade são valores éticos. E esse é um aspeto que une Edgar Morin e António Alçada, porque o que é facto é que António Alçada é um grande escritor. É um escritor que nos deixou com obra. Peregrinação interior é uma das grandes referências da literatura. E, justamente, esse tema é absolutamente fundamental. É que é indispensável garantir condições sociais. A política social é fundamental. Daí a questão da própria complexidade. Mas, se não houver a própria democracia como valor, a democracia não é um processo apenas. A democracia não é apenas um método. A democracia é um valor. A liberdade é um valor. Os direitos fundamentais são valores.Nesse grupo ligado a O Tempo e o Modo, há mais nomes incontornáveis, como Helena Vaz da Silva, já referida. Que outros nomes é que incluiria neste círculo, que também são figuras próximas de Morin?João Bénard da Costa, antes de mais. Depois, Pedro Tamen. Nuno Bragança, que é um escritor muitas vezes esquecido, mas que é, de facto, uma referência. Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares. São duas referências fundamentais. E Nuno Teotónio Pereira. E porque é que falo de Nuno Teotónio Pereira? Porque a questão da relação com os antigos povos colonizados, a liberdade, a autodeterminação, são temas que são aqui introduzidos. Mário Soares vai, de algum modo, dar um salto qualitativo relativamente àquilo que era a posição mais tradicional da oposição republicana. E vai dar à oposição republicana um novo ânimo. Vai encontrar, já não aquela perspetiva anticlerical, mas vai dizer que é preciso contarmos com todos, designadamente com os próprios católicos, graças ao Concílio Vaticano II. E graças à grande renovação do Concílio, processo que não acaba mais, porque o Papa Francisco voltou a pôr a questão do Concílio na ordem do dia.Edgar Morin quis fazer este agradecimento a Portugal. E da parte de Guilherme d’Oliveira Martins, o que o motivou a avançar com a organização do livro?A grande amizade que tenho pelo Edgar Morin, a grande admiração. E simultaneamente, António Alçada foi também um dos meus grandes amigos. E, portanto, quando Manuel Fonseca propôs esta capa, eu aplaudi com ambas as mãos. Manuel Fonseca, da editora Guerra & Paz que agora associou-se à Gradiva, portanto, quis pôr na capa estas duas referências. Como já referiu, há muitas mais pessoas que estão cá referidas, e essa lista está cá. E os vários momentos. Para dizer que houve um processo de transição em Portugal, de preparação da própria democracia. E nós encontramos a democracia civil, os tais intelectuais, o Eduardo Lourenço, por exemplo, Sophia de Mello Breyner, naturalmente. Não podemos esquecer que o primeiro cartaz artístico feito a seguir ao 25 de Abril é da Maria Helena Vieira da Silva, com a célebre frase de Sophia, “a poesia está na rua”. Isto é muito importante. E o primeiro civil a falar no Largo do Carmo foi Francisco Sousa Tavares. Portanto, tudo figuras ligadas à O Tempo e o Modo...Tudo figuras de O Tempo e o Modo. E incluindo Ernesto Melo Antunes, leitor de O Tempo e o Modo, que representa esses assinantes que eram os jovens oficiais milicianos. Portanto, repare que o processo de transição vai até ao próprio Movimento das Forças Armadas, da sua origem, mas é um caminho. E por isso, na preparação da democracia, António Alçada dizia-me o seguinte, porque, como sabe, ele, em determinado momento, quando faz aquela entrevista a Marcelo Caetano, chega à conclusão que Caetano não vai determinar qualquer evolução positiva, mas ele é fiel aos seus amigos. E, portanto, ele tinha aquele projeto. E acabou o projeto. Ele depois costumava contar que havia dois tipos de pessoas, quando ele pareceu estar mais à direita. As pessoas que mudavam de passeio quando ele vinha e as pessoas que vinham ao encontro dele, como José Gomes Ferreira. José Gomes Ferreira era daqueles que, para o António Alçada, tinha uma coluna vertebral tão direita que atravessava a rua para lhe falar quando outros deixaram de o fazer. António Alçada dava um exemplo que era quando as pessoas estão num barco. Uns vão para estibordo, outros vão para bombordo. António Alçada dizia que a sociedade, para funcionar, precisa de ter pessoas em estibordo e em bombordo. .Sabedoria centenária."Antes de irmos a outros planetas, temos de melhorar o destino da Humanidade aqui na Terra"