Em anos recentes, a abundância e, mais do que isso, a diversidade temática e estética de filmes de todas as origens que, um pouco por toda a parte, continuam a ser restaurados tem tido importantes reflexos nas dinâmicas do mercado cinematográfico português. Neste momento, exemplos modelares são o reencontro com Do Fundo do Coração, obra-prima de Francis Ford Coppola, ou o lançamento de alguns títulos de Ingmar Bergman que se mantiveram inéditos nos circuitos comerciais. A partir de amanhã, temos mais uma grande revelação decorrente de tais dinâmicas através do lançamento de Breves Encontros (1967) e O Longo Adeus (1971), os primeiros filmes da cineasta ucraniana Kira Muratova (1934-2018)..Os dois títulos foram restaurados pelo StudioCanal e, neste momento, constituem, de facto, um acontecimento invulgar nos chamados circuitos independentes de todo o mundo (incluindo uma edição em Blu-ray da prestigiada Criterion Collection). Em Portugal, Muratova foi sendo pontualmente divulgada em sessões especiais - por exemplo, o ciclo que lhe foi dedicado, em 2019, pelo Festival de Cinema e Literatura de Olhão -, mas continuava a ser uma autora quase inédita. Com distribuição da Midas Filmes, Breves Encontros e O Longo Adeus foram legendados por Maria João Madeira e Catarina Feiteira, com acompanhamento, a partir do original russo, de Boris Nelepo, Vitali Gnatiuk e Elena Ukrainskaya..Oleg Vladimirsky em O Longo Adeus (1971): onde está o "sol do futuro"?.Eis uma artista tão pouco conhecida quanto radicalmente fascinante, além do mais com uma vida e obra em que se cruzam elementos soviéticos e ucranianos. Aliás, qualquer tentativa de definição da identidade cultural da obra de Muratova deve ter em conta a pluralidade de elementos biográficos que é preciso convocar. Assim, ela nasceu em Soroca, cidade romena, atualmente pertencente à Moldova. Filha de mãe judia e pai russo, concluiu os estudos de cinema em 1959, no Instituto Gerasimov, em Moscovo; iniciou a sua atividade profissional nos Estúdios de Cinema de Odessa, cidade ucraniana onde filmou uma parte significativa da sua obra. Depois da independência, em 1991, adquiriu a nacionalidade ucraniana..Dramas do quotidiano.Num documentário sobre a sua obra, intitulado Kira (2003), o cineasta ucraniano Vladimir Nepevny registou, não apenas palavras de Muratova, mas depoimentos de vários admiradores do seu trabalho, incluindo o russo Alexander Sokurov e o polaco Andrzej Wajda. Entre as personalidades entrevistadas está também a argumentista russa Natalya Ryazantseva (que escreveu O Longo Adeus), conhecedora da história pessoal de Muratova, incluindo o facto de a sua infância ter sido vivida entre escolas romenas e russas: “Ela chegou mesmo a dizer-me que, de algum modo, se sentiu coagida a esconder isso: na escola russa escondia o facto de saber romeno e na escola romena escondia o facto de saber russo.” E acrescenta: “Parece-me que essas complicações deixaram uma marca muito particular.”.Depois de co-assinar dois filmes com Oleksandr Muratov, diretor dos estúdios de Odessa, então seu marido (mesmo depois do divórcio, ela conservou o apelido), Muratova estreou-se, a solo, num registo que era, no mínimo, estranho às regras do “realismo socialista” herdado da época estalinista - as perseguições de que foi alvo por parte da censura soviética são sintomáticas da sua desadequação aos modelos estatais dominantes..Isto sem esquecer que, à época, a política cultural comunista visava também concorrer diretamente com os modelos de espetáculo de Hollywood. Assim, foi também em 1967 que surgiu a monumental versão de Guerra e Paz assinada por Sergei Bondarchuk - esteve no Festival de Cannes, extra-competição, em substituição de Andrei Rubliev, de Andrei Tarkovski, considerado “inadequado” para representar a URSS; nos Óscares atribuídos em 1969, seria o primeiro título de produção soviética distinguido como melhor filme estrangeiro..Nina Ruslanova em Breves Encontros (1967): a música do melodrama..A dimensão política de Breves Encontros é tanto mais subtil quanto não decorre de um eventual discurso “militante”, seja do próprio filme, seja de qualquer uma das personagens. Até certo ponto, esta é mesmo uma história devedora de matrizes melodramáticas clássicas, centrada em duas mulheres, Valentina (interpretada pela própria Muratova) e a sua empregada Nadia (Nina Ruslanova). Acontece que Nadia já teve um caso amoroso com Maxim (Vladimir Vysotsky), marido de Valentina, sem que nenhuma delas saiba da identidade da outra. A prolongada ausência de Maxim, envolvido em trabalhos de prospeção geológica, faz com que se instale um “suspense” de que as mulheres são incautas protagonistas….Somos confrontados com um quotidiano desordenado que está longe de confirmar os ideais “sociais” do regime (enquanto responsável municipal, Valentina lida com as falhas no abastecimento de água). A própria Muratova, na qualidade de intérprete de Valentina, resume o labirinto das relações humanas muito para lá de qualquer prisão ideológica ou nomenclatura oficial. Diz ela, a certa altura: “Sempre que vejo um filme, ou leio um livro, as mulheres e os homens são belos, os seus sentimentos e ações são muito sensatos e íntegros. Até no sofrimento tudo é lógico e correto, há causa e efeito, princípio e fim. Aqui é tudo tão vago.”.Narrativas rebeldes.Há, evidentemente, uma componente social nas histórias de Muratova, tanto mais importante e sedutora quanto resiste a qualquer caracterização maniqueísta (política, moral ou simbólica). Tal componente adquire especial subtileza e perturbação em O Longo Adeus, já que tudo emerge a partir de um problemático labirinto familiar: Yevgenia (Zinaida Sharko) mantém o seu filho adolescente Sasha (Oleg Vladimirsky) num regime de apertada vigilância, mas tudo começa a mudar quando compreende que ele prefere ir viver com o pai….Também aqui são metodicamente decompostas as convenções de representação das relações familiares, sobretudo as que definem pais e filhos a partir da utopia pueril do “sol do futuro” (para usarmos a expressão comunista que Nanni Moretti transfigurou em título do seu belo filme de 2023). Estamos perante uma complexa e paradoxal representação das personagens: por um lado, apresentam-se inscritas num sistema de valores em que cada ser parece ter um destino moralmente (e, sobretudo, ideologicamente) pré-determinado; por outro lado, os gestos, olhares, palavras ditas e palavras silenciadas conferem às suas histórias o assombramento de uma tragédia por encerrar..Não se enganou a censura soviética quando detetou em O Longo Adeus uma narrativa rebelde em relação aos ditames da cultura estatal - não exatamente por qualquer esquemático “militantismo”, antes porque o misto de objetividade e desencanto no tratamento das relações humanas estava longe de satisfazer os códigos oficiais da ficção. De tal modo que o filme seria objeto de uma proibição que durou mais de uma década, apenas anulada em 1987..Com O Síndrome Asténico (1989), o seu título mais famoso, porque também mais divulgado nos circuitos internacionais - recebeu um Urso de Prata no Festival de Berlim de 1990 -, Muratova conseguiu uma “proeza” algo desconcertante: o filme ficou para a história como o único proibido durante a Perestroika. Com um complemento que importa sublinhar: em 1991, em tempos de desmantelamento da URSS, recebeu o prémio Nika de melhor filme do ano..Embora espelhando, antes do mais, as muitas convulsões de sociedades do Leste europeu, a obra de Muratova não pode ser desligada de uma conjuntura cinéfila internacional que, em contextos marcados por grandes diferenças culturais e políticas, era palco de afirmação de autores apostados em discutir as formas de representação das respetivas sociedades - tanto das contradições do presente como das suas memórias..Para nos ficarmos por alguns dos títulos mais emblemáticos de 1967, data de lançamento de Breves Encontros, lembremos que esse foi o ano de Bonnie e Clyde, de Arthur Penn, Terra em Transe, de Glauber Rocha, ou Poor Cow, título de estreia de Ken Loach. Para lá do muito que os distingue, os seus realizadores (respetivamente nos EUA, Brasil e Reino Unido) discutiam a relação com a realidade, fosse ela íntima ou coletiva, material ou mitológica, questionando o que eram, ou poderiam ser, as formas capazes de relançar o mais ancestral desejo do cinema - o desejo de realismo..Para Muratova, esse desejo envolvia um projeto autoral tão metódico quanto pragmático. No citado documentário de Nepevny, ela deixa mesmo este voto: “O meu sonho é desaparecer, apenas restando os meus filmes. Não quero ser aberta como uma lata, nem que examinem o que está lá dentro. Deixem que exista um mistério, deixem que seja assim: há uma pessoa que existiu, desapareceu, o seu corpo foi lançado num buraco. Nem uma cruz, nada - só ficaram os filmes.”