O novo livro de Lídia Jorge ainda não é o tão esperado romance [jura que o está a escrever], mas a reunião de trinta das crónicas que tem publicado no principal jornal espanhol, o El País, e através das quais o leitor pode entrever um retrato de um tempo e o modo como a humanidade se tem comportado nos últimos quatro anos. O primeiro texto dá título à recolha: O Céu Cairá Sobre Nós (22/08/2021), e não é por acaso que é escolhido para inaugurar a leitura, antes por anteceder às guerras sucessivas deste terceiro milénio, as que vão sendo registadas nas restantes vinte e nove crónicas. Além deste relato próprio de uma montanha-russa a que os “donos” do planeta sujeitam os seus habitantes - de referir que os últimos acontecimentos já não poupam um único canto nem uma só pessoa -, é reproduzido o discurso que a escritora proferiu por ocasião das cerimónias do dia 10 de Junho do ano passado e no qual deu nome a responsáveis por desmandos nacionais e sugeriu novos caminhos sob o “guarda-chuva” de Camões, Cervantes e Shakespeare.O Céu Cairá sobre Nós recolhe três dezenas entre o total de crónicas dos últimos quatro anos numa seleção ao gosto de Lídia Jorge. Sobre o critério da recolha diz: “Não são todas e quis incluir quatro das escritas nos primeiros anos porque referia o tempo da pandemia e o início da invasão da Ucrânia, enquanto as restantes vinte e seis cobrem os temas que me interessaram nos últimos dois anos.” Pergunta-se se a soma destes textos reflete uma cronista alerta e focada nos temas da atualidade ou alguém que também se refugia em alguma ingenuidade? A autora responde: “Acho que navegam entre as duas situações. A cronista é escritora e utiliza sempre aquilo que é a sua perspetiva, no entanto, a visão do escritor tem sempre uma parte de inocência, mesmo quando é irónico ou quando tem de se confrontar com a realidade. No início, o escritor observará de forma desarmada para encontrar um ângulo que revele uma coisa diferente do que é o comum, no entanto, não demorará a armar-se.”Não é por acaso que Lídia Jorge faz questão de registar esta capacidade naqueles que escrevem, afinal logo na primeira crónica refere que “a literatura não é um poder totalmente desarmado” e lá mais para a frente irá retomar essa função da Literatura ao valorizar o “poder dissuasor das palavras” e reclamar contra a inexistência de “uma palavra que interrompa a trajetória dos mísseis”. Explica: “Esse é um desejo meu, porque a realidade - que estamos a viver em direto - jamais permitirá uma palavra assim. Contudo, sabemos que fora do campo da batalha existe a possibilidade de através da palavra evitar-se a tragédia, e se ela acontecer, a palavra também pode curar. Neste momento é bom resistir pelas palavras e dizer em voz alta aquilo que sentimos e escrevemos em todos os registos: da crónica, da ficção, da poesia, do sermão, da palestra ou do discurso. É fundamental neste momento falar o que sentimos em voz alta e contrariar a força das armas.”Questiona-se a cronista sobre o quanto difere a composição das crónicas de um para o outro dos quatro cronistas que alternam aos domingos nesta coluna no El País. Lídia Jorge faz a radiografia do quarteto: “Acho que confluímos, mesmo que com géneros completamente diferentes: o Leonardo Padura está envolvido na tragédia que acontece em Cuba; o Juan Gabriel Vásquez com a perspetiva que tem a partir da América Latina em relação àquilo que acontece no continente americano; a Irene Vallejo mostra como o presente é um espelho do passado através da sua cultura clássica. Em resumo, cada um utiliza a sua forma para dar ao leitor a noção do poder mágico que a palavra tem.”Após ter referido o poder da palavra, contrapõe-se à escritora o poder da imagem e dá-se como exemplo a recente fotografia de um soldado israelita a destruir um crucifixo com Jesus Cristo. Existem ou faltam palavras para explicar estas situações? Responde: “A imagem tem um poder forte, muitas vezes explosivo, mas só por si não explica a razão por que aquele rapaz fez aquilo. O que lhe aconteceu, em que estado estava, porque odeia o Cristo, foi mesmo por odiar o Cristo ou porque encontrou uma coisa que lhe pareceu bela e que deveria despedaçar? Só ele poderá revelar as razões, e é isso que a literatura faz ao não se apressar e tentar analisar e procurar razões e causas. É preciso ter em conta que estamos a viver um momento de alucinação global; tanto de uma alucinação positiva, que consiste em colocar uma imagem onde ela não existe; tanto de uma alucinação negativa, que é apagar a imagem onde ela está. O que acontece é que estamos diante de uma alucinação global que é positiva e negativa em simultâneo e perde-se a possibilidade de saber onde está a verdade e onde está a mentira. Esta alucinação global é parente da violência global que nos conduz a tragédias tão pessoais, como nacionais ou globais. A certa altura, porque temos o instinto de sobrevivência, haverá o fim de um ciclo e a falência dos fatores desta disrupção. Também sei que o mundo não ficará jamais o mesmo, no entanto, também nunca achámos que o mundo estava ideal. O que era a nossa preocupação antes, como cumprir os direitos humanos, é um assunto de que nem se fala hoje. Rasgaram-se os direitos e recuperá-los vai demorar muito tempo.”Qual será então o papel do escritor? Lídia Jorge esclarece: “O escritor não precisa de ter um papel consciente e direcionado para salvar o mundo. O que acontece é que ao descrevê-lo, ao relatar a desordem, acaba por chamar a ordem. Tenho-me perguntado porque é que eu escolhi o título O Céu Cairá Sobre Nós, e concluo que obedece a esse princípio de que se eu o disser é como estar a chamar o remédio para que não aconteça. É isso que a arte faz: descreve-se o mal, reivindicando aquilo que poderia curar a ferida.”Sendo tantas a crónicas já publicadas, pergunta-se à escritora se nunca lhe faltam temas. A resposta é clara: “Não, pelo contrário, encavalitam-se uns nos outros porque durante um mês multiplicam-se os factos, os pensamentos, as ideias e as circunstâncias. Começo por pensar que vou escrever sobre isto ou sobre aquilo, no entanto a realidade e a atualidade são tão fortes e vibrantes que se sobrepõem ao que pode ser uma crónica pensada com antecedência.” Neste âmbito há uma outra curiosidade: os leitores espanhóis querem ler o mesmo que os portugueses nas crónicas? Lídia Jorge considera difícil dar uma opinião: “Não sei avaliar isso, o que posso referir é que eles dizem que as minhas crónicas são diferentes porque se aproximam sempre de um conto, de alguma coisa que tem a marca da ficção, e são muito distintas das crónicas mais clássicas, sobretudo das jornalísticas.”Numa das crónicas, Lídia Jorge compara as Feiras do Livro de Lisboa e de Madrid e diz que as pessoas se sentem bem entre livros e autores. Questiona-se sobre o que pensa das notícias sobre a suspensão do romance Memorial do Convento de José Saramago como leitura obrigatória? A escritora recusa o negativismo: “Haverá contestação e perceber-se-á que existe uma perda. Tenho esperança de que se conclua que não é possível os alunos saírem da escolarização sem terem lido uma obra do Saramago. Daí que tenha existido um tal repúdio quando se soube dessa hipótese, que é apenas a forma de tomarmos consciência de que é necessário ler. Aliás, há dez anos o que se discutia era sobre a necessidade de ler alguma coisa, ou seja, há uma recuperação. Neste momento, as feiras do Livro multiplicam-se, há livrarias que reabriram, cursos para escrita criativa e clubes de leitura por toda a parte, todas as escolas têm uma biblioteca, os professores não ousam dizer que não gostam de ler. Portanto, creio que se tomou consciência da perda extraordinária que é não ler. Esta discussão mostra apenas duas coisas: há duas correntes em relação aos papéis da literatura; uns puxam para diante e outros puxam para trás. Esse braço de ferro vai quebrar por um dos lados, e deverá ser pelo daqueles que não acreditam no papel formador da literatura.” .O CÉU CAIRÁ SOBRE NÓSLídia JorgeD. Quixote207 páginas LUTO POR PAUL AUSTERUm, talvez, inesperado livro com o relato do luto feito por Siri Hustvedt chegou às livrarias. O luto, está bem visível na capa onde Paul Auster e a autora estão numa pose que não se estranha; eles pareciam comportar-se assim. Entretanto, o marido morreu (30/4/2024) e Siri Hustvedt escreve este Fantasmas - Um Livro de Memórias, em que retrata o fim do escritor Paul Auster, de quem muitos leitores portugueses gostavam. E que acompanharam durante décadas, mesmo que houvesse em muitos leitores dúvidas quanto ao rumo da ficção mais recente, mas existiam livros antigos que valiam tudo. Como Mr. Vertigo ou Palácio da Lua. Portanto, estamos agora perante trezentas páginas em que a mulher de Paul ajuda também a fazer o luto ao leitor que ficou marcado pelo escritor. Será um livro mórbido? Seria necessário? São duas questões imediatas e para que cada leitor terá uma resposta e opinião própria. Diga-se que o estilo habitual de Siri Hustvedt, tão intrincado como potente, está ausente. Aqui é tudo muito terra a terra, um relato sobre um final anunciado e ficou registado. Pode até ser lido como um romance, uma espécie de narrativa em que há uma história e em que os personagens têm o nome de pessoas conhecidas. Paul Auster fazia dessas brincadeiras no início da carreira – o livro está entranhado dele -, portanto ser relembrado desta forma não é nenhum ultraje. À Literatura perdoa-se tudo e a Siri também. O livro inclui o esboço de Cartas a Miles, o livro que estava a escrever. .FANTASMASSiri HustvedtD. Quixote319 páginas .De ‘O Dia dos Prodígios’ a ‘Misericórdia’. As histórias por trás dos romances de Lídia Jorge.Estrear um livro nas Correntes d’Escritas