Para uma mulher, envelhecer não é um assunto simples. Assim o diz Murielle Joudet no texto de introdução ao seu magnífico livro A Segunda Mulher, agora lançado entre nós com tradução de Isabel Lopes (ed. Zigurate, 2026). As suas palavras envolvem um desencanto surpreendentemente enraizado na mais cristalina juventude: “Aos 25 anos, numa tarde de Verão, vi-me ao espelho e reparei nos meus primeiros cabelos brancos — uma madeixa inteira. Uma coisa mínima, mas era já uma nova etapa nesta existência feminina, que é sempre a história de uma grande solidão em frente ao espelho.” Não há muitos livros que valorizem de igual modo o envelhecimento, os espelhos e as solidões do outro lado do mundo - entenda-se, dos homens. Dir-se-ia que eles vivem num mundo em que não há mulheres, mundo em que tudo seria simples, gratificante e, provavelmente, redentor. O que, bem entendido, não significa que um ensaio como A Segunda Mulher tivesse a obrigação de resolver uma fragilidade cultural que, afinal, afeta todos os sexos. .Acontece que Joudet é uma crítica de cinema (no jornal Le Monde). A sua visão elabora-se a partir de uma genuína paixão cinéfila, tão evidente quanto contagiante. Com um tema central: a vida das atrizes de cinema no ecrã e o seu cruzamento, óbvio ou mascarado, com a biografia privada de cada uma delas. A autora aponta dois clássicos que são pilares da sua “paixão pelo cinema”: All About Eve/Eva (1950), de Joseph L. Mankiewicz, com Bette Davis, e Opening Night/Noite de Estreia (1977), de John Cassavetes, com Gena Rowlands. Embora sugerindo uma rima com O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, o título do livro provém de uma fala da personagem de Rowlands — personagem que é também uma atriz - nesse filme escrito e realizado pelo seu marido: “A certa altura das nossas vidas, a juventude acaba e uma segunda mulher entra em cena.” Nesta perspectiva, a premissa central de A Segunda Mulher não será estranha a uma dimensão romanesca. Mais, porventura menos, que uma trajetória artística, a evolução de cada atriz é revista e analisada como uma saga de emergência ou ocultação dessa “segunda mulher” que assombra todas as mulheres. Os dois primeiros capítulos, dedicados a Nicole Kidman e Thelma Ritter definem os pólos opostos de tal assombramento: a primeira, de Disposta a Tudo (Gus van Sant, 1995) até à série Nove Perfeitos Desconhecidos (2021), terá vivido as transfigurações de alguém que nos aparece “saída do seu corpo, estranha à sua carne”; a segunda, com o seu “estilo realista e atarefado”, sendo Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954) o símbolo perfeito do seu modo de estar, mostra aquilo que os outros, sobretudo as outras, “tentam dissimular cuidadosamente”. A saber: “representar é um trabalho.” A contradição é motivadora, quanto mais não seja porque suscita uma dúvida metódica que não envolve necessariamente o valor profissional que possamos atribuir a esta ou àquela atriz, a uma ou outra representação. Que contradição? Podemos resumi-la numa pergunta: será possível compreender a diversidade da carreira de uma atriz como Nicole Kidman sem reconhecer a avalanche de trabalho(s) que as suas personagens implicam? A Segunda Mulher acaba por ser um livro raro nos dias que correm, celebrando o cinema, não como uma futilidade pitoresca menosprezada pelos valores dominantes da televisão, antes um acontecimento visceral que contamina a nossa percepção do mundo. Assim, como qualquer espectador, Joudet valoriza de modo diverso o labor específico de representação de cada uma das atrizes analisadas. Meryl Streep, por exemplo, surge como “a única, a inigualável”. Isabelle Huppert afirma-se como um pêndulo existencial da França: “Escolhê-la é fazer um retrato moral do próprio país - sempre culpado, sempre violento.” Enfim, Bette Davis, tratada no derradeiro capítulo do livro, é apresentada pela secura das suas próprias palavras: “Envelhecer não é para fracos.” .Scarlett Johansson, realizadora: uma verdadeira revelação