Este livro seu Brevíssima História da Revolução dos Cravos também tem edição em inglês. E mesmo na nota da contracapa da edição portuguesa diz que se destina a leitores de todo o mundo. A Revolução Portuguesa de 1974 teve realmente impacto mundial?Teve impacto e suscitou preocupações e curiosidade sob o ponto de vista político e diplomático, mas também teve impacto e suscitou curiosidade sob o ponto de vista da atenção dos jornalistas e da opinião pública internacional. Portanto, não é por acaso que nos meses que se seguem ao 25 de Abril há um grande afluxo, primeiro de jornalistas, e depois também de ativistas e de curiosos. Chega a falar-se de uma espécie de turismo revolucionário, em que as pessoas queriam vir a Portugal ver uma revolução a acontecer.Portugal, no final da ditadura, é um país isolado internacionalmente, porque tem a guerra em África, e não é muito bem visto pelos parceiros da NATO. Este contexto de isolamento também fazia de Portugal um país fora da época, naquele momento, porque a descolonização já tinha sido feita pelos outros países europeus?O isolamento da ditadura não era absoluto. Apesar de tudo, Portugal continuava a ser membro da NATO, e tinha relações económicas, políticas, diplomáticas, com os principais países da Europa Ocidental. Mas é verdade que, à medida que os anos da guerra avançavam, sobretudo na parte final da década de 60, esse desconforto, mesmo dos governos democráticos da Europa Ocidental, com a ditadura portuguesa e com as guerras coloniais, estava a aumentar. E, portanto, a revolução portuguesa é vista com algum alívio por parte dos meios internacionais, sobretudo pelo chamado Ocidente, e ainda mais a partir do momento em que se percebe que o golpe militar é de pendor democrático, e não um golpe de extrema-direita, como se chegou a pensar, e como chegou a estar em preparação. Mas, a partir do momento em que há essa segurança, e que a figura de Spínola emerge, há esse alívio por parte dos governos ocidentais, de que o 25 de Abril possa trazer a democratização, o fim das guerras e a independência das colónias portuguesasDepois houve muitas derivas ideológicas, mas naquele primeiro momento, o que se percebe do programa do MFA, e depois do anúncio pela própria Junta de Salvação Nacional, é que o modelo escolhido é o da democracia liberal ocidental?O 25 de Abril abre um período de questionamento, por parte da própria sociedade portuguesa, relativamente ao rumo que queria seguir. E não foi linear que o 25 de Abril conduzisse necessariamente a um regime de democracia representativa. Estiveram, durante os dois anos seguintes, vários modelos em confronto. E havia em Portugal quem defendesse pura e simplesmente um regresso ao 24 de Abril; havia outras figuras, como o próprio general Spínola, que depois evoluíram para a defesa de um modelo presidencialista autoritário, com concentração de poder nas mãos do presidente. Havia, naturalmente, os que se reviam no modelo soviético e num regime semelhante aos que vigoravam na Europa de Leste. Havia os defensores também dos modelos da democracia popular, digamos assim, que eram os agrupamentos de extrema-esquerda e as suas ramificações na instituição militar. Nós hoje sabemos, com o privilégio de estarmos a olhar para os acontecimentos 50 anos depois, que foi esse modelo de democracia representativa que triunfou. Mas isso não era automático. E, voltando ao plano internacional, a partir do momento, logo na criação do primeiro governo provisório, em que surgem dois elementos do Partido Comunista, isso faz soar as campainhas de alarme, sobretudo nos Estados Unidos. Portugal não era apenas membro da NATO, também os Estados Unidos tinham a Base das Lajes nos Açores. Estamos numa conjuntura particularmente delicada do ponto de vista internacional, e esse espectro de uma esquerdização da vida política portuguesa foi algo que preocupou os Estados Unidos. Tanto mais que do ponto de vista dos Estados Unidos, e nisso a leitura de Kissinger é muito reveladora, a transição em Portugal poderia condicionar aquilo que se viria a passar em Espanha e na Grécia. E, portanto, todo este flanco sul da Europa, embora a Espanha não fizesse parte da NATO, de repente haver aqui a possibilidade de uma esquerdização ou de governos onde, de alguma maneira, os partidos comunistas dos respectivos países participassem, poderia constituir um elemento disruptivo para a NATO.Kissinger, Secretário de Estado de Nixon e Ford, costuma ser citado também como tendo dito que Portugal está perdido e que Soares vai ser o Kerensky português. Depois é Carlucci que vem como embaixador para Lisboa e que, pelo contrário, acha que Portugal pode ser democrático e apoia Soares nesse sentido nisso. Este confronto entre o derrotista Kissinger e o otimista Carlucci faz sentido?Faz algum sentido. No entanto, não podemos esquecer que foi Kissinger quem nomeou Carlucci. Portanto, os Estados Unidos, como sempre, tinham provavelmente vários planos, várias possibilidades, mas facilmente Kissinger se deixou depois convencer pela análise muito lúcida e muito feita no terreno e com base em elementos concretos por parte de Carlucci, favorecendo o apoio aos chamados moderados. O que muitas vezes não é referido é o papel que Carlucci tem um pouco mais à frente, já, portanto, no final do verão de 1975 e nos meses anteriores ao 25 de novembro, que foi o de convencer Kissinger em não apostar numa outra hipótese que nos Estados Unidos ganhou alguns adeptos e chegou a ser ponderada, que era a hipótese de se apostar no general Spínola, que estava no exílio, que tinha criado o MDLP e, portanto, tinha planos para um regresso a Portugal e desenvolver um plano de ação armada contra as instituições vigentes.Apesar de termos tido eleições democráticas em 1975, em que claramente se percebeu que os partidos moderados como o PS e o PSD eram maioritários, ainda havia essa hipótese na mente de alguém do Departamento de Estado?Havia essa hipótese em setores do Departamento de Estado, do Congresso, da sociedade norte-americana. O que acontece é que o ambiente internacional também não estava de molde a criar condições para uma intervenção decisiva por parte das duas grandes superpotências. Estávamos na Détente, portanto, estávamos numa fase de retração, por parte da ação dos Estados Unidos e por parte da ação da União Soviética. Ambas as potências tinham apostado muito neste desanuviamento, ambas as potências tinham apostado muito na Conferência de Helsínquia, que se realiza justamente no final de julho e no princípio de agosto de 1975, e parecia que nem os Estados Unidos nem a União Soviética estavam dispostos a arriscar a Détente a troco de uma intervenção mais decisiva em Portugal. É por isso que se pode dizer que o contexto não estava favorável a que Portugal se tornasse ou num Chile de Pinochet, liderado por Spínola, ou numa Cuba, em plena Europa Ocidental. Até porque havia um terceiro elemento neste contexto da Détente, que era a posição cada vez mais importante, mais interventiva e mais decisiva da Europa Ocidental. Os países da Europa Ocidental encararam a Revolução Portuguesa e aquilo que se passou a seguir como um assunto europeu. E, portanto, caberia aos europeus, não aos americanos nem aos soviéticos, ter uma intervenção decisiva quanto ao futuro desta Europa do Sul..Fala-se muito de apoios financeiros alemães, suecos e outros, de partidos e fundações ligadas a partidos, ao PS, sobretudo…Sim, isso está estudado e comprovado, assim como ao PSD e ao CDS, mas o papel da Europa Ocidental foi mais do que isso. Foi mesmo de intervenção direta junto dos líderes americano e soviético. Isso, por exemplo, em Helsínquia foi muito claro e está também documentado. Procuraram convencer os americanos e os soviéticos a não ter esse tipo de intervenção, de maior envolvimento, de maior apoio aos seus peões no xadrez português. E, portanto, essa intervenção europeia foi sempre no sentido de apoiar o estabelecimento em Portugal de uma democracia pluralista, que pudesse também servir de modelo para o que depois se passasse na restante Europa do Sul e que isso, por seu turno, viesse a permitir um natural alargamento a sul da então Comunidade Económica Europeia.Chegamos ao 25 de Novembro, que, no fundo, é o momento em que os moderados tomam a liderança dada nas eleições para a Constituinte, depois temos a entrada em vigor da Constituição em 1976, e 10 anos depois acontece a entrada na CEE, a atual União Europeia. É o prémio que a Europa dá a Portugal ter acreditado na democracia ocidental?Sim, é um prémio, mas também é um corolário lógico da democratização e do fim do império. É certo que só vem a acontecer em junho de 1985, mas o pedido de adesão é logo em 1977. As nego- ciações depois é que se prolongam, por várias razões. Mais uma vez, também não foi uma opção linear, e na sociedade portuguesa, entre os políticos e os militares, havia perspectivas diferentes quanto ao futuro da política externa portuguesa. Uma política externa mais de cariz, digamos, neutralista, terceiro-mundista, ou uma clara adesão à Europa como forma de concretizar o terceiro “D” do 25 de Abril, o do Desenvolvimento.Mas a presença na NATO nunca esteve em causa?A presença na NATO nunca esteve em causa, mas desde muito cedo, ainda em 1974, já sem Spínola, na presidência de Costa Gomes, Portugal é excluído das reuniões do Nuclear Planning Group. Portanto, Portugal não está fora da NATO, mas determinadas reuniões sobre assuntos mais sensíveis, nomeadamente a questão nuclear, devido à presença de elementos do PCP no governo português, não têm participação portuguesa. Aliás, é o próprio Costa Gomes que, para que o país não seja excluído, sugere que Portugal não participe nessas reuniões.Portugal, a partir de um certo momento do período revolucionário, perde claramente o controle da situação em África e as ex-colónias tornam-se um terreno de competição aberta da Guerra Fria entre soviéticos e americanos. Portugal aí já não consegue fazer nada?A partir dessa altura, não. A partir do momento em que, sobretudo no caso de Angola, mas também nos restantes casos, há uma internacionalização do conflito, Portugal pouco tem a fazer. O que tenta fazer, ainda durante algum tempo, é a construção da ponte aérea para ajudar ao regresso dos portugueses que viviam nesses territórios. Mas, de facto, o essencial da descolonização portuguesa, o fim do império colonial português, fica decidido nos primeiros meses após o 25 de Abril. Há ali ainda um momento de hesitação, digamos assim, que até cria alguma impaciência na comunidade internacional, porque o general Spínola tinha uma perspectiva diferente da evolução da questão colonial. Ele achava que havia que dar tempo ao tempo, havia que dar condições para a criação de partidos políticos e eventualmente, num futuro que ele não especifica, realizar referendos para perceber se a população queria realmente ser independente. Mas na verdade não era essa a posição nem dos movimentos de libertação. O caso da Guiné-Bissau é o mais evidente, já tinha declarado a sua independência, e essa independência já tinha sido reconhecida por mais de 80 países, não ia agora dar um passo atrás e submeter a independência a referendo interno. Mas não é só a questão dos movimentos nacionalistas, é também a posição da comunidade internacional. Spínola acaba por não conseguir recolher apoios significativos para experimentar uma modalidade diferente de descolonização, e tudo isto atinge ali um ponto culminante na crise que marca a passagem do primeiro para o segundo governo provisório. E poucos dias depois do segundo governo tomar posse, já liderado por Vasco Gonçalves, é promulgada a lei 7/74, no final de julho, que é a lei da descolonização. Fica a questão de Angola ainda, que se irá prolongar, do ponto de vista da participação decisiva de Portugal até janeiro de 1975, na conferência do Alvor, onde os três movimentos estão representados. Mas sim, é essa lei 7/74 que constitui o marco decisivo na descolonização.Este livro ter edição inglesa mostra uma ambição clara de chegar a uma audiência internacional, ainda interessada no 25 de Abril após mais de meio século?Sim, pareceu-nos que faltava essa síntese da revolução em língua inglesa, uma síntese que fosse acessível ao público internacional. O livro tem uma estrutura muito simples, uma narrativa predominantemente cronológica ou de encadeamento dos factos e dos eventos, embora o facto do livro ser uma síntese acessível de nenhuma maneira lhe tira rigor historiográfico. Porque este livro só é possível porque é uma síntese de todo o avanço que nas últimas décadas houve de conhecimento académico sobre o 25 de Abril e sobre os meses que se seguiram. Nos últimos 20, 30 anos houve dezenas de dissertações de mestrado, teses de doutoramento, livros publicados, projetos desenvolvidos, conferências, comunicações, etc., tanto em universidades portuguesas como em universidades estrangeiras. De facto, temos estudos já muito interessantes sobre a dimensão internacional. Temos também estudos muito importantes e muito clarificadores sobre o papel dos militares e o modo como conduzem o processo, sobre a emergência dos partidos políticos, novos atores na vida nacional, e, também, muito importante, temos também, já hoje, uma bibliografia muito consolidada sobre a importância decisiva da participação popular em todo este processo. Ou seja, o facto de, neste livro, ser dado relevo ao contexto internacional e às reações internacionais, não pretende retirar importância ao protagonista decisivo dos acontecimentos em Portugal, que é o povo português. É o povo português que toma o destino nas suas mãos, é o povo português que vai agir nas ruas, que vai agir nas fábricas, que vai agir nos campos, nas escolas, nos sindicatos, mas também nas urnas, e que tem aquela mensagem muito clara a 25 de abril de 1975, nas primeiras eleições livres, sobre que rumo é que quer que o país siga. Não nos podemos esquecer que as eleições para a Assembleia Constituinte tiveram mais de 90% de participação. É um povo que tinha estado cinco décadas sem poder dizer sobre o seu destino e que, agora, vai às urnas em peso, a fazer vale o seu voto..Maria Inácia Rezola: “Portugal rompeu com estereótipos: um golpe militar abriu caminho à democracia”