"O que nos diria o fundo do mar amanhã, se esvaziado de água hoje?". Essa é uma das questões filosóficas que Grada Kilomba tem estado a trabalhar nos últimos anos e que dá mote a "O Fundo do Mundo" - a maior exposição da artista portuguesa até à data em Portugal, que inaugura amanhã, sábado, 30 de maio, na Albuquerque Foundation, em Sintra, com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti."É uma exposição muito importante, também numa constelação muito importante, porque estamos no concelho de Sintra, onde eu cresci", disse Kilomba na visita da imprensa à fundação na manhã desta sexta-feira, 29 de maio. .A artista saiu cedo de Portugal, aos 20 anos, para Berlim, e construiu toda a sua carreira internacionalmente - com exposições no MoMA, em Nova Iorque, no Reina Sofía, em Madrid, no Castello di Rivoli e em instituições no Brasil, país que tem sido, nas suas palavras, "muito generoso". Em Portugal, mostrou o seu trabalho apenas duas vezes na última década e agora volta para esta mostra através da Fundação inaugurada em fevereiro do ano passado.A exposição reúne quatro grandes instalações já vistas noutros países mas inéditas em Portugal - Compressed Time (2024), Labyrinth (2024), 18 Verses (2022) e Opera to a Black Venus (2024) -, a que se juntam obras nunca mostradas em qualquer lugar: desenhos, fotografias, a maquete em argila de um barco e o díptico fotográfico Storyteller (2026)..Compressed Time recebe o visitante lá fora, no jardim - blocos de calcário em torno de um cubo de vidro preto, expostos aos elementos. O título parte de uma interpretação poética: as pedras são tempo comprimido, formadas por sedimentação ao longo de milhões de anos. O vidro, feito de areia dissolvida, é ao mesmo tempo frágil e cortante, nas palavras da artista."O vidro é extremamente belo, reflete o seu redor, brilha, é transparente, é frágil, é poético - como a humanidade também o é", disse Kilomba. "Mas também, a qualquer momento, é um segundo da vida das rochas que estão em redor. E se houver um desequilíbrio e quebrar, essa beleza também se torna grotesca, corta e sangra e pode matar". Neste sábado, às 16h, será em torno desta obra que Kilomba apresentará uma performance com o bailarino David Amado e a percussionista Marta Trovoada.Para entrar no pavilhão contemporâneo, o público tem de passar pelo Labyrinth - uma instalação têxtil de algodão fino, quase transparente, que voa com o vento e obriga a coreografar o corpo entre as peças, enquanto, no interior, 18 Verses ocupa a sala principal: 18 peças de madeira carbonizada com poemas gravados e pintados a folha de ouro, acompanhados por uma instalação sonora de oito canais. .São cartografias dos naufrágios atuais no Mediterrâneo, das posições em que os corpos caem. "O projeto da escravatura foi iniciado por Portugal em 1441", disse Kilomba. "E o mês passado as Nações Unidas trouxeram à mesa o projeto da escravatura como o mais desumano e horrível episódio da humanidade - no qual Portugal se absteve", criticou a artista.Opera to a Black Venus fecha o percurso com uma instalação de vídeo monocanal em que Kilomba reduziu a obra a um réquiem, um lamento - e substituiu a banda sonora original por uma improvisação ao piano a quatro mãos com a filha mais nova, Kianda, que na altura tinha dez anos. "Achei muito importante ter as mãos e a narrativa de uma criança para contar esta história, para refletir sobre o fundo do mundo", disse a artista ao falar sobre a obra que apresenta a frase do início deste texto.Já a ligação à Albuquerque Foundation, conta, foi construída ao longo de anos de amizade e trabalho com o curador italiano e diretor do museu, Jacopo Crivelli Visconti. "Sempre houve esta magia no ar: um dia vamos fazer alguma coisa", recordou Kilomba. O momento chegou quando o curador assumiu a direção do museu no concelho onde a artista cresceu - na linha de Sintra, "como a maior parte das pessoas da diáspora", em suas palavras, e de onde saiu muito jovem "porque era um lugar com muitas barreiras, com muitas impossibilidades". Daí o orgulho em ver, hoje, uma casa com tanto estatuto como esta a ter espaço na região.Para Crivelli Visconti, são precisamente histórias como a de Grada Kilomba e de outros artistas que tem ganhado espaço na fundação que justificam a escolha do que o museu pretende mostrar ao público. "O que a Grada traz da história de Sintra, uma história totalmente diferente desse palácio, é realmente o que acrescenta valor a tudo o que a gente está fazendo aqui", disse o curador..A exposição tem também um detalhe que passou a fazer parte da sua própria narrativa: na folha de sala constam os nomes de toda a gente que trabalhou na montagem - incluindo as equipas de limpeza, segurança e manutenção. "Há uma responsabilidade de ser artista que não é só criar a obra", disse Kilomba. "É a distribuição de bens, de oportunidades, de dinheiro, de visibilidade". Essa dimensão política atravessa toda a obra de Kilomba. A artista, que tem no colonialismo, na escravatura e nas violências sistémicas os eixos do seu trabalho, não separa a prática artística do ativismo - nem da atualidade. Durante a visita, referiu-se à Palestina como exemplo de uma repetição histórica que as suas obras procuram tornar visível: a ideia de que os corpos que caem no fundo do mar, de todas as épocas e de todos os conflitos, ficam registados na natureza mesmo quando a história oficial os apaga ou ignora."Ser artista é trabalhar com os horrores da humanidade e torná-los poéticos e contemplativos", disse. "É trabalhar os temas que a sociedade não consegue trabalhar e criar obras que dão um vocabulário visual e semântico ao público para poder falar sobre aquilo que não se pode falar", finalizou.A fundaçãoA Albuquerque Foundation abriu em fevereiro de 2025 com a missão de mostrar a coleção de cerca de 2600 peças de porcelana de exportação chinesa reunidas ao longo de quase sete décadas pelo empresário brasileiro Renato de Albuquerque - considerada, segundo a curadora da exposição permanente Becky Macguire, a mais importante coleção privada de arte de exportação asiática do mundo. A quinta no Linhó, antiga casa de férias da família, foi transformada num espaço que combina exposição permanente, pavilhão contemporâneo, residências artísticas e jardim. Para inaugurar a programação contemporânea, Crivelli Visconti escolheu o americano Theaster Gates - ceramista, artista e ativista que aprendeu a fazer cerâmica no Japão e tem no centro do seu trabalho as relações entre culturas e as questões raciais e sociais, algo em comum entre os artistas que tem exposto na fundação."O Fundo do Mundo" é a quarta exposição contemporânea da fundação e fica patente até 26 de setembro. A performance de inauguração é neste sábado, 30 de maio, às 16h. A Albuquerque Foundation fica na Rua António dos Reis 189, 2710-302 Sintra..Nova casa da cerâmica em Portugal, Albuquerque Foundation abre as portas em Sintra neste sábado.Sintra terá coleção de porcelana de brasileiro com mais de 2 mil peças