O Gran Duo italiano, formado pelos músicos Angela Meluso (piano) e Mauro Tortorelli (violino), vai interpretar, já este sábado, 14 de março, a convite da Embaixada de Itália, um repertório de Franz Liszt, em Coimbra, para evocar São Francisco de Assis.
O Gran Duo italiano, formado pelos músicos Angela Meluso (piano) e Mauro Tortorelli (violino), vai interpretar, já este sábado, 14 de março, a convite da Embaixada de Itália, um repertório de Franz Liszt, em Coimbra, para evocar São Francisco de Assis.Foto: Direitos reservados

Embaixada de Itália assinala 800 anos da morte de São Francisco, "o inventor da ecologia"

O DN falou com o embaixador de Itália, Claudio Miscia, que desvendou dimensões de São Francisco de Assis pouco conhecidas. Evocação do santo começa este sábado com concerto com obras de Franz Liszt.
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A Embaixada de Itália em Lisboa vai assinalar ao longo de 2026 o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis com um programa cultural que inclui concertos, conferências e a apresentação de um novo livro dedicado à figura do santo. A iniciativa pretende sublinhar não apenas a importância espiritual de São Francisco para a tradição italiana, mas também as ligações históricas entre Itália e Portugal, em particular através da relação com Santo António. As celebrações começam já este sábado, 14 de março, no Convento de São Francisco, em Coimbra, com um concerto do Gran Duo italiano, formado pelos músicos Angela Meluso (piano) e Mauro Tortorelli (violino). O mesmo programa será apresentado alguns dias depois, a 18 de março, na Igreja de Nossa Senhora do Loreto, em Lisboa, conhecida como Igreja dos Italianos. Os dois concertos têm entrada livre.

O embaixador de Itália em Portugal, Claudio Miscia, explicou ao DN que a decisão de promover estas iniciativas prende-se também com o papel central que São Francisco ocupa na identidade cultural e religiosa italiana. 

“O santo é o padroeiro da Itália, tanto que este ano, para celebrar os 800 anos da sua morte, foi restituída a festa nacional de 4 de outubro, o dia em que morreu, em 1226”, recorda o diplomata.

Mas há também razões específicas para que as comemorações se realizem em Portugal. “Um importante aspeto pelo qual achamos que a Embaixada de Itália em Lisboa deve celebrar São Francisco é que ele teve contactos importantes com Santo António de Lisboa”, destaca o embaixador, acrescentando que, segundo a tradição histórica, o jovem António – que ainda não era conhecido como santo – terá procurado Francisco em Itália no início da década de 1220.

“Encontraram-se entre 1221 e 1226, e António pediu autorização para pregar a palavra da ordem”, afirma.

Esse encontro marcou profundamente o percurso do futuro santo português. 

“Quando António se mudou para Rimini e depois para Pádua, era considerado um pregador da palavra de Francisco”, acrescenta o embaixador. Para Claudio Miscia, essa relação explica a dimensão simbólica das comemorações em Portugal: “Os dois tornaram-se talvez os santos mais amados pela devoção popular, tanto em Itália como em Portugal e em muitas outras partes do mundo.”

O programa cultural arranca com um concerto concebido especialmente para esta ocasião. A Embaixada encomendou aos músicos italianos a criação de um repertório inspirado na espiritualidade franciscana, que inclui obras de Franz Liszt. O compositor e pianista húngaro teve, aliás, uma ligação pessoal à tradição franciscana. Nos últimos anos da sua vida, aproximou-se da ordem e tornou-se membro da Ordem Terceira de São Francisco.

O duo toca piano e violino, sendo que o instrumento utilizado por Mauro Tortorelli apresenta uma particularidade rara. “O violino é um instrumento excecionalmente de cinco cordas, mandado construir por luthiers da Calábria”, explica o embaixador, acrescentando que “tem uma sonoridade particularmente abrangente, porque acrescenta uma corda ao violino tradicional”.

Para além da dimensão artística, o diplomata sublinha a atualidade da mensagem franciscana. Na sua perspetiva, São Francisco pode ser visto como uma figura precursora de preocupações contemporâneas, sobretudo no domínio ambiental. “São Francisco foi o primeiro santo ecologista”, afirma Claudio Miscia. “Foi quem praticamente inventou esta ideia de amor pela natureza, pelos animais, por toda a criação.”

Essa visão encontra expressão no célebre Cântico das Criaturas, composto no final da vida do santo, através do qual celebra elementos da natureza como o sol, a lua ou o vento. “É algo de uma atualidade imensa”, observa o embaixador. A mesma pertinência, acrescenta, pode ser encontrada na reflexão franciscana sobre a pobreza. “Ele levava a pobreza a um extremo que hoje seria difícil imaginar, mas vivemos no extremo oposto, de consumo contínuo e abundância. Talvez possamos começar a refletir que nem tudo isso é necessário”, acrescenta.

As comemorações prolongam-se ao longo do ano com outras iniciativas culturais e académicas. Entre elas destaca-se a apresentação da tradução portuguesa de uma biografia recente de São Francisco escrita pelo historiador medievalista Alessandro Barbero, que será publicada pela Quetzal Editores.

De acordo com o diretor do Instituto Italiano de Cultura, Stefano Scaramuzzino, o livro propõe uma abordagem crítica às narrativas tradicionais sobre o santo de Assis. A obra “desconstrói muitos lugares comuns e estereótipos atribuídos ao longo dos séculos à personalidade de Francisco”, explica. O autor baseia-se em diversas fontes medievais, muitas vezes contraditórias entre si, que revelam um retrato mais complexo da figura histórica.

“As primeiras biografias, escritas por frades que o conheceram, oferecem retratos divergentes, por vezes inconciliáveis”, refere Stefano Scaramuzzino. Décadas depois da morte do santo, a própria ordem franciscana terá tentado uniformizar essa memória.

A redescoberta posterior de algumas dessas fontes permitiu recuperar um retrato menos idealizado do santo. Segundo Scaramuzzo, o livro devolve “a densidade de um homem extraordinário, no centro de tensões espirituais, conflitos interiores e profundas contradições”.

Além do concerto e da apresentação do livro, a Embaixada de Itália prevê ainda dedicar a edição deste ano das Conferências sobre as Relações Luso-Italianas à figura de São Francisco, que chega à 15.ª edição.

Para Claudio Miscia, estas iniciativas pretendem também recordar a dimensão cultural e simbólica do legado franciscano, que ultrapassa fronteiras nacionais e religiosas. Entre as tradições associadas ao santo, o diplomata recorda uma particularmente difundida. “São Francisco é considerado o inventor do presépio”, afirma. “Este ano, talvez devêssemos lembrar com mais atenção essa tradição e fazer o nosso presépio em casa”, propõe.

O programa poderá ainda ser reforçado com novos eventos ao longo do ano, sempre com entrada gratuita e abertos ao público. O objetivo, conclui o embaixador, é simples: manter viva uma figura cuja mensagem continua a interpelar o presente. “A palavra de São Francisco”, diz, “continua extremamente atual.”

O Gran Duo italiano, formado pelos músicos Angela Meluso (piano) e Mauro Tortorelli (violino), vai interpretar, já este sábado, 14 de março, a convite da Embaixada de Itália, um repertório de Franz Liszt, em Coimbra, para evocar São Francisco de Assis.
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