O TikTok e todas as angústias da Bucareste destes dias...
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Comédia a negro & branco

Uma crónica negra e cómica de Bucareste para estilhaçar esta primavera. Estreou-se ontem este Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo, de Radu Jude, prémio especial do júri em Locarno. O cinema romeno a ficar cada vez mais perto do zero em comportamento. Boa notícia...
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Todo um filme sustentado num golpe de teatro, num coup de théâtre, como os franceses chamam. A proeza é aqui do romeno Radu Jude, provocador social que depois de ter vencido em 2021 o Festival de Berlim com Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental, regressa com uma comédia a negro e branco sobre um dia na vida de uma assistente de produção de filmes institucionais. Mas se antes o cineasta falava de vídeos caseiros e do moralismo de uma sociedade que merece provocação gratuita, agora vai mais longe: este é o seu filme mais ambicioso, aquele em que tenta ir da epidemia dos vídeos TikToks e dos efeitos das redes sociais à atual neura de um país que se sente refém da sua decadência económica e preso na precariedade das ilusões neo-capitalistas. 

Caricatura radical

A heroína do filme é uma assistente de produção que é explorada por uma produtora de cinema que vai a todas: dos filmes de Hollywood filmados na Roménia aos anúncios para empresas duvidosas. Angela acorda antes das 6 da manhã: tem de fazer todos os recados e conduzir horas nas ruas de Bucareste. Está exausta, cheia de sono e só sobrevive porque criou nas pausas uma persona do YouTube chamado Bobica, uma personagem que sob filtros transforma-a num homem machista e com um palavreado indecente. Como ela diz: “caricatura extrema, como o Charlie Hedbdo”. É o seu escape. Ao mesmo tempo, tem ainda de tentar resolver um problema com a mãe: o cadáver da avó que morreu há cinco meses vai ter de ser despejado do cemitério. Como se não bastasse, há também a falta de tempo para estar com o namorado - ele pede-lhe 10 minutos, nem que seja pelo menos para a “rapidinha”.

O cerne destas duas horas e quarenta minutos é sobretudo a busca de Angela de testemunhos de vítimas de acidentes de trabalho, supostamente para depois servirem de manipulação para um vídeo de campanha pago por uma empresa austríaca. Paralelamente, Radu Jude vai misturando todas essas imagens a preto & branco desse dia “infernal” com imagens manipuladas de um filme da era comunista chamado Angela Moves On, onde também se acompanha uma senhora taxista numa outra Bucareste. Senhora essa que acaba por ser a mãe de um dos acidentados. Ou o cinema a brincar com as narrativas do cinema do passado. Aliás, ou Radu Jude a querer fazer com tanta câmara-lenta e ampliação uma ideia de paragem da imagem cinematográfica. Parar o cinema. Parar tudo. Um gesto tão desafiante como poético, aliás como toda a parafernália caótica do filme: o barulho do auto-rádio do carro de Angela, a incompetência da equipa de filmagens e os diálogos com histórias cruzadas desta Roménia de hoje que não consegue esconder as feridas do comunismo.

Do cinismo absurda há espaço para ficarmos a conhecer bem as personagens, a querermos saber delas. Paradoxalmente, o tal tom “punk” de caricatura não anula um certo vestígio de humanismo, sobretudo quando denúncia práticas de corrupção e outras injustiças sociais, mesmo quando se incluem citações de Uwe Boll, cineasta alemão da série B que ficou famoso na net por oferecer violência física aos críticos de cinema. E, sim, é verdade, o próprio Uwe Boll, está de corpo e alma no filme a fazer dele mesmo, tal como Nina Hoss, a maior atriz alemã da sua geração, na pele da produtora austríaca que, de forma blasé, diz-se trineta de Goethe. A loucura do projeto é ainda ampliada quando há citações do poeta zen Matsuo Bashō ou minutos de silêncio de luto pela forma desgovernada como se conduz na Roménia. 

Ser romeno hoje

Tão exasperante como entusiasmante, Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo faz do seu pessimismo uma verdadeira antologia daquilo que pode ser hoje um guia da identidade romena. E dá-nos luta: não dá a papinha feita ao espectador: há que esperar, perceber por onde algum do formulário conceptual aborrecido nos leva. A certeza é que é para lugares novos, nem que seja para um “scroll” de “reels” estupidificantes num telemóvel, mas para Radu Jude é sempre importante não haver atalhos. Um tudo ou nada que às vezes faz com que se perca alguma da objetividade.

Sai-se da sala de cinema e percebe-se ainda que há um manguito forte nesta provocação, sobretudo com as condições de trabalho precárias e, em especial, no meio do cinema. Esta assistente de produção que fala de Putin, Zelensky e Salmon Rusdhie não é mais do que uma motorista TVDE, como ela própria percebe. Ela é “o estado do mundo” e a executante da crónica social. Uma personagem cronista que com o seu humor selvagem olha para o tal fim do mundo. Um final do mundo que, afinal, não é mais do que o tal “estado do mundo”, onde as pessoas se queixam que está tudo caro devido à invasão da Rússia à Ucrânia mas que também opinam sobre a morte da Rainha de Inglaterra, o excesso de trânsito e os problemas do lixo na rua.

Filme anárquico, sim, mas com bom senso nessa gestão do caos. O realismo social que era prática vigente do cinema romeno dos últimos anos está com outro implante, cada vez mais a parecer cinema furiosamente em direto, quase improvisado.

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