Estreia esta sexta-feira, 27 de fevereiro, no São Luiz, em Lisboa, o espetáculo intitulado Corpo Nómada, uma cocriação de João Paulo Santos, Joana Nicioli, Bertrand Groisard, Filipe Raposo e Rita Maria que, tal como o subtítulo indica, é “uma história de errâncias”. Com exibição até dia 1 de março, este espetáculo cruza várias disciplinas em torno da ideia de migração, mas não é só por trazer a palco circo, dança, música e efeitos visuais que se torna multidisciplinar, até porque, como explicou ao DN João Paulo Santos, o que conta são os “espaços” que os artistas tentam encontrar entre estas “grandes artes”. “Nós não estamos só a fazer circo e em seguida só música. É um entre alguma coisa”, vinca.Há luzes estroboscópicas e há um mastro com cerca de dez metros de altura no palco que é mais do que um adereço, é o vértice da narrativa, que é construída pelos corpos de Joana Nicioli e de João Paulo Santos. Em simultâneo, a voz de Rita Maria, conjugada pelo piano de Filipe Raposo, dão mais uma dimensão à história, que depende quase tanto de quem vê a peça como de quem a interpreta. No meio de tudo isto, não há palavras. A simbologia nasce de todos os outros elementos.“O que eu acho interessante num espetáculo que não usa a palavra são as várias camadas de leitura”, assume João Paulo Santos, que explica como cada artista neste espetáculo tem a sua “própria narrativa”. “Juntos, criamos uma narrativa, mas há uma grande liberdade para que cada pessoa no público possa, ela própria, ter a sua própria perceção da narrativa que quer perceber. E, nesse sentido, os nossos corpos em movimento, mais que uma narrativa, eles transmitem emoções”, descreve o artista que tem mais de 25 anos de experiência no mastro chinês, o tal elemento presente que desafia os corpos e ajuda a construir a parte acrobática.Para Joana Nicioli, que também desafia a gravidade e a expectativa do público, “a dificuldade física desta peça” passa por uma gestão “matemática” entre dois elementos: “o descanso e a concentração”. “O corpo tem que estar ativo e em forma para conseguir fazer aquilo. Mas não pode estar muito cansado. Para conseguir fazer aquilo e ter energia de sobra para poder interpretar é preciso encontrar equilíbrio entre os dois”, descreve a artista.Sobre o que estes corpos preparados para este espétaculo conseguem transmitir, a artista fala numa “vivência de travessias. Individuais, em grupo, e de mudança de estado de espírito durante essas travessias. Eu acho que, para mim, esse é o ponto mais importante. De encontros e desencontros”, relata, sem esquecer a ausência de palavras como um elemento unificador..“Acho que isso é uma das belezas de espetáculos onde não há palavra. A interpretação é muito mais plural, muito mais aberta. Então, também vai de cada pessoa do público, de cada experiência e viver daquela pessoa”, explica.E é na ausência de palavras que reside o conforto de Rita Maria, que recorre essencialmente à voz na peça. “É a minha matéria-prima. Dentro da música contemporânea, dentro do jazz em particular, que é uma linguagem com a qual eu trabalho há muito tempo, essa é a matéria-prima à qual eu dou voz”, explica a cantora, acrescentando que, porém, “há uma narrativa neste espetáculo que ultrapassa também a necessidade das palavras”. “As palavras talvez viessem até a deturpar essa narrativa que tem vindo a ser construída”, assume.Mesmo sem palavras, a dificuldade técnica não é menor, até porque Rita Maria recorre a um pedal de loop, que multiplica a sua voz, para criar outra dimensão da peça.“Estamos a falar de várias vozes às quais queremos dar vida”, afirma, enquanto admite: “Eu não sou uma, eu sou muitas vozes numa só. Esta ideia também da universalidade da voz e da mensagem. Esta pedaleira acabou por possibilitar isso.”E todos trabalham sem rede, até os músicos, mas não é um ambiente que lhes é alheio, como explica o pianista Filipe Raposo, que trabalha “sempre sem rede”.Sobre a história que é contada, o músico vê-a como “um processo autobiográfico”, que implica “errar para encontrar o caminho certo. É vida em geral.”“Mas também é autobiográfico porque cada um de nós tem vivido uma errância”, descreve, aludindo a “nomadismos que encontramos nos desertos. Nos múltiplos desertos de areia e de gelo também”, refere, com e sem metáforas.Para o músico, a narrativa vai desde a “nossa cidade que vive este nomadismo digital, até às grandes migrações, pessoas que são forçadas a sair”, refere, reforçando a ideia mais forte do espetáculo: “Muitas vezes sem palavras parece que entendemos mais do que pensávamos.”.‘John Gabriel Borkman’ no São Luiz questiona o “frio no coração”.André Murraças em 'one man show' com 'O Meu Amigo Freddy Krueger' no São Luiz