Carla Caramujo é diretora artística do Festival de Ópera de Óbidos desde 2025.
Carla Caramujo é diretora artística do Festival de Ópera de Óbidos desde 2025.FOTO: Gerardo Santos

Carla Caramujo promete levar ‘Luz e Trevas’ ao Festival de Ópera de Óbidos

A soprano, e diretora Artística do FOO, fala do tema central desta 4.ª edição do festival que abre dia 5 com a gala Mozart, Weber e Beethoven - Encontro de Titãs e fecha dia 20 com Orfeu e Eurídice.
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Para Carla Caramujo, quem vai a Óbidos assistir ao festival de ópera daquela vila muralhada medieval “não vai só ver uma ópera, vai ter uma experiência operática”. E é isso mesmo que a soprano e diretora artística do Festival de Ópera de Óbidos (FOO) promete a quem se deslocar à 4.ª edição deste evento que começa já neste sábado, dia 5, e se prolonga até 20 de setembro.

Este ano a temática é Luz e Trevas. E o festival abre já no sábado com a gala Mozart, Weber e Beethoven - Encontro de Titãs, na Praça da Criatividade, em Óbidos. “Este ano temos efemérides importantíssimas. Celebramos os 270 anos de nascimento de Mozart, que é o grande marco do período clássico. Ao mesmo tempo, temos [Carl Maria von] Weber que morreu há exatamente 200 anos, que escreveu Der Freischütz, o Franco-Atirador, uma obra que marca o que vão ser as raízes da ópera romântica, mas ainda neste período clássico. E em 2027 assinalamos 200 anos do desaparecimento de Beethoven, um nome que não pode nunca ser ignorado na história da música”, explica Carla Caramujo, numa passagem por Lisboa.

Sentada num café bem perto do Museu Nacional de Arte Antiga, a soprano acrescenta que esta gala de abertura do FOO é “uma homenagem a estes três compositores que são gigantes da história da música, do período clássico e dos alvores do romantismo. E ao mesmo tempo são, através da sua música, grandes difusores dos valores do iluminismo.”

Diretora artística do FOO desde 2025, Carla Caramujo confessa-se, no entanto, grande apreciadora de música do século XX. Um amor que, este ano, se reflete no recital De Purcell a Britten: Mais de dois século de paixão shakespeariana, no dia 16, no Museu Abílio de Mattos e Silva. Nos 50 anos da morte do compositor e maestro britânico “temos uma homenagem a este grande nome, que é Britten, mas também a Shakespeare, cuja obra, ao longo de 300 anos, inspirou música”, continua Carla Caramujo.

Antes ainda deste recital, os espectadores poderão assistir a La Cenerentola ossia Il trionfo della bontá, ou, em português, A Cinderela, ou O triunfo da bondade, de Gioachino Rossini, nos dias 11 e 13, Conveno de São Miguel das Gaeiras.

“Temos aqui a famosa história da Gata Borralheira, mas com uns twists engraçados no libreto e com uma música borbulhante, absolutamente fantástica, numa comédia hilariante, mas que salienta, não propriamente, a ideia do elevador social que nós temos sempre na Gata Borralheira - da menina pobre, maltratada, que depois se casa com o príncipe. Mas temos este lado humano de uma pessoa que vive na invisibilidade, maltratada, e que, apesar de tudo, mantém uma beleza interior de tal maneira que a sua bondade contagia e transforma todos à sua volta. Portanto, há aqui uma ascensão da obscuridade, neste caso da invisibilidade, até à luz”, diz a soprano.

Referindo ser a Cinderela uma obra “extremamente difícil de executar”, Carla Caramujo destaca o trabalho de Pedro Ribeiro, na encenação, e de Julia Jones, na direção musical. “Temos a honra de ter a Julia Jones, que dirige todas as casas principais europeias, a prestigiar com a sua presença o nosso festival. Isto, para mim, é uma honra e um sinal de que o festival está, de facto, a caminhar numa boa direção”, sublinha.

Entre os dois dias da Cinderela de Rossini, tempo para outra obra que toca no tema da Luz e das Trevas: a oratória Caim, ou O primeiro homicídio, de Alessandro Scarlatti .

Mas qual a diferença entre uma oratória e uma ópera? “A oratória de cariz dramático é uma ópera. Esta designação acaba por ser quase um subterfúgio dos compositores, numa época em que a Igreja controlava aquilo que as artes faziam. E temos compositores muito hábeis, como Scarlatti, a pegar em temas bíblicos e construir um verdadeiro drama, uma verdadeira peça de teatro e música”, explica Carla Caramujo, destacando o tema bíbliíco e a ausência de encenação que distinguem a oratória da ópera.

No caso de Caim, ou O primeiro homicídio, “vamos apresentá-la em formato clássico de oratória, ou seja, em versão concerto. Mas quando entrarem na Igreja da Misericórdia de Óbidos vão ver uma movimentação cénica. Vão ver os cantores em posição de oratória, mas com uma movimentação que vai trazer a ação dramática ao concerto”, garante.

E não hesita mesmo em descrever a obra de Scarlatti como “um verdadeiro thriller da música do século XVIII. E até com uma certa incursão na psicanálise, se é que podemos utilizar este termo.” Isto porque “o libreto [de Pietro Ottoboni], o que evidencia é, em primeiro lugar, esta violência que corrói o ser humano. Caim, depois de cometer este crime hediondo [matar o irmão Abel], vive com um dilema mental de ouvir as vozes de Deus e as vozes de Lucifer na sua cabeça. E isto é o que eu diria serem os alvores da psicanálise. Dois terços da oratória vive deste conflito interior do personagem principal, Caim, que não sabe como lidar com o ato que cometeu. Portanto, a sua mente divaga entre luz e trevas constantemente.”

Voltamos assim ao tema deste FOO, presente também na ópera que encerra o festival: Orfeu e Eurídice, de Christoph Willibald Gluck, com libreto de Ranieri de’ Calzabigi, em cena a 19 e 20 de setembro, no Convento de São Miguel das Gaeiras. “Encerramos o festival com o grande título que reformou a música clássica, o Orfeu de Gluck. Gluck foi muito inovador em relação ao que os seus antecessores barrocos fizeram no trabalho do texto dramático. Ele impõe, dentro de uma estrutura muito clássica de composição, um trabalho do texto que é muito mais próximo do dramatismo da fala. E, aqui, nós temos o ressurgimento do mito grego de Orfeu. E eu queria, precisamente, terminar, encerrar o festival com esta ideia de que a arte é tão redentora e tão transformadora que até desafia a morte”, diz a soprano.

Ao revisitar a história de Orfeu, que, “pelo poder do amor, vai aos abismos, às profundezas da Terra recuperar Eurídice, convence os deuses da morte e do submundo, através da sua música, a que lhe devolvam Eurídice. É mais uma vez o mergulhar nas profundezas humanas através do poder do amor e da sua relação transformadora com a arte”, explica a diretora Artística do FOO.

Com encenação de Carlos Antunes e coreografia da Teresa Simas, a ópera de Gluck traz ao palco três solistas, um corpo de bailado e um coro.

Ensaio de Orfeu e Eurídice, com a mezzo-soprano brasileira Luisa Francesconi no papel de Orfeu  e a soprano portuguesa Ana Quintas como Eurídice.
Ensaio de Orfeu e Eurídice, com a mezzo-soprano brasileira Luisa Francesconi no papel de Orfeu e a soprano portuguesa Ana Quintas como Eurídice.Foto: Festival de Ópera de Óbidos

Três solistas, três mulheres. Mas e Orfeu? “Orfeu é uma mulher. É a mezzo-soprano brasileira Luisa Francesconi”, diz Carla Caramujo, antes de explicar que no século XVIII o papel de Orfeu era interpretado por castrati. “Portanto, nós hoje transpomos ou para contratenor ou para mezzo-soprano. E eu queria muito que Ana Quintans fosse Eurídice. E queria uma voz que fosse um match perfeito com a dela. Eu conheço a Luisa [Francesconi] há muitos anos. Conheço a sua voz. As duas artistas são belíssimas de trabalhar uma com a outra”, garante Carla Caramujo. E destaca ainda “os figurinos incríveis do José António Tenente, que são sempre de uma elegância e de uma beleza fascinante.”

Para a diretora artística, com Orfeu e Eurídice, “o laço do festival fecha-se”. Porquê? “Porque esta produção vai trabalhar muito com vídeo e fotografia. E nós vamos abrir, no dia 5, o festival com uma exposição de fotografia intitulada Luz e Sombra, que nos é oferecida pela nossa mecena, a Ana Proença, da Égide, Associação Portuguesa das Artes.” A exposição, “em que o olhar do fotógrafo escolhe esconder, manter na sombra, detalhes ou evidenciar outros pormenores da sua visão”, é composta por obras selecionadas por um júri do qual Carla Caramujo fez parte e estará patente até 28 de setembro, no Museu Abílio de Mattos e Silva.

Passamos pois do início em imagens ao encerramento com Orfeu, em que “a cenografia é toda criada com vídeo e imagens que refletem a realidade de Orfeu, os abismos e o voltar à luz”, refere Carla Caramujo, antes de recordar que “a ópera é a rainha de todas as artes. Ela é a confluência de todas as formas de arte. E hoje, no século XXI, até as formas artísticas surgem associadas à tecnologia.”

Público heterogéneo

Criado com o objetivo de descentralizar a ópera e ao mesmo tempo desenvolver a lírica nacional, o Festival de Ópera de Óbidos vai para a 4.ª edição. Já criou um público fiel? “O nosso público é muito heterogéneo. Nós continuamos a ter, e vamos continuar a ter durante muitos anos, um público de primeira viagem. Esse público é muito enternecedor. Ao intervalo já vem ter comigo a dizer: ‘Eu já devia ter visto uma obra há mais tempo.’ Depois temos as pessoas da região do Oeste que já são habitués. Mas, desde o ano passado comecei a sentir que estamos a despertar o país todo. Temos gente a deslocar-se do país todo, gente já com conhecimento, com idas à ópera. Alguns melómanos, que até viajam para festivais internacionais e que vão às temporadas internacionais com alguma regularidade, já vêm ao Festival de Ópera de Óbidos.”

E quem for vai encontrar equipas na sua maioria portuguesas. “Os nossos elencos e as nossas equipas são 99% nacionais. Este ano temos como convidada, como já disse, a Julia Jones, que assina a direção Musical da Cinderela, e temos a Luisa Francesconi no papel-título de Orfeu. Mas a aposta é nacional porque há esta preocupação em dar palco aos nossos artistas, ajudar a desenvolver as carreiras dos nossos artistas, das nossas equipas artísticas e técnicas”, garante Carla Caramujo.

E quando começa a pensar numa edição do FOO, a diretora artística do festival pensa logo em “criar harmonia entre as equipas, as obras e os espaços que temos. Não existe nenhum teatro em Óbidos. É uma vila histórica, é um espaço lindíssimo. Então por que não associar a programação a estes espaços da vila?”

Carla Caramujo é diretora artística do Festival de Ópera de Óbidos desde 2025.
“Vamos ter em Óbidos a ‘Ode Sinfónica Vasco da Gama’, de Bizet”
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