Lobo Antunes morreu nesta quinta-feira, 5 de março de 2026.
Lobo Antunes morreu nesta quinta-feira, 5 de março de 2026.REINALDO RODRIGUES

Espólio de Lobo Antunes quase foi para o estrangeiro antes de ficar em Lisboa

Ao DN, Ricardo Marques, presidente da Junta de Freguesia de Benfica, recorda a “generosidade” do escritor e lamenta o atraso nas obras da biblioteca que tem o seu nome: “Infelizmente temos um péssimo hábito de honrar as pessoas na morte e não em vida".
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A morte de António Lobo Antunes na manhã desta quinta-feira, 5 de março, foi sentida de forma particularmente intensa em Benfica, freguesia onde o escritor nasceu e cresceu. Ao DN, o presidente da Junta daquela freguesia, Ricardo Marques (PS), recordou o processo que levou o autor a decidir doar o seu espólio literário a Benfica, destinado à futura Biblioteca Municipal - António Lobo Antunes.

“É um dia triste para todo o país, especialmente aqui para a freguesia. Perdemos um dos nossos maiores, que não só cresceu aqui, como teve também este grande ato de generosidade na parte final de sua vida”, afirmou. Segundo o autarca, a decisão do escritor de entregar o seu acervo à cidade foi tomada há cerca de uma década, com a ideia de que o espólio viesse a integrar a biblioteca municipal prevista para Benfica.

Posteriormente, o encontro entre ambos aconteceu em 2018, durante uma exposição no Palácio Baldaya. Marques conta que, nessa altura, o escritor manifestou a preocupação com o destino do seu espólio. “Não tinha propostas em Portugal, nem tinha ninguém interessado em ficar com o espólio. E tinha várias propostas de entidades estrangeiras e de várias universidades".

Foi então que surgiu a hipótese de o acervo ficar associado à futura biblioteca a construir na freguesia. “Sempre achei que o espólio dele podia ser a peça central da futura biblioteca municipal que vai abrir aqui em Benfica”, explicou. O processo acabou por envolver várias entidades e levou à assinatura de um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa.

Nas poucas vezes em que estiveram juntos, Marques recorda um Lobo Antunes diferente da imagem mais austera que muitas vezes lhe era atribuída. “Tinha um feitio muito próprio, como todos sabem, mas nas vezes que nos encontrámos foi sempre muito afável, cheio de histórias, um homem muito brincalhão”, contou, lembrando episódios da juventude do escritor em Benfica e as histórias que gostava de partilhar sobre a vida no bairro.

De acordo com o presidente da junta, o acervo inclui um vasto conjunto de documentos e correspondência literária. “Estamos a falar de quase 30 mil itens, milhares de cartas de correspondência com outros escritores”, disse, sublinhando mais uma vez a importância de manter esse material em Portugal.

A futura Biblioteca Municipal António Lobo Antunes, no entanto, ainda não tem data certa de abertura. Inicialmente prevista para 2024, a obra foi sendo sucessivamente adiada para dezembro de 2025 e, agora, Marques teme que fique pronta apenas perto do final deste ano.

“Infelizmente a obra já leva dois anos de atraso. Tenho muita pena de que o nosso caríssimo António Lobo Antunes não vá ver a abertura da biblioteca com o seu nome e com o seu espólio lá".

Para Ricardo Marques, diga-se, a demora "à portuguesa" nas obras e a morte do escritor voltam a expor um hábito recorrente na forma como o país reconhece as suas figuras culturais.

“Infelizmente temos um péssimo hábito de honrar as pessoas em morte e não as honrar em vida”, afirmou. “Estamos a falar de um homem que devia ter recebido todas as comendas, todas as homenagens, que claramente devia ter recebido o Prémio Nobel, entre tantas outras".

O presidente da junta anunciou também que a freguesia decretou três dias de luto local, recordando a ligação de Lobo Antunes a Benfica, freguesia onde escreveu alguns dos seus primeiros textos e deixou marcas que não serão esquecidas.

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