Não bastou confirmar as expectativas em torno de Lux - um espetáculo que é muito mais do que um concerto, quase uma dedicatória aos mais diferentes géneros que moldaram a sua construção enquanto artista e a alçaram ao sucesso que hoje tem - Rosalía foi além e demonstrou uma sinergia com o público rara de se ver em alguém do seu quilate, no primeiro dos dois concertos na maior sala de espetáculos do país, a Meo Arena, em Lisboa, na noite da última quarta-feira, 8 de abril.“Me lembro da primeira vez em que estive em Portugal, naquele teatro maravilhoso em Braga”, disse, para delírio do público, recordando a atuação no Theatro Circo, na cidade nortenha, em 2017. "Estou muito feliz de voltar aqui. Obrigado, Lisboa". Durante toda a apresentação, a cantora insistiu numa interação sincera, fosse para agradecer as vezes que fossem, dizer o quão feliz estava por estar por cá ou até tirar uma fotografia com um fã que veio de Moçambique para o concerto.Em quase duas horas de espetáculo, divididas em quatro atos, a catalã faz jus a todas distinções do álbum LUX, considerado a sua grande obra da carreira no ano passado. Se no primeiro momento ainda navegou em águas mais contemplativas - apesar de o público já entrar em uníssono na faixa de abertura, Sexo, Violencia y Llantas, e acabar petrificado em Mio Cristo Piange Diamanti -, no segundo já seria impossível para quem ocupava os balcões permanecer sentado.Afinal, quantas Rosalías cabem num palco? Da santa à selvagem, da frágil porcelana de Porcelana à apaixonada e charmosa Can’t Take My Eyes Off You, até à empoderada, confidente e assertiva em Perla - outro momento de plena sinergia -, a artista constrói uma performance que transita entre a ópera e o bailado, e uma música que vai do flamenco ao pop, passando pela erudita e pela eletrónica com toadas de raves berlinenses e até... ao fado.“Quando comecei a minha carreira, cantava em bares, restaurantes, casamentos, batizados e, nessa época, conheci e tentei interpretar diversos géneros e artistas. Numa dessas vezes, apaixonei-me pela voz de uma artista”, começou Rosalía.“É incrível porque, 15 anos depois, tenho o prazer de a convidar para cantar comigo. Senhoras e senhores, Carminho. Maestra. Obrigado por trazeres esta canção à minha vida. Cantamos as duas?”, perguntou à portuguesa ao recebê-la em palco para a interpretação de Memoria, também do último álbum. “O jeito que esta mulher canta me parte em dois”, disse, visivelmente admirada.Entre o terceiro ato - finalizado com Yugular -, Rosalía ainda incluiu, como tem sido regra na digressão, temas de outros álbuns de sucesso. “Lisboa, como é? Vocês conhecem Motomami?”, disse, para delírio da plateia, antes de interpretar Saoco. No final, Despechá também teve lugar.Baixou-se o tom para algo mais contemplativo, mas não menos envolvente por parte da plateia, nas últimas faixas, com Novia Robot e Focu Ranni, antes de mergulhar no vazio e ver as cortinas fecharem-se.Voltaria para um último ato, com Magnolia, já num lugar quase divinal, de aclamação total, em plena sinergia e catarse com o público. Multifacetada, Rosalía encantou e emocionou uma plateia através da sua performance e interpretação, quer fosse em catalão, espanhol, italiano, latim, inglês, hebraico, dialeto siciliano ou português.Os bilhetes para a segunda apresentação, na noite desta quinta-feira (9), estão esgotados, à semelhança da estreia. A quem não conseguiu garantir lugar, resta aguardar pelo regresso de Rosalía que, a julgar pelas palavras da própria, poderá não demorar.“Espero que vocês tenham gostado do concerto tanto quanto eu e que a vida me faça voltar aqui. Eternamente grata a ti, Lisboa”..Rosalía dá esta quarta-feira em Lisboa primeiro concerto da etapa portuguesa da digressão "Lux".Rosalía interrompe concerto em Milão devido a intoxicação alimentar. Cantora vai atuar em Lisboa em abril