Inês Bernardo apresentou o seu livro de estreia, 'Agarrar a faca pelo gume', nas Correntes d’Escritas.
Inês Bernardo apresentou o seu livro de estreia, 'Agarrar a faca pelo gume', nas Correntes d’Escritas.Foto: DR Pedro Jafuno

Estrear um livro nas Correntes d’Escritas

Agarrar a faca pelo gume é o título do primeiro romance de Inês Bernardo, que foi apresentado na 27ª edição do encontro literário da Póvoa de Varzim.  
Publicado a
Atualizado a

“Se calhar, tenho histórias para contar” foi o pensamento que esteve na base do primeiro romance que Inês Bernardo acabou de publicar. Agarrar a faca pelo gume é o princípio de um novo percurso e o fim da hesitação entre escrever ou não e entre a poesia e a prosa. A poesia esteve sempre muito presente, diz: “Desde adolescente que fazia poesia e acho que fui para o jornalismo para ter uma profissão que me permitisse escrever em paralelo. Aliás, a pergunta que eu fazia era: escrever é uma profissão?” A resposta só veio muitos anos depois, mesmo que um primeiro livro não seja suficiente para viver.

A resposta à outra dúvida, escrever poesia ou ficção, também não surgiu cedo: “Houve um dia em que alguém me disse que devia escrever prosa. Até fiquei um pouco ofendida, mas foi uma questão que ficou resolvida quando escrevi um conto e este ganhou um prémio. Surpreendi-me, pois achei que não sabia como é que se escrevia um conto.” Esse foi um momento decisivo para Inês Bernardo, de que resultou um primeiro momento literário público como foi a apresentação do livro de estreia nas Correntes d’Escritas. Um evento em que já estivera várias vezes mas nunca nesta nova condição: escritora.

Inês Bernardo vem do jornalismo e deixara as ambições literárias em pausa: “Penso que a minha aproximação ao mundo da literatura e dos escritores tinha muito a ver com essa antiga ambição, que estava a renegar, no entanto o prémio Jovens Criadores deu-me alento para confirmar se havia mais escrita em mim, aquela que me abrisse a porta para entrar neste projeto de há muito tempo.” Para a autora era também hora de perguntar se seria capaz de terminar um livro em que trabalhava há dez anos: “Não que escrevesse todos os dias, mas convivi com essas histórias durante todo esse tempo, no entanto só nos últimos dois anos é que decidi terminá-lo.”

A outra grande pergunta era se teria algo novo para dizer aos leitores. A conclusão foi evidente: “Sim, porque o que me interessava era resgatar uma série de histórias de mulheres e também uma série de circunstâncias que todos conhecemos e vivemos mas não ficaram contadas ou escritas em lado nenhum. São situações que nos formaram em termos sociais e pessoais, aliás, acredito mesmo que somos filhos e, principalmente, filhas de várias gerações de mulheres que tiveram de enfrentar o mundo sozinhas. Ou porque os homens estavam a descobrir outros continentes e a conquistar novos mundos, ou estavam em guerras ou na pesca, ou seja, estavam ausentes. Elas tinham de ser tudo; pais e mães, providenciar tudo e educar. Daí que ache que já se cantaram muito os feitos dos homens - não há problema nenhum com isso -, mas arriscamo-nos a que estas histórias femininas se percam na memória se não as contarmos e não as repetirmos.”

Até que ponto este romance é em muito autobiográfico, questiona-se. Inês Bernardo garante que não é: “As minhas raízes e o que me rodeia têm algo a ver com o cenário que escolhi, mas apenas para conter alguma verdade que queria transportar para a história. É como o caso das duas avós que não falavam uma com a outra e, através do qual, quis mostrar qual é o papel que o escritor deve assumir: ser o canal de comunicação entre as personagens e o leitor.”

Em boa verdade, Agarrar a faca pelo gume é uma narrativa interpretada por uma sucessão de figuras femininas. Pergunta-se se é assim porque lhe ser mais fácil escrever sobre mulheres. Responde: “Não, achei que era mesmo importante o resgate. Eram essas as histórias que queria contar efetivamente neste momento da minha vida, as que me interessavam explorar e que andavam a enredar-se à minha volta como uma teia de que só poderia surgir este romance.” Para Inês Bernardo há ainda outras razões para se ter decidido registar todas as memórias de outras gerações que considera merecerem passar ao papel. Justifica: “Até muito recentemente, vivemos gerações em que a seguinte vivia melhor do que a anterior e esse percurso foi interrompido nos últimos anos, pois começamos a ter gerações que não estão melhor do que as dos nossos pais e avós, nem sabemos se vamos conseguir fazer com os nossos filhos o que os nossos pais puderam fazer conosco ao dar-nos uma vida melhor do que a deles. Essa realidade obriga-nos a olhar para trás e também a entender o que se conquistou.”  

Não faltam exemplos para a degradação do nível das famílias e Inês Bernardo destaca essa situação na nota biográfica ao dizer que “não pertence à geração que tinha um emprego para a vida” e que essa foi também uma razão para fazer nascer este livro: “Os meus pais tiveram empregos para a vida, ambos foram professores, e achavam que isso me aconteceria também. Não foi o que se passou, tanto que demorei muito tempo a ter um emprego estável que permitisse pagar contas e a comprar tempo para escrever este livro. Claro que a demora para começar também teve a ver com o acreditar que era capaz de escrever.”

Após este romance com uma centena de páginas, a autora já está embrenhada num segundo livro: “Há outras histórias que quero contar, mas interessa-me muito continuar a explorar este lado feminino de vidas esquecidas, ou que se vão perdendo, das mulheres. Desta vez não demorará uma década; já estou a trabalhar nele ativamente.”

AGARRAR A FACA PELO GUME

Inês Bernardo

Tinta da China

111 páginas

VOZES INSTRUMENTAIS

O leitor português já teve direito à tradução de um anterior romance de Miqui Otero, Simón, sobre o qual se disse que dele ressoavam ecos de escritores como Juan Marsé e um tom de Zafón. Otero esteve nas Correntes d’Escritas para fazer ouvir os ecos desta nova narrativa e os tons da música que envolvem um amanhecer após uma festa de verão numa localidade em que múltiplos personagens, ideias, irrealidades e, principalmente, canções que confundem as melodias com as elucubrações de cada participante. Ao ousar abandonar o cenário barcelonês que lhe é mais querido, Otero dá a entender que situa a ação na Galiza, mas esta localização confunde-se em muito com a restante Espanha, numa tentativa de harmonizar protagonismos que se confundem com instrumentos. A sonoridade do livro assemelha-se a uma polifonia que exige ao leitor a montagem de um quebra-cabeças literário, de forma a entender a obra.

ORQUESTRA

Miqui Otero

D.Quixote

294 páginas


CRESCIMENTO E FUGA

Apesar da dureza de certas páginas deste romance, Rosario Villajos foi até às Correntes d’Escritas entregar ao leitor a história de uma adolescente e, principalmente, uma narrativa sobre os seus receios face a atitudes que toma e por parte dos que a cercam. O lidar com um corpo em mudança é tanto o pano de fundo como a ação principal, sendo que o esforço de transportar a história para o século passado torna o romance mais desafiador. Já se disse que este é um livro que não passará nunca de moda porque o que relata são situações que se mantém sempre na vida das jovens mulheres seja em que década for e que faz regressar humilhações que destroem as suas vidas. 

EDUCAÇÃO FÍSICA

Rosario Villajos

D.Quixote

239 páginas

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt