João Céu e Silva já fez “longas viagens” com escritores como José Saramago (2009) e António Lobo Antunes (2009 e nova edição em 2024) e agora embarcou em mais uma com Lídia Jorge que o escritor e jornalista - colaborador do DN - não tem dúvidas em descrever como a escritora viva mais importante da literatura portuguesa. Uma Viagem Longa com Lídia Jorge resultou de mais de duas dezenas de entrevistas com a autora de romances como O Dia dos Prodígios (1980), a A Costa dos Murmúrios (1988), Os Memoráveis (2014) ou, mais recentemente, Misericórdia (2022). As conversas com Lídia Jorge começaram há cerca de dois anos e o facto de ela ter sido distinguida com o Prémio Pessoa 2025 (que lhe foi entregue na semana passada), pouco tempo antes de o livro chegar às livrarias (amanhã, dia 19 de fevereiro), foi uma coincidência. Há largos anos que Céu e Silva queria escrever sobre Lídia Jorge e o empurrão final foi o grande sucesso do seu último romance, Misericórdia, que venceu sete prémios literários, em Portugal e no estrangeiro, entre os quais o prestigiado Prix Médicis Étranger 2023 (Melhor Obra Estrangeira), atribuído pela primeira vez a uma autora de língua portuguesa.Quem conhece esta série de livros de João Céu e Silva sabe que na sua base está o jornalismo e uma mistura de géneros. “Eu andei durante muito tempo à procura de um registo especial e não conseguia encontrar, mas tinha que envolver aquele registo do jornalismo que era a minha profissão. E então, a dado momento, eu consegui encontrar algo que junta a crónica, a reportagem, a entrevista, todos os géneros jornalísticos. Há uns géneros, como a entrevista, que têm mais preponderância”. O objetivo é “criar um registo de intimidade o leitor. Ou seja, não sou eu que estou a ter a conversa com o leitor. A maior parte das vezes o leitor sente que é ele que está sentado com a Lídia Jorge a conversar. Então, o leitor tem dúvidas, tem curiosidades e vai ouvindo. Essa é a minha tentativa. Nunca parecer que há alguém, um terceiro, ali no meio”, explica.Uma Viagem Longa com Lídia Jorge não é uma biografia pura, apesar de ter elementos biográficos, não é uma análise literária, apesar de incluir referências a trabalhos académicos sobre a sua obra, não é sobre o pensamento da escritora em relação ao mundo literário ou à sociedade portuguesa, mas isso também está lá. Assim como detalhes sobre o seu processo criativo. “O que eu quero mostrar é quem é aquele escritor, porque é que ele é importante, o que é que ele mudou na língua, como é que ele inventa as histórias e como é que as escreve. A Lídia, curiosamente, deve ter sido das mais fáceis nesse campo, porque ela gosta muito de contar as histórias”. As várias entrevistas com a escritora giraram em torno de cada um dos seus livros. “Em cada sessão há um livro base para falar. O Lobo Antunes dizia-me sempre que não se lembrava de nada desse livro. Mesmo que soubesse, dizia que não. A Lídia, não, conseguíamos ir livro a livro. Ela lembra-se de como é que começou um livro, lembra-se de quase todos os momentos que deram origem à história, e depois tem uma coisa muito interessante, que é saber contar as histórias. Então imita as vozes, faz os trejeitos... Nem todos os escritores são capazes de explicar porque é que fizeram aquilo, a Lídia é”.É claro que João Céu e Silva leu todos os romances de Lídia Jorge, tal como leu todos os livros de José Saramago (que lhe chamou “maluco”) e de António Lobo Antunes. “A Lídia tem uma obra extremamente importante. E eu estive a reler tudo. Nós começámos por O Dia dos Prodígios, que é uma obra que sai em 1980. E eu fiquei espantado, ela inventa uma linguagem”. Este primeiro livro fez com que Lídia Jorge conseguisse “um lugar à mesa da literatura”, como titula Céu e Silva um dos capítulos. Vergílio Ferreira, que leu o manuscrito, considerou-o um “romance extraordinário” e a sua avaliação terá sido decisiva para que a Europa-América decidisse publicá-lo. Pouco depois da publicação de O Dia dos Prodígios, José Saramago lançaria Levantado do Chão. Os dois escritores venceriam ex aequo o Prémio Literário Município de Lisboa em 1982, e relata Lídia Jorge que Saramago que lhe disse: “Só nós os dois é que estamos a renovar a literatura portuguesa”. Para João Céu e Silva, o livro mais importante de Lídia Jorge é A Costa dos Murmúrios. “Porque é a primeira vez que uma mulher se dedica a escrever sobre a Guerra Colonial, que era um pelouro só dos homens, porque os homens é que tinham ido à guerra, tinham experiência. E ela coloca o outro lado, a visão da mulher perante a guerra e perante o marido.”. A seguir destaca O Vento Assobiando nas Gruas (2002), em que a protagonista é Milene Leandro, uma jovem mulher com uma ligeira deficiência cognitiva. “Nós lemos o livro e nunca conseguimos esquecer a Milene, porque ela é muito diferente”. João Céu e Silva considera mesmo que na sua escrita a autora “quer dar poder às mulheres, quer explicar as mulheres, quer dar voz às mulheres. Eu acho que esse é um dos grandes objetivos da escrita da Lídia Jorge.”Depois de Misericórdia, com o qual Lídia Jorge diz ter feito o luto da sua mãe, virá outro romance que, revela a escritora a Céu e Silva, será sobre o seu “povo amado”. “Queria escrever sobre o povo que amo profundamente na sua insignificância e nas suas misérias e, ao mesmo tempo, na compaixão e nos sentimentos que não são ditos. O que quero escrever tem a ver com o poder da gente comum”. Também João Céu e Silva lançará brevemente, em março, outro livro, um romance, com a chancela da Guerra e Paz. Chama-se Ano Zero e ganhou uma menção honrosa do Prémio Literário Carlos de Oliveira. E há mais projetos literários em andamento. "Vou publicar o primeiro livro de uma nova série que a editora Contraponto vai lançar que é Do Meu Ponto de Vista e é uma conversa com pessoas. Neste caso será o António Barreto, que tem um passado com uma força tal, que se pode pensar o Portugal dos últimos 50 anos". As entrevistas com escritores também não acabam em Lídia Jorge. "A próxima longa viagem já está decidida, mas eu ainda não posso revelar, porque ainda estou em conversas com o autor"..UMA LONGA VIAGEM COM LÍDIA JORGEJoão Céu e SilvaContraponto336 páginas.Patrícia Reis: “Todos têm razão e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade”.Guilherme d’Oliveira Martins: “Foi António Alçada Baptista que apresentou Mário Soares a Edgar Morin”