António Sala conheceu António Lobo Antunes há mais de duas décadas. Numa certa noite, em Lisboa, num restaurante, o apresentador da Rádio Renascença viu-o e foi apresentar-se. "A primeira coisa que nos uniu foi o facto de sermos ambos benfiquistas", diz António Sala ao DN. António Sala chegara há pouco tempo dos Estados Unidos onde tinha sido operado a um tumor na cabeça. "E disse-lhe que uma das coisas que eu, quando estive numa situação mais difícil, pensava, é que não queria perder as minhas capacidades, que esperava que aquilo não me retirasse a capacidade de ver, de ler, de raciocinar e de fazer coisas de que eu gosto, e uma das coisas que eu gostava - e que gosto - era de ler as obras dele". . E foi naquele momento que a amizade entre ambos começou. "E logo ali deu-se um clique muito grande e abraçámo-nos", relembra. António Sala na altura apresentava um programa na Rádio Renascença aos sábados de manhã, o "António Sala aos Fins de Semana", e convidou António Lobo Antunes a participar. "E ele disse-me, mas eu não gosto de dar entrevistas. E eu respondi que não gosto de fazer entrevistas, gosto de conversar, o que eu faço é conversas. Então e ele disse, se é para conversar consigo, então vamos a isso". .Espólio de Lobo Antunes quase foi para o estrangeiro antes de ficar em Lisboa. O escritor acabaria por lhe dar várias entrevistas e o contacto entre ambos manter-se-ia. "E foram conversas maravilhosas, únicas. Ficámos amigos, cruzámo-nos muitas vezes, falávamos telefonicamente". Nos últimos anos falavam menos, mas nunca perderam o contacto, diz.E se o Benfica começou por juntá-los, outros elos surgiram. "Unia-nos acima de tudo a ternura. Nós gostávamos um do outro, e ele disse uma vez uma coisa, num testemunho que ele gravou e que entrou no espetáculo comemorativo dos meus 60 anos de carreira, que dois homens, quando são verdadeiramente homens, e é muito raro, diz ele, encontrar um homem na minha vida, e quando se encontram dois homens a sério, têm de ser forçosamente amigos. Ele tinha por mim um carinho muito grande, e eu também". ."Aquele que fez da escrita a vida absoluta", diz Lídia Jorge sobre Lobo Antunes. António Sala diz que "ele era um falso duro, um falso durão. Ele era rebelde na forma como dava certas respostas, ele tinha às vezes determinadas respostas, até em entrevistas que dava para os jornais, para a televisão, para os media, ele era às vezes contundente, e era pouco aquilo que se pode chamar politicamente correto em determinadas coisas. Mas depois, entrando na alma e conhecendo-o mais de perto e como amigo, de uma forma mais profunda, ele não era um tigre, era um gato, doce". Para António Sala, "o António era daquelas pessoas únicas, única a escrever, única a conviver e a amar as pessoas de quem ele gostava, os amigos, a família, e o Benfica, sempre". .Manuel S. Fonseca: “Imagino António Lobo Antunes ao lado de Marcel Proust, James Joyce ou Jorge Luis Borges”.António Lobo Antunes (1942-2026): O escritor dos livros insones